Eleições, juros e dólar: como investir com tantas incertezas em 2026? Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG, responde
Em evento do Seu Dinheiro, Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, diz como decifrar o cenário econômico em 2026
O ano já começou agitado. O mundo assistiu à invasão da Venezuela e às ameaças sobre a Groenlândia, vindas dos Estados Unidos, além da guerra tarifária. Neste ano, também teremos Copa do Mundo, cortes de juros no Brasil e as discussões sobre gastos do governo, durante a eleição presidencial, que irão ditar os rumos dos investimentos neste e nos anos seguintes.
O mercado sente também o impacto dos ataques do governo norte-americano à independência do banco central do país, o Federal Reserve (Fed), e ao seu presidente, Jerome Powell. A geopolítica tem dado o tom há muitos anos, desde a invasão da Rússia à Ucrânia, a guerra de Israel em Gaza e os ataques às instalações nucleares no Irã.
“Hoje, o mundo tem um risco geopolítico muito maior. Isso pode se agravar eventualmente? Pode. E é algo muito difícil de mensurar”, afirma Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, que participou do painel sobre Macroeconomia do evento Onde Investir 2026, do Seu Dinheiro.
Esta matéria faz parte de uma série especial do Seu Dinheiro sobre onde investir no ano de 2026. Eis a lista completa:
- Macroeconomia (você está aqui)
- Ações
- Renda fixa
- FIIs
- Investimentos internacionais
- Criptomoedas
- Alocação
Riscos vindos dos Estados Unidos
É difícil saber quais são os impactos da política dos Estados Unidos na economia, uma vez que os desfechos são incertos.
“No ano passado, vimos uma postura muito agressiva do ponto de vista comercial dos Estados Unidos em relação à China. Depois, os dois países sentaram à mesa e recuaram, porque os dois são muito interdependentes”, diz Almeida.
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Um eventual maior controle dos EUA na extração de petróleo na Venezuela poderia, no médio e longo prazo, aumentar a oferta de combustível no mundo.
No entanto, isso não é tão simples: o petróleo disponível no país latino-americano é mais pesado, o que exige mais investimentos. E, sem investimentos por muitos anos, a estrutura de extração do país está sucateada. Seriam necessários cerca de US$ 100 bilhões para recuperar essa infraestrutura no país.
No entanto, com o risco geopolítico, as petroleiras norte-americanas e até mesmo globais não têm segurança para fazer esses aportes pesados, sem garantia de retorno.
“Para ter um aumento muito forte da produção de petróleo na Venezuela, precisaríamos de um subsídio muito grande do governo norte-americano para as companhias petroleiras, algo improvável, porque os Estados Unidos também têm um problema fiscal”, declara Almeida.
Os investidores de todo o mundo também estarão de olho nas decisões de cortes de juros nos EUA. Em um cenário otimista, os juros podem cair para cerca de 3%. No entanto, se a inflação mostrar uma resiliência maior do que o esperado, esse ciclo de queda pode ser interrompido.
Selic deve cair, mas juros reais continuam altos
A grande dúvida do mercado não é SE haverá um ciclo de corte de juros no Brasil, mas sim QUANDO começará esse ciclo, se em janeiro ou em março.
A economia está desacelerando, assim como a inflação, então há espaço para um corte já em neste mês. No entanto, como o recado do Banco Central na última reunião do Copom foi duro, o mercado espera que essa redução chegue apenas em março.
Ainda que o mercado não saiba quando a Selic vai começar a cair, a expectativa é que a taxa chegue perto dos 12,25% até o final do ano. No entanto, caso a inflação se mantenha na casa dos 4%, o juro real ainda é muito alto, de 8%.
Além de ter impacto na renda variável, uma vez que investidores preferem a renda fixa quando os juros estão altos, a Selic elevada também afeta o endividamento e os planos de expansão das companhias.
PIB desacelera
“É impressionante um país com juros tão alto ainda crescer”, diz Mansueto Almeida. Ele destaca o aumento do PIB, a queda da inflação e o desemprego em níveis historicamente baixos em 2025.
Segundo o economista, o país deve continuar crescendo, embora em um ritmo menor. “Se a gente não fizer tolice e der uma solução para o fiscal, a gente cresce”, diz.
Além disso, neste ano, o crescimento será desigual; as companhias mais sensíveis a crédito sofrerão mais.
Com desemprego baixo, a massa salarial real segue em expansão, sustentando o consumo — mas em ritmo menor do que nos últimos anos. O endividamento da população continua alto, o que reduz a capacidade de consumo e limita o crescimento das empresas.
E como investir?
Mesmo no cenário otimista, o Brasil terá em 2026 seu segundo ano de juros altos. Isso significa que a renda fixa continuará atrativa. No entanto, ainda há espaço para boas surpresas na bolsa.
Para Almeida, 2026 será um divisor de águas, separando empresas capitalizadas — com boas oportunidades — daquelas endividadas.
O economista cita o desempenho das construtoras focadas em baixa renda e alta renda no ano passado, além dos bancos.
Enquanto a bolsa brasileira foi impulsionada por um movimento global em 2025, essa ajuda não deve ocorrer neste ano, já que os juros continuam altos.
Eleições no Brasil e a discussão fiscal
A única certeza é que as eleições trarão muita instabilidade, não só para a bolsa, mas também para o câmbio, justamente pelas discussões sobre os gastos do governo e o risco da dívida pública.
A questão fiscal continuará no centro das preocupações, tanto em 2026 quanto nos próximos anos, a depender dos resultados e discussões trazidas durante o período eleitoral.
A dívida pública teve um aumento de alta de 12 pontos percentuais em relação ao PIB. No início do governo Lula, a dívida pública era 71,7% do PIB, e deverá terminar o governo em 83,6% do PIB, segundo dados do Tesouro Nacional.
Para os próximos anos, qualquer expansão fiscal muito grande afeta a dívida pública e o custo do crédito, além de poder impactar o crescimento da economia e da inflação.
“Ninguém espera nenhuma mudança estrutural da economia brasileira em 2026. Nós não vamos equacionar a questão fiscal em 2026, porque é um ano de eleição. Mas, terminando a eleição, todos os investidores vão perguntar qual é o plano do governo eleito para lidar com a questão fiscal”, diz o economista-chefe do BTG.
Segundo ele, o mercado estará de olho nas discussões sobre como tornar os projetos de transferência de renda, como o Bolsa Família, mais eficientes e atingir o público que precisa, sem aumentar os gastos públicos.
Outra discussão importante, na visão dele, é o nível do aumento real do salário-mínimo, que afeta os gastos do governo com previdência.
Confira na íntegra todos os painéis do evento Onde Investir 2026 a seguir:
O que afetou o ano de 2025
No início de 2025, os EUA eram destino preferido dos investidores. Porém, o tarifaço anunciado por Donald Trump em abril trouxe incertezas — mesmo com algumas tarifas sendo posteriormente revertidas.
Isso levou a uma busca de investidores por ativos mais seguros, impulsionando o ouro e derrubando o dólar — além do movimento de bancos centrais globais, que buscavam diversificar suas reservas diminuindo a participação dos títulos norte-americanos.
As bolsas norte-americanas, por outro lado, foram impulsionadas pelos investimentos em inteligência artificial, de empresas de tecnologia a construtoras de data centers.
O investidor global buscou diversificar sua carteira, para fugir do risco dos EUA. “É muito difícil a gente achar que toda essa confusão institucional nos Estados Unidos não terá impacto, por exemplo, na decisão de investimento em vários setores da economia por parte de várias empresas”, afirma Mansueto Almeida.
Assim, esse movimento ajudou o Brasil. “A gente teve um movimento de diversificação de carteira que prevaleceu, e esse movimento de diversificação de carteira foi muito positivo para economias emergentes, como Chile, Colômbia, México, Brasil”, diz.
“Ninguém esperava um crescimento tão forte da bolsa brasileira em 2025”, acrescentou o economista-chefe do BTG.
Segundo ele, muitos gestores locais, que operavam vendidos em Brasil (apostando na queda das ações), precisaram se desfazer de suas posições depois de terem sido surpreendidos pelo fluxo positivo de capital estrangeiro.
“Mas um ponto de atenção: os problemas do Brasil no início de 2026 são exatamente os mesmos problemas que nós tínhamos no início de 2025, mas com um cenário um pouco melhor de inflação”, declara.
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