Revolut prepara ofensiva de US$ 1 bilhão na América Latina: o plano da fintech para crescer no Brasil e conquistar novos mercados
Com Brasil e México no radar de investimentos mais robustos, companhia quer fazer da região uma peça-chave para conquistar novos clientes

A Revolut vai colocar US$ 1 bilhão na mesa para acelerar sua expansão na América Latina. O investimento, anunciado na noite desta quinta-feira (5), será destinado ao crescimento da fintech britânica em mercados como Brasil, México, Colômbia, Peru e Argentina — e poderá aumentar conforme os projetos avancem.
O cheque bilionário vem acompanhado de uma meta ambiciosa: a companhia espera que um em cada quatro novos clientes conquistados em 2027 venha da América Latina.
Para chegar lá, a fintech pretende acelerar a operação brasileira, consolidar sua presença no México e abrir caminho em outros três países.
A estratégia combina novos produtos, campanhas de marketing e uma infraestrutura tecnológica que, segundo a administração, permite entrar em novos mercados sem precisar construir o negócio do zero a cada vez.
“Precisamos vencer na América Latina como parte da nossa visão global”, afirmou Ignacio Zunzunegui, diretor de crescimento da Revolut para a região, em conversa com jornalistas.
A fintech já reúne cerca de 80 milhões de clientes no mundo e acaba de alcançar um valuation de US$ 115 bilhões em uma nova rodada de captação.
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O valor representa uma alta de 53% em relação ao valuation de US$ 75 bilhões atribuído à empresa em novembro de 2025 e coloca a companhia em um patamar superior ao dobro do valor de mercado do Nubank.
Segundo a Revolut, o apetite dos investidores tem relação com a combinação de crescimento e rentabilidade que a empresa vem apresentando. Em 2025, a receita avançou 46%, para US$ 6 bilhões, enquanto o lucro antes dos impostos cresceu 57%, a US$ 2,3 bilhões. A margem antes dos impostos chegou a 38%.
Essa geração de resultados dá à empresa fôlego para financiar a expansão sem depender de uma abertura de capital no curto prazo, afirmam os executivos.
A administração da Revolut confirma que trabalha para um IPO, mas destaca que não há urgência: a companhia é lucrativa, tem um balanço saudável e consegue crescer com recursos próprios e operações secundárias de ações.
Brasil e México no centro da aposta da Revolut
Agora, parte dessa capacidade de expansão será testada em uma região que reúne mercados de grande escala, consumidores cada vez mais habituados aos serviços digitais e concorrentes já bem estabelecidos.
O Brasil já ocupa uma posição central nessa estratégia de crescimento. A Revolut não divulga o número de clientes no país, mas afirma que a operação brasileira é a maior da região.
Segundo Zunzunegui, o mercado passou por um ponto de inflexão neste ano: a taxa de crescimento mais do que triplicou em relação ao início de 2026.
A companhia espera dobrar o número de clientes que conquista no Brasil em relação ao ano anterior, tanto neste ano quanto em 2027.
Para sustentar esse ritmo, prepara uma ampliação dos investimentos em publicidade e estuda trabalhar com embaixadores locais.
Embora parte das iniciativas ainda dependa de aprovação interna, os executivos afirmam que o Brasil, ao lado do México, está entre os mercados que devem receber mais recursos da companhia.
A operação mexicana dá uma dimensão do ritmo que a Revolut pretende imprimir aos próximos lançamentos. Desde a estreia, em janeiro, a fintech conquistou 1 milhão de clientes em apenas oito meses.
Segundo os executivos, o avanço foi favorecido pela entrada no país já com licença bancária completa e uma oferta ampla de produtos desde o primeiro dia.
Brasil e México estão entre os cinco mercados de crescimento mais acelerado da Revolut. Para Zunzunegui, os dois devem continuar entre os principais motores de expansão da companhia em escala global em 2027.
Em busca dos 100 milhões de clientes
Na corrida para chegar aos 100 milhões de clientes, a Revolut quer ampliar sua presença para além das telas dos celulares. No Brasil, a estratégia inclui reforçar a marca em aeroportos, com campanhas publicitárias e, mais adiante, a instalação de máquinas para emitir cartões a clientes em trânsito.
A iniciativa segue uma estratégia que a empresa já aplica em mercados europeus, onde os aeroportos funcionam como vitrines para uma marca que nasceu oferecendo serviços de transferência internacional e câmbio.
“Não há nada mais global do que estar presente em aeroportos”, afirmou Glauber Mota, CEO da operação brasileira.
A ideia é aproveitar o tempo de espera dos passageiros para apresentar os serviços da fintech e associar a marca a situações em que soluções financeiras internacionais podem fazer diferença.
A Fórmula 1 também entrou nessa estratégia de aproximação com o público brasileiro.
A parceria com a equipe Audi Revolut e a campanha com o piloto Gabriel Bortoleto fazem parte da tentativa de construir uma identidade local para uma marca que ainda busca ampliar seu reconhecimento no país.
Zunzunegui descreveu a associação como uma oportunidade de explicar os produtos da empresa “com sotaque brasileiro”.
Colômbia, Peru e Argentina entram na rota
Depois de Brasil e México, a Revolut prepara a entrada em Colômbia, Peru e Argentina.
A seleção dos países, segundo Carlos Daniel Urrutia, general manager de expansão internacional da companhia, levou em conta o ambiente regulatório, o tamanho e o perfil da população, a adesão a serviços digitais e a conexão com mercados em que a empresa já atua.
Na Colômbia, a fintech obteve autorização bancária completa e está na etapa final de testes internos e externos antes do lançamento.
No Peru, recebeu a primeira etapa da autorização regulatória para constituir o banco e se prepara para a auditoria pré-operacional.
Já na Argentina, adquiriu uma instituição financeira inativa, assumiu o controle operacional e pretende transformá-la no Revolut Bank Argentina. A previsão é lançar contas no mercado argentino em meados do segundo semestre de 2027.
A companhia também vê o Chile como um destino de interesse, embora ainda não tenha anunciado um cronograma para a entrada no país. “É uma questão de quando, não de se”, afirmou Urrutia.
A Revolut aposta em uma vantagem que vem da própria presença internacional: a possibilidade de atrair consumidores antes mesmo de chegar oficialmente a determinado mercado.
Zunzunegui descreve esse movimento como uma espécie de “cavalo de Troia” para a expansão latino-americana, com anúncios de lançamento em um país capazes de gerar procura entre pessoas daquela nacionalidade que vivem em outros mercados.
“Quanto mais globais somos, mais rápido crescemos em todos os mercados”, afirmou Zunzunegui.
O efeito de rede ajuda a explicar por que a Revolut afirma que metade de seu crescimento vem do "boca a boca".
Segundo o executivo, a recomendação espontânea entre usuários reduz o custo de aquisição de clientes em comparação com outros participantes do setor — uma vantagem importante em uma estratégia que prevê ampliar a presença em vários países ao mesmo tempo.
Tecnologia como atalho para cruzar fronteiras
Para sustentar essa expansão, a Revolut aposta em uma infraestrutura tecnológica construída desde o início para operar em diferentes países.
A plataforma foi desenvolvida de forma modular, permitindo reaproveitar sistemas, produtos e integrações em mercados distintos. Na avaliação da companhia, isso reduz a necessidade de montar grandes equipes e desenvolver toda a estrutura novamente a cada lançamento.
A estratégia de reaproveitar a estrutura também ajuda a explicar por que a empresa diz conseguir entrar em novos mercados com equipes menores do que as exigidas por outros bancos digitais.
Em vez de replicar toda a operação, a fintech adapta uma plataforma já existente às regras e às necessidades de cada país.
Revolut vê crédito como oportunidade, mas com freio no risco
A expansão da Revolut também passa por uma frente importante para os bancos latino-americanos: o crédito.
A instituição considera os empréstimos uma necessidade relevante dos consumidores da região e quer aprofundar sua oferta, mas afirma que pretende evitar uma exposição excessiva do balanço.
Os executivos reconhecem que os consumidores latino-americanos estão acostumados a recorrer ao crédito no dia a dia, mas ponderam que a dependência elevada de empréstimos pode aumentar os riscos em períodos de desaceleração econômica.
“Tratamos o crédito como um benefício adicional”, afirmou Mota. Segundo o CEO da operação brasileira, a companhia pretende manter uma estrutura de balanço sólida e diversificada e recorrer a instrumentos como securitizações para administrar parte dos riscos.
A proporção de empréstimos em relação aos depósitos está atualmente entre 3% e 4%, de acordo com a empresa. Na avaliação dos executivos, o indicador deixa espaço para ampliar a oferta sem abandonar a postura conservadora defendida pelo CEO global, Nik Storonsky.
Por isso, o investimento de US$ 1 bilhão anunciado para a América Latina não será reservado especificamente para a expansão do crédito.
Segundo os porta-vozes, a maior parte dos recursos será direcionada ao crescimento geral das operações nos países em que a companhia já atua ou pretende entrar.
A cautela também aparece na estratégia de aquisições (M&As). A compra do banco inativo na Argentina foi apresentada como uma oportunidade pontual, e a Revolut afirma não ter outros movimentos de fusões e aquisições planejados para a região neste momento.
O discurso é de que prefere desenvolver internamente seus produtos e manter o controle sobre a tecnologia e a experiência oferecida ao cliente.
No Brasil, a companhia também não estabeleceu prazo para obter uma licença bancária completa.
A meta de longo prazo é operar com esse tipo de autorização nos 100 países em que pretende estar presente, mas os executivos afirmam que não há pressa para fazer a mudança no mercado brasileiro. A fintech já opera sob a marca Revolut sem precisar incluir a palavra “banco” no nome comercial.
Revolut quer ser a “Apple dos serviços bancários”
A estratégia da Revolut não se resume a aumentar o número de países ou clientes.
A fintech quer construir uma marca que reúna diferentes serviços financeiros em uma mesma plataforma e tenha apelo também entre consumidores dispostos a pagar por benefícios adicionais.
“Queremos ser a Apple dos serviços bancários em cada mercado em que operamos”, afirmou Zunzunegui.
É nesse contexto que a empresa destaca o desempenho do plano Ultra no Brasil. A modalidade premium oferece vantagens como acúmulo de milhas, experiências e gift cards.
Segundo os executivos, o Brasil é o mercado em que o plano mais cresce em número de usuários.
Mas a Revolut não acredita que precise tirar todos os clientes de um concorrente para avançar. Os executivos citaram uma média de 6,3 aplicativos financeiros por brasileiro para argumentar que há espaço para mais de uma instituição na rotina do consumidor.
“Não é um jogo de soma zero”, afirmou Urrutia. “Nossa principal competição é interna: desafiar a nós mesmos a entregar o melhor produto a cada trimestre.”
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