O que pode mudar com as regras anti-imigratórias aprovadas pelo Parlamento de Portugal?
Pacote de medidas aprovado nesta quarta-feira (16) pelo legislativo português mira no endurecimento de regras para obtenção da cidadania do país; brasileiros estão entre os mais afetados

Mais de 500 mil brasileiros vivem em Portugal, de acordo com os últimos dados disponíveis no Itamaraty, referentes a 2023 — o que faz de nós, os estrangeiros mais afetados pela aprovação dos projetos de lei anti-imigração ocorrida na quarta-feira (16) no parlamento do país.
O pacote de medidas ainda requer aprovação presidencial. No entanto, ganhou fôlego especial entre legisladores da direita portuguesa, que tramitaram os projetos em apenas 16 dias.
Com a medida, Portugal pode endurecer significativamente o acesso à obtenção de cidadania de estrangeiros no país. Entre as principais mudanças estão o pedido de residência por parte de turistas, a emissão de vistos de trabalho e as regras para reagrupamento familiar de imigrantes.
Além disso, o pacote prevê a criação de uma unidade policial dedicada à fiscalização e deportação de imigrantes ilegais no país.
O que pode mudar com a aprovação?
Com o conjunto de regras, vários dispositivos referentes à imigração podem ser alterados.
O primeiro deles é o tempo de acesso à cidadania, que passaria a ser mais demorado. Para estrangeiros provenientes de países lusófonos, como o Brasil, o tempo mínimo de residência no país para a solicitação é de cinco anos. Com a aprovação do projeto, esse mínimo passa a ser de sete anos (ou dez, para cidadãos de países não lusófonos).
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Filhos de estrangeiros nascidos em Portugal também não seriam naturalizados automaticamente, como acontece hoje, caso os pais não atendam ao período de residência mínimo.
Vistos de trabalho também ficariam limitados a estrangeiros com alta qualificação profissional (ainda que hoje esse critério seja incerto).
Ficariam vetados também os pedidos de residência por turistas que estiverem no país. A partir de agora, as solicitações devem ser feitas previamente.
As regras ainda dispõem sobre a revogação da cidadania de estrangeiros em casos de condenação ou crimes graves.
Na mesma linha, ficaria instituída a criação da Unef (Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras), responsável exclusivamente por monitorar a movimentação de estrangeiros ilegais no país e realizar deportações.

Idas, vindas e a escalada anti-imigratória em Portugal
As mudanças no acesso à cidadania portuguesa não são novidade. Na realidade, elas compõem um debate que se intensificou recentemente, especialmente após a posse do primeiro-ministro Luís Montenegro, que já havia anunciado a intenção de rever a Lei de Nacionalidade do país.
Para entender o momento atual da cidadania portuguesa, é preciso dividir o cenário em duas partes: de um lado, uma alteração recente e pontual que já está em vigor e beneficiou muitos imigrantes; de outro, o conjunto de propostas que ganhou força, especialmente entre a coalizão de direita no país, liderada pelos esforços do partido Chega.
A primeira mudança, que beneficia imigrantes, trata-se da Lei Orgânica n.º 1/2024, que entrou em vigor em 1º de abril de 2024. A alteração mais significativa impacta diretamente quem busca a cidadania por tempo de residência.
Antes, os cinco anos de residência legal exigidos para a naturalização só começavam a ser contados a partir da data em que a autorização de residência era, de fato, concedida. Agora, a contagem inicia-se no momento em que a autorização de residência temporária é solicitada.
A advogada Rebeca Albuquerque, advogada e CEO da Acestra Cidadania Europeia, explica a importância prática dessa alteração.
“A mudança veio como resposta à situação enfrentada por muitos imigrantes que chegaram ao país nos últimos cinco ou seis anos e encontraram obstáculos devido à lentidão do antigo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).”
Com a transformação do SEF na Aima (Agência de Integração, Migrações e Asilo) e a alta demanda, os pedidos de residência "levavam entre um e dois anos para serem analisados e aprovados, tempo que anteriormente não era contabilizado para a concessão da nacionalidade", detalha Albuquerque. Com a nova regra, esse tempo de espera passa a contar.
Outra alteração relevante, segundo a advogada, foi a ampliação do direito para filhos de portugueses cuja filiação foi reconhecida já na maioridade, desde que "por decisão judicial com trânsito em julgado".
Tammy Cavalero, co-founder e head of legal do Você Europeu, falou mais ao Seu Dinheiro sobre o que entrou em discussão com os projetos de mudança:
“A proposta é endurecer a regra de nacionalidade por nascimento em solo português, ampliando o tempo mínimo de residência para sete anos no caso de pais nacionais de países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), e dez anos para os demais”.
Para Albuquerque, “a justificativa, portanto, é garantir uma ligação mais sólida entre o imigrante e a sociedade portuguesa”.
Já sobre a criação da unidade policial dedicada ao tema, Cavalero diz que a política mais rigorosa se aproxima de outros estados do bloco europeu:
“Essa é mais uma sinalização de que o governo português caminha para uma política migratória e de nacionalidade mais rigorosa, acompanhando, aliás, uma tendência já observada em outros países da União Europeia."
Vale dizer, que, caso aprovada, a mudança afetaria apenas cidadãos naturalizados: ou seja, aqueles que se tornaram portugueses por tempo de residência, casamento ou outra via que não seja de sangue.
Agora, as medidas seguirão para a sanção do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que já recebe apelos da esquerda portuguesa para que vete a proposta.
No final de 2024, Portugal já listava 1,55 milhão de estrangeiros vivendo no país, cerca de 15% da população total. Mais de um terço destes, no cálculo do Itamaraty referentes a 2023, seriam provenientes do Brasil.
*Com informações do G1.
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