Um novo controlador será capaz de resolver (todos) os problemas da Braskem (BRKM5)? Analistas dizem o que pode acontecer agora
O acordo para a saída da Novonor do controle da petroquímica reacendeu entre os investidores a expectativa de uma solução para os desafios da empresa. Mas só isso será suficiente para levantar as ações BRKM5 outra vez?

A perspectiva de uma mudança no controle da Braskem (BRKM5) levou as ações a operarem em alta nesta segunda-feira (15) — ainda que tenham arrefecido a performance ao longo da sessão. O acordo para a saída da Novonor, ex-Odebrecht, reacendeu entre os investidores a expectativa de uma solução para os entraves da petroquímica — embora o mercado ainda veja riscos no caminho.
Mais cedo, a Novonor informou ter firmado um pacto com um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) assessorado pela gestora IG4 Capital, abrindo caminho para a venda de sua participação na Braskem.
Na prática, o FIDC ligado à IG4 fechou um acordo com os principais bancos credores da Novonor — Banco do Brasil, BNDES, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander — para adquirir 100% dos créditos detidos contra o grupo.
Essas dívidas têm como garantia justamente as ações da Braskem, concentradas na NSP Investimentos, holding por meio da qual a Novonor exercia o controle na petroquímica.
O movimento marca um avanço sólido na transição de controle da petroquímica, na esteira de uma longa sequência de negociações frustradas e tentativas que nunca chegaram a um desfecho.
O acordo alimentou entre os investidores a perspectiva de que a empresa estaria mais próxima de uma virada, após tantos trimestres sob pressão. Mas só isso será suficiente para levantar as ações BRKM5 outra vez?
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A leitura de analistas é que os problemas na Braskem, que vivencia há meses uma sangria incessante no caixa, ainda não chegaram ao fim. Você confere os detalhes abaixo.
Os benefícios de um novo controlador
A visão do mercado é que a entrada da IG4 Capital no quadro de acionistas da Braskem representaria uma evolução clara em relação ao cenário anterior.
Para a XP Investimentos, o movimento representa um passo importante e há muito aguardado pelo mercado. O anúncio sinaliza que os credores da Novonor finalmente decidiram exercer a garantia da dívida — ou seja, as ações da Braskem — e, se a transação for concluída, isso deve resultar em uma efetiva mudança de controle da petroquímica.
Na visão de Frederico Fernandes, especialista em petroquímica da Argus, a disputa pelo controle da Braskem entra em uma fase decisiva com a exclusividade firmada entre IG4 e Novonor.
O acordo, válido por 60 dias, abre caminho para uma transação que envolve a conversão de créditos — estimados em cerca de R$ 20 bilhões — em participação acionária.
Nos termos do negócio, a IG4 assumirá o controle, com 50,1% do capital votante e 34,3% do capital total, enquanto a Novonor manterá apenas 4% em ações preferenciais sem direitos de governança. Já a Petrobras (PETR4) seguirá com 47% do capital votante e 36,1% do capital total.
Com a transação, a Petrobras, como segunda maior acionista, poderia assumir uma postura mais ativa no dia a dia operacional da Braskem, explorando sinergias estratégicas entre as duas companhias, na análise de Fernandes.
“Essa maior presença da Petrobras pode influenciar decisões sobre investimentos, integração de processos e políticas de sustentabilidade”, disse.
Para Daniel Cobucci, analista do BB Investimentos (BB-BI), o acordo poderia destravar investimentos essenciais, que até então estavam fora do alcance da Novonor.
Isso porque a saída do atual controlador permite que a Petrobras, que já demonstrou insatisfação com seu papel de sócia sem controle efetivo, injete dinheiro e busque investimentos estratégicos.
Segundo o analista do BB-BI, a nova estrutura “deve possibilitar que os sócios correspondam à necessidade de investimentos para reduzir custos com matéria-prima”.
Aliás, um dos pontos considerados cruciais no mercado para a competitividade da Braskem é a migração gradual da base nafta para a base gás. Essa mudança estrutural é vista como essencial pelos analistas para melhorar margens da petroquímica no médio e longo prazo.
"É algo que Novonor não tinha como fazer e que a Petrobras sinalizou que faria, desde que houvesse sócio acompanhando”, disse o analista, que avalia que a chegada de um novo controlador financeiro poderia alterar a equação para a Braskem.
O mercado também enxerga potenciais ganhos em governança. Entre as expectativas estão a simplificação da estrutura de capital e, no médio prazo, até mesmo uma eventual unificação das classes de ações, com possível conversão de papéis preferenciais em ordinários.
Para o BB-BI, esse movimento ajudaria a reduzir incertezas e tornar a tese mais clara para investidores.
Por sua vez, a XP Investimentos avalia que uma eventual injeção de capital poderia acontecer em meio ao novo desenho societário — o que ajudaria a aliviar preocupações com liquidez e dar mais fôlego à empresa.
Saída da Novonor é importante, mas não é a salvação para a Braskem (BRKM5)
Ainda assim, o cenário não está livre de incertezas. Na avaliação do mercado, a operação abre uma nova fase para a Braskem, mas ainda exige cautela.
Afinal, a troca de controle ajuda a reduzir incertezas estruturais, mas não resolve, por si só, os desafios operacionais e cíclicos do negócio.
Mesmo que a estrutura do negócio não sugira concentração relevante no mercado petroquímico, os especialistas avaliam que o processo regulatório pode se estender caso haja questionamentos sobre governança ou direitos de preferência da Petrobras, que continuará como acionista relevante.
Importante destacar que a operação deverá passar pelo aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que poderá definir o ritmo da transição.
Segundo o analista do BB-BI, um dos pontos centrais será a necessidade de um novo acordo de acionistas com a Petrobras, o que pode influenciar tanto a governança quanto as decisões estratégicas da companhia daqui para frente.
Vale lembrar que, como a operação prevê a conversão da dívida dos credores da Novonor em ações da Braskem, os atuais acionistas não serão diluídos. Além disso, a expectativa é que não haja uma oferta pública de aquisição (OPA) pelas ações dos minoritários.
Além das questões societárias, o desempenho operacional segue como um obstáculo relevante para as ações da petroquímica.
Para que a Braskem volte a surfar ciclos mais favoráveis na bolsa, será necessário um ambiente mais benigno para o setor petroquímico global.
Segundo Cobucci, a companhia depende de uma “melhoria substancial nas condições de oferta e demanda de resinas”, já que a atual sobreoferta pressiona margens e mantém a taxa de utilização das plantas operacionais em níveis baixos.
Esse cenário dificulta a diluição de custos fixos e tem se traduzido em queima de caixa recorrente, ainda que parcialmente atenuada por medidas como o Presiq — programa de incentivos fiscais para a indústria química — e pelo antidumping temporário, aprovado neste ano. Mesmo com esses amortecedores, a pressão sobre o caixa segue elevada.
“O futuro da Braskem dependerá da capacidade da IG4 de executar rapidamente sua estratégia, equilibrando governança, eficiência operacional e sustentabilidade financeira, enquanto navega por um ambiente regulatório e político potencialmente complexo”, disse o especialista da Argus.
Fernandes também destaca outro fator crítico para a performance da Braskem daqui para frente: o calendário político. Caso a troca de controle na Braskem se prolongue após as eleições presidenciais de outubro de 2026, o especialista acredita que “podem surgir conotações políticas”.
“Um eventual governo de orientação mais à direita poderia adotar postura contrária à mudança de comando, seja por questões estratégicas ou por uma maior abertura comercial no setor, o que poderia atrasar ou até bloquear a transação”, afirmou.
A situação financeira da Braskem (BRKM5)
Há vários trimestres, a Braskem trava uma verdadeira batalha para estancar a queima de caixa e reduzir a alavancagem. Recentemente, a petroquímica contratou assessores financeiros para reorganizar sua estrutura de capital, o que acabou pressionando sua avaliação de risco de crédito, diante do consumo persistente de caixa e da proximidade de vencimentos de dívidas, em 2028.
Em meio ao cenário adverso, a companhia tem buscado alternativas para preservar liquidez. Em outubro, sacou US$ 1 bilhão de uma linha de crédito stand-by disponível — uma decisão que, embora fortaleça o caixa no curto prazo, foi recebida com cautela pelo mercado e contribuiu para novos rebaixamentos por analistas.
Nos últimos meses, a Braskem perdeu o grau de investimento e viu seus títulos de dívida sofrerem desvalorização, com a saída de investidores. O quadro foi agravado por problemas históricos de governança, que contribuíram para a reprecificação dos ativos.
Sob a ótica financeira, a empresa registrou prejuízo de R$ 26 milhões do terceiro trimestre (3T25) — ainda no vermelho, mas uma melhora significativa de 96% frente às perdas de R$ 592 milhões no mesmo período do ano anterior.
Outro ponto positivo foi a resolução do caso de Maceió: a petroquímica fechou acordo com o Estado de Alagoas, que prevê o pagamento total de R$ 1,2 bilhão. Desse montante, R$ 139 milhões já foram pagos, e R$ 467 milhões já tinham sido provisionados em trimestres passados.
Apesar disso, a pressão financeira permanece. O Ebitda recorrente, indicador que mensura a capacidade de geração de caixa operacional, caiu 66% na comparação anual, para R$ 818 milhões, enquanto a receita líquida recuou 19%, para R$ 17,29 bilhões.
Entre julho e setembro, a Braskem seguiu a queimar caixa, com consumo de R$ 2,04 bilhões no trimestre, aumento de 5% em relação ao mesmo período do ano passado.
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