O trunfo da Eneva (ENEV3) que pode valer ouro na nova fase do setor elétrico, segundo o BB-BI — e render alta de até 33% para ação
Banco inicia cobertura da ação ENEV3 com recomendação de compra e diz que o gás natural pode assumir um papel ainda mais estratégico daqui para frente

O Brasil passou anos acelerando a expansão da energia solar e eólica. O sistema ficou mais limpo, mais barato em muitos momentos — mas também mais dependente do clima.
Acontece que, quando o sol se põe ou o vento perde força, alguém precisa assumir a conta para manter a indústria funcionando, os hospitais ligados e as luzes acesas. É justamente nessa lacuna que o BB Investimentos (BB-BI) enxerga uma oportunidade estrutural para a Eneva (ENEV3).
Na visão do banco, a companhia reúne um conjunto de ativos difícil de replicar no setor elétrico brasileiro e pode ser uma das maiores beneficiárias da próxima etapa da transição energética.
Por isso, o BB-BI iniciou a cobertura da ação com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 35 até o fim de 2027, potencial de valorização de aproximadamente 33% sobre os níveis atuais.
O diferencial, segundo os analistas, vai muito além das termelétricas. A Eneva controla praticamente toda a cadeia do negócio: produz o próprio gás natural, transporta o combustível e gera a energia.
Esse modelo integrado — conhecido como Reservoir-to-Wire (R2W), ou "do reservatório à rede elétrica" — reduz a dependência de fornecedores, protege as margens da volatilidade internacional do gás e cria uma vantagem competitiva que poucos concorrentes conseguem reproduzir.
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Transição energética pode favorecer o gás natural — e a Eneva (ENEV3)
O BB Investimentos avalia que a discussão sobre o papel do gás natural mudou.
A questão já não é mais se ele continuará relevante durante a transição energética, mas quanto espaço deverá ganhar à medida que a matriz brasileira incorpora cada vez mais fontes renováveis intermitentes.
Nos últimos anos, a expansão da capacidade instalada foi puxada principalmente por parques solares e eólicos. Ao mesmo tempo, boa parte das novas hidrelétricas passou a contar com reservatórios menores, reduzindo a capacidade de armazenar energia e regular a oferta ao longo do dia.
O resultado é um sistema mais dependente de usinas capazes de entrar rapidamente em operação quando a geração renovável diminui.
"O gás natural assume papel estratégico na expansão e na transição energética brasileira, atuando como combustível capaz de conciliar segurança energética, competitividade econômica e redução de emissões quando comparado a outros combustíveis fósseis", afirma o BB Investimentos.
Além disso, o consumo de eletricidade também mudou. A forte expansão da geração solar distribuída deslocou o pico de demanda para o início da noite, justamente quando a produção fotovoltaica praticamente desaparece.
É nesse intervalo que as termelétricas ganham importância para garantir estabilidade ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Mercado ainda está longe de atingir o tamanho necessário
Na avaliação do BB Investimentos, essa transformação ainda está apenas começando.
Segundo projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil precisará adicionar mais de 26 gigawatts (GW) de capacidade em usinas térmicas a gás natural na próxima década, além de renovar contratos de plantas que estão chegando ao fim.
O primeiro passo ocorreu em março deste ano, quando aproximadamente 9,5 GW foram contratados no Leilão de Reserva de Capacidade.
E a Eneva foi uma das grandes vencedoras. A companhia garantiu contratos para usinas existentes e novos projetos, assegurando receitas de longo prazo e ampliando significativamente sua capacidade instalada.
Segundo o BB Investimentos, os contratos obtidos no leilão elevarão a capacidade da companhia para 10,6 GW, incluindo cerca de 3,5 GW de novos empreendimentos.
Com essa expansão, o banco estima que o lucro líquido da empresa poderá saltar de cerca de R$ 712 milhões em 2026 para R$ 5,2 bilhões em 2029.
O trunfo da Eneva que os rivais não conseguem copiar facilmente
Se o cenário favorece o setor, o diferencial competitivo explica por que o BB Investimentos escolheu justamente a Eneva.
Enquanto boa parte das geradoras compra gás natural de terceiros, a companhia produz parte relevante do combustível utilizado em suas próprias usinas.
Essa integração reduz a exposição às oscilações internacionais do preço do gás e melhora a rentabilidade dos ativos.
"A verticalização permite o aproveitamento do gás próprio como combustível para suas usinas, reduzindo a exposição à volatilidade de preços internacionais e proporcionando vantagens competitivas relevantes em relação a geradoras dependentes exclusivamente da aquisição de gás de terceiros", destaca, em relatório.
O modelo vai além da geração elétrica. A empresa também comercializa gás natural tanto dentro da malha nacional de gasodutos quanto em regiões sem acesso à infraestrutura tradicional, a fim de atender clientes industriais e do setor de transporte.
Outro diferencial apontado pelo BB Investimentos é o perfil dos contratos. Parte relevante da remuneração da Eneva é fixa, garantindo retorno sobre os investimentos realizados em infraestrutura.
Enquanto isso, a outra parcela depende do despacho das usinas e do consumo dos clientes, criando potencial de ganhos adicionais quando a demanda aumenta.
O que pode ofuscar o brilho da Eneva?
Apesar da visão positiva, o BB Investimentos reconhece que a tese não está livre de riscos.
A principal preocupação está na execução dos novos projetos contratados, em um momento de forte demanda por equipamentos e pressão sobre custos de construção.
Outro ponto de atenção é a alavancagem financeira, já que o ciclo de investimentos exigirá novas captações em um ambiente de juros ainda elevados.
Também existe um risco regulatório. Entidades do setor continuam questionando judicialmente parte dos custos do Leilão de Reserva de Capacidade realizado em março, embora o certame já tenha sido homologado pelo governo.
Ainda assim, o banco considera que o balanço entre riscos e oportunidades continua amplamente favorável.
"A combinação do cenário favorável à expansão dos segmentos de atuação com a vantagem competitiva do modelo de negócios da Eneva a posiciona como uma das principais plataformas de crescimento do setor de energia brasileiro ao longo da próxima década."
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