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O que muda na nossa identidade profissional quando parte relevante do trabalho operacional deixa de ser feita por humanos?
O que muda quando o trabalho — e o organograma — deixam de ser só humanos? Recentemente, ao revisitar a estrutura dos times com os quais trabalho, me peguei refletindo sobre algo que talvez se torne cada vez mais comum: quem, de fato, faz parte do time?
Não falo apenas de pessoas, mas principalmente dos agentes de inteligência artificial (IA) que já participam ativamente do meu dia a dia de trabalho. Eles analisam dados, organizam informações, sugerem caminhos, aceleram decisões.
Ainda não aparecem formalmente nos organogramas — mas já influenciam resultados, prioridades e até a forma como pensamos.
O que muda na nossa identidade profissional quando parte relevante do trabalho operacional deixa de ser feita por humanos?
Se eu fosse honesto comigo mesmo — e com você — diria que vivo essa transição em estados emocionais bem distintos. Inclusive já abordei isso aqui recentemente, em uma coluna em que tratei do impacto da IA sobre os cargos de entrada.
Há dias de genuíno entusiasmo. A sensação de ganhar tempo, profundidade e qualidade nas análises. De poder sair do “apagar incêndios” para olhar o sistema, o todo, o impacto. Nesses dias, a tecnologia parece uma grande aliada do pensamento humano.
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Mas há dias em que a pergunta vem quase como um incômodo silencioso: qual será, afinal, o meu valor como humano nesse novo arranjo?
Esta, talvez, seja uma das perguntas mais importantes da nossa geração profissional.
Porque se a inteligência artificial assume atividades operacionais, repetitivas e até analíticas em certos níveis, o que sobra — ou melhor, o que emerge — para nós?
Minha hipótese — ainda em construção — é que o trabalho humano não perde valor. Ele muda de camada.
Talvez a mudança mais profunda trazida pela IA não esteja apenas no que fazemos, mas em como o trabalho acontece.
Quando agentes passam a executar partes relevantes do trabalho, deixamos de atuar de forma isolada e passamos a operar em conjunto com sistemas inteiros de tecnologia. O trabalho deixa de ser um ato individual para se tornar uma produção coletiva entre humanos e máquinas.
Por muito tempo, pensamos carreira como algo essencialmente individual: minhas competências, minhas entregas, minha performance. Cada vez mais, porém, o trabalho passa a acontecer em sistemas sociotécnicos, nos quais humanos e tecnologias produzem valor juntos.
Nesse contexto, não se trata apenas de executar melhor uma tarefa, mas de saber: (1) como configurar o sistema ao redor do próprio trabalho; (2) como interagir com dados, agentes e automações e (3) como usar essa interação para ampliar — ou limitar conscientemente — o impacto das próprias decisões.
Maturidade profissional, então, deixa de ser apenas senioridade, cargo ou tempo de casa. Passa a ser a capacidade de desenhar bons sistemas de trabalho, e não apenas operar dentro deles.
É uma mudança sutil — mas profunda.
Se o trabalho passa a ser mais sistêmico, também mudam os critérios que diferenciam profissionais.
Durante muito tempo, o destaque esteve associado a acesso à informação, domínio técnico ou capacidade de execução. Com a inteligência artificial, esses diferenciais tornam-se mais acessíveis — e, portanto, menos raros.
O que começa a diferenciar pessoas não é mais ter a resposta, mas como elas pensam, decidem e se posicionam diante dos problemas.
Ganha relevância quem:
Tudo isso continua fora do alcance da automação plena. E talvez continue por mais um bom tempo.
O paradoxo é que, quanto mais a tecnologia avança, mais valiosas se tornam as competências humanas.
Estamos vivendo uma transição profunda — organizacional, profissional e emocional. Ainda sem mapas claros. Ainda sem respostas definitivas.
A pergunta, então, deixa de ser “a IA vai substituir meu trabalho?”
E passa a ser: como eu estou me desenvolvendo para trabalhar com ela sem abrir mão do que me torna essencialmente humano?
Talvez, em breve, a pergunta não seja mais apenas quem está no organograma — mas quem, de fato, está pensando o trabalho.
Até a próxima,
Thiago Veras
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