Mercosul e União Europeia assinam acordo comercial sem a presença de Lula; entenda o que falta para o tratado valer na prática
A assinatura, no entanto, não faz o acordo valer imediatamente. Após o evento, o texto será submetido à ratificação do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais de cada país do Mercosul

As primeiras negociações para o tratado que abre caminhos para a criação da maior área de livre-comércio do mundo começaram há quase 27 anos, em junho de 1999. Depois de mais de um quarto de século de indas e vindas, o acordo está em vias de sair do papel: representantes dos blocos de integração regional Mercosul e União Europeia (UE) assinam, neste sábado (17) o acordo comercial.
A assinatura vai ocorrer durante evento em Assunção, no Paraguai – país que, desde dezembro de 2025, preside temporariamente o Mercosul.
O texto foi aprovado por ampla maioria dos 27 países que integram a UE. Com o sinal verde de ambos os blocos, o tratado tem potencial de integrar um mercado de cerca de 720 milhões de pessoas, com 450 milhões na UE e cerca de 295 milhões no Mercosul.
A cerimônia de assinatura acontece a partir das 12h15 (horário de Brasília), no teatro José Asunción Flores, do Banco Central paraguaio.
E não é a primeira vez que o teatro é palco de um evento histórico: em 1991, foi assinado, no mesmo local, o Tratado de Assunção, considerado o primeiro passo para a criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul), hoje composto por Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai.
O que falta para o acordo entre Mercosul e União Europeia sair do papel?
A assinatura, no entanto, não faz o acordo valer imediatamente. Após o evento, o texto será submetido à ratificação do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais de cada país integrante do Mercosul.
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A entrada em vigor da parte comercial do acordo depende da aprovação legislativa, com previsão de implementação gradual ao longo dos próximos anos.
Ainda assim, a expectativa é que o tratado seja implementado gradualmente e que seus efeitos práticos demorem algum tempo para começar a ser sentidos.
Nesta quinta-feira (15), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, disse que o acordo comercial deve entrar em vigor ainda no segundo semestre deste ano.
"Assinado, o Parlamento Europeu aprova sua lei e nós, no Brasil, aprovamos a lei, internalizando o acordo. A gente espera que aprove a lei ainda neste primeiro semestre e que tenhamos, no segundo semestre, a vigência do acordo. Aí, ele entra imediatamente em vigência”, afirmou Alckmin.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que a implementação do tratado pode incrementar as exportações brasileiras em cerca de US$ 7 bilhões e ampliar a diversificação das vendas internacionais brasileiras, beneficiando inclusive à indústria nacional.
Ausência de Lula no evento
Por questões de agenda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não viajará ao Paraguai. O Brasil será representado na cerimônia de assinatura pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Porém, ontem (16), Lula recebeu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, no Rio de Janeiro. Durante o encontro, eles discutiram a implementação do acordo comercial e outros temas da agenda internacional.
Já nesta manhã, o Lula comemorou o acordo entre o Mercosul e a União Europeia por meio das redes sociais. Ele afirmou que o tratado representa a vitória do multilateralismo e trará benefícios para as populações dos países de ambas as regiões.
"Um marco histórico de fortalecimento do diálogo e do entendimento entre os blocos, que vai criar oportunidades mútuas de emprego, geração de renda, desenvolvimento sustentável e progresso econômico", afirmou o presidente, em publicação no X.
Na mensagem, Lula também agradeceu aos elogios feitos a ele pela presidente da Comissão Europeia. Na véspera, Ursula von der Leyen afirmou, em uma publicação, que a liderança e o comprometimento do presidente brasileiro tornaram o acordo possível.
"Muito obrigada por fazer história conosco. Entre a Europa e o Brasil, o melhor ainda está por vir. Compartilhamos a ambição de um mundo baseado em confiança, comércio e trabalho em equipe. É assim que melhor entregaremos para o nosso povo", disse.
Apesar da ausência de Lula, o evento deste sábado contará com a presença de representantes dos países-membros, a exemplo dos presidentes Javier Milei (Argentina); Rodrigo Paz (Bolívia); Santiago Peña (Paraguai) e Yamandú Orsi (Uruguai), bem como da cúpula europeia, como Ursula von der Leyen e António Costa.
Confira os principais pontos do acordo entre Mercosul e União Europeia:
Eliminação de tarifas alfandegárias
- Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços;
- Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
- União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
Ganhos imediatos para a indústria
- Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais.
- Setores beneficiados: Máquinas e equipamentos; automóveis e autopeças; produtos químicos; aeronaves e equipamentos de transporte.
Acesso ampliado ao mercado europeu
- Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo;
- UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões;
- Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.
Cotas para produtos agrícolas sensíveis
- Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação;
- Acima dessas cotas, é cobrada tarifa;
- Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições. O mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;
- Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;
- No mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.
Salvaguardas agrícolas
- UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se: importações crescerem acima de limites definidos; preços ficarem muito abaixo do mercado europeu. A medida vale para cadeias consideradas sensíveis.
Compromissos ambientais obrigatórios
- Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
- Cláusulas ambientais são vinculantes;
- Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.
Regras sanitárias continuam rigorosas
- UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários.
- Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.
Comércio de serviços e investimentos
- Redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros.
- Avanços em setores como: serviços financeiros; telecomunicações; transporte e serviços empresariais.
Compras públicas
- Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE;
- Regras mais transparentes e previsíveis.
Proteção à propriedade intelectual
- Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
- Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.
Pequenas e médias empresas (PMEs)
- Capítulo específico para PMEs;
- Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;
- Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.
Impacto para o Brasil
- Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;
- Maior integração a cadeias globais de valor;
- Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.
Próximos passos
- Assinatura prevista para 17 de janeiro, no Paraguai;
- Aprovação pelo Parlamento Europeu;
- Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;
- Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;
- Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada país.
*Com informações da Agência Brasil e Estadão Conteúdo.
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