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Em apenas 11 pregões, o mercado brasileiro perdeu R$ 306 bilhões, mas a queda indiscriminada abriu uma janela rara para comprar ações com dividendos de até 15%, segundo Christian Keleti, CEO da AlphaKey

A última vez que Christian Keleti, CEO da gestora Alphakey, encontrou uma relação tão favorável entre risco e retorno na bolsa brasileira, o país ainda enfrentava a recessão do governo Dilma Rousseff. Uma década depois, o gestor acredita que o mercado voltou a oferecer uma janela rara para quem está disposto a comprar ações em meio à turbulência.
“Eu vejo uma simetria que eu não via, pelo menos, há uns 10 anos, quando a gente teve o estresse da Dilma”, afirmou, em entrevista ao Money Times, portal parceiro do Seu Dinheiro
O ponto de partida dessa avaliação é a intensidade da recente correção. Em apenas 11 pregões, as companhias listadas perderam, juntas, R$ 306 bilhões em valor de mercado — uma redução de 6,2%. Para dimensionar o tombo, é como se praticamente uma Vale (VALE3), avaliada em R$ 304,5 bilhões, tivesse desaparecido da bolsa.
A baixa ganhou força com a piora do risco-país. A inflação continua pressionada, os juros estão na casa dos 14% e as preocupações com as contas públicas voltaram ao centro das decisões dos investidores.
A possibilidade de reeleição do presidente Lula também passou a ser incorporada aos preços. O mercado enxerga o petista como um governante mais inclinado à expansão dos gastos e, portanto, com menor disposição para conduzir um ajuste fiscal.
Foi justamente a combinação entre aversão ao risco e vendas indiscriminadas que abriu a oportunidade identificada por Keleti. Na avaliação dele, o mercado não separou as empresas mais vulneráveis daquelas que continuam entregando bons resultados — e derrubou os preços de ambas.
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Em vez de apostar em uma recuperação generalizada da bolsa, Keleti concentra a carteira em companhias capazes de atravessar o ambiente adverso e remunerar o acionista enquanto isso. Nesse grupo estão empresas de energia, saneamento, shopping centers e construção civil.
A Copasa (CSMG3) é um dos principais exemplos. Pelas contas do gestor, a companhia pode distribuir dividendos equivalentes a 10% a 15% do preço da ação. O potencial não existia com a mesma clareza dois anos atrás. Desde então, o processo de privatização alterou a percepção sobre a empresa e ampliou a possibilidade de geração de valor.
Além dela, segundo o CEO, a Copel (CPLE6) oferece uma tese semelhante e também pode entregar um dividend yield próximo de 10%.
Essas companhias já chegaram a negociar com descontos elevados em relação às NTN-Bs, títulos públicos atrelados à inflação. Agora, além da diferença de preço, contam com estruturas privadas que, na leitura do gestor, tornam as teses mais atraentes.
A Equatorial (EQTL3) também negocia com desconto semelhante ao dos títulos públicos indexados à inflação, mas ocupa um espaço diferente na carteira.
Ao contrário de Copasa e Copel, a companhia não se destaca pelo pagamento de dividendos. O dinheiro permanece no negócio para financiar a expansão em saneamento, inclusive por meio dos investimentos na Sabesp (SBSP3) e na Copasa.
Na prática, enquanto algumas empresas do setor devolvem caixa ao acionista, a Equatorial reinveste os recursos para sustentar o crescimento.
A mesma busca por renda recorrente orienta a escolha de Keleti entre as operadoras de shopping centers. Embora enxergue preços atraentes em diferentes empresas do segmento, sua preferência é pela Allos (ALOS3).
"Tem uma combinação de crescimento de dividendos muito alta, mais um retorno de em torno de 4 pontos acima da NTN-B”, afirmou. Segundo o gestor, os shoppings podem oferecer uma combinação de retorno de 12% a 15% acima da inflação.
Nesse universo, Iguatemi (IGTI11) e Multiplan (MULT3) também estão bastante descontadas, mas não proporcionam o mesmo nível de dividendos. Por isso, mesmo com uma exposição maior a consumidores de classe média, a Allos ganha a disputa dentro da carteira.
“Eu particularmente prefiro, apesar de ter uma exposição a shoppings mais de classe média, a Allos pelo dividendo. O carrego é muito positivo.”
A construção civil completa o grupo de setores domésticos que sobreviveram ao filtro da AlphaKey. Cyrela (CYRE3), Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3) negociam entre cinco e seis vezes o lucro e podem entregar dividend yields de 10% a 15%, segundo Keleti.
O receio de uma desaceleração da economia não elimina a atratividade dessas incorporadoras. O gestor acredita que os programas públicos de habitação continuarão funcionando como uma fonte importante de demanda, qualquer que seja o vencedor das eleições.
“O programa Minha Casa, Minha Vida ou Casa Verde e Amarela, independentemente de quem ganha, vai continuar, e eu não acho que a desaceleração será grande.”
A queda de preços, contudo, não foi suficiente para transformar todos os setores em oportunidades. Entre as grandes exportadoras, Keleti mantém uma postura seletiva.
A Vale (VALE3) não desperta entusiasmo neste momento. Celulose e agronegócio também continuam fora da carteira da AlphaKey.
A avaliação muda quando o assunto é petróleo. O gestor considera que a Petrobras (PETR4) atravessa uma janela favorável. Já a Prio (PRIO3), após alcançar o teto de produção no momento, pode transformar parte maior da geração de caixa em bons dividendos.
A leitura de Keleti, portanto, não é simplesmente a de que a bolsa ficou barata. Para o gestor, a correção criou uma oportunidade incomum justamente porque colocou no mesmo pacote empresas frágeis e companhias lucrativas, privatizadas e capazes de pagar dividendos de dois dígitos. O desafio agora é separar umas das outras.
Com Money Times
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