Rede de supermercados Dia, em recuperação judicial, tem R$ 143,3 milhões a receber do Letsbank, do Banco Master
Com liquidação do Master, há dúvidas sobre os pagamentos, comprometendo o equilíbrio da rede de supermercados, que opera queimando caixa e é controlada por um fundo de Nelson Tanure

Em recuperação judicial há mais de um ano, o supermercado Dia está com seu caixa comprometido. A empresa tinha parte relevante do seu caixa em CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) do Letsbank, que faz parte do grupo do Banco Master.
O acordo entre o grupo Dia e a instituição financeira foi firmado no dia 22 de outubro deste ano — quase um mês antes da liquidação do controlador do Letsbank. Agora, esse pagamento está comprometido.
A varejista, que é controlada por um fundo do empresário Nelson Tanure, já recebeu R$ 20 milhões dos CDBs em pagamento à vista, de uma dívida total de R$ 163,3 milhões.
Já R$ 50 milhões seriam pagos de forma parcelada, em dez parcelas mensais e sucessivas de R$ 5 milhões cada, corrigidas pela variação de 109% do CDI. A primeira será paga em fevereiro do ano que vem.
O saldo remanescente de R$ 93,3 milhões seria quitado mediante a cessão de crédito do Letsbank para o grupo Dia de parte de um precatório com valor de face de R$ 116 milhões.
Ao Seu Dinheiro, a rede afirmou que "todas as informações financeiras são divulgadas exclusivamente pelos canais oficiais da Administração Judicial". "Qualquer informação além desta está protegida por sigilo bancário. Reforçamos que estamos cumprindo 100% todas as obrigações previstas no processo de Recuperação Judicial, e que não há qualquer alteração na condução das operações, no abastecimento das lojas ou em qualquer relação com parceiros, fornecedores e clientes", disse, em nota.
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Problemas com os pagamentos do Letsbank ao Dia
Os precatórios, dívidas reconhecidas pelo poder público, não representam dinheiro no caixa e nem liquidez imediata. O pagamento depende da disponibilidade no orçamento da União e não há prazo para que esse montante seja pago. Por isso, esses títulos costumam ser negociados com descontos.
Esses pagamentos feitos pelo Letsbank foram colocados sob sigilo, diz o administrador judicial da empresa, a ExpertiseMais, "inviabilizando assim a divulgação da nossa análise acerca de informações relevantes que constam do acordo", diz ela em relatório obre a rede.
Agora, a rede de mercados diz que espera o relatório do liquidante nomeado pelo Banco Central com a relação dos credores e devedores da instituição, para saber como prosseguir e como será feito esse pagamento.
Segundo o administrador, o precatório deveria ser avaliado para teste de impairment, uma avaliação contábil para saber qual é o real valor desse título, "para que as demonstrações contábeis reflitam o valor efetivamente recuperável, que pode ser significativamente inferior ao valor de face", diz em documento.
Receitas sobem, mas empresa continua queimando caixa
A rede Dia está com as receitas em alta, pelo segundo mês consecutivo. Em outubro, as vendas líquidas alcançaram R$ 159 milhões, aumento de 12% em relação ao mês anterior e 18% em relação ao ano passado.
No entanto, o custo também subiu, em 11%, o que fez a margem operacional bruta chegar a 19%, 1% acima do apurado no mês anterior.
As despesas administrativas aumentaram 49%, por conta de provisões para contingências trabalhistas que totalizam aproximadamente R$ 10,7 milhões.
A rede continua queimando caixa: foram R$ 42 milhões em outubro. Cerca de R$ 21 milhões fazem parte dos pagamentos referentes ao plano de recuperação da empresa. Outros mais de R$ 20 milhões vieram da própria operação, "reforçando o que temos mencionado sobre a operação deficitária das recuperandas", diz sua administradora judicial.
Corte de custos e expansão dos supermercados
Para minimizar os efeitos de eventuais problemas de liquidez, causados pela queima de caixa e a incerteza sobre retorno do investimento no Letsbank, a empresa diz que trabalha em um programa de redução de custos para ser colocado em prática a partir deste mês, de acordo com documento.
No entanto, o presidente do Grupo Dia informou à administradora que não haverá cortes na operação e que é necessário continuar investindo nas lojas para não comprometer as vendas.
Além disso, a quantidade de lojas é muito pequena para alcançar um equilíbrio entre receitas e despesas, disse o presidente, e que "alcançar o ponto de equilíbrio está condicionado à expansão da rede", ainda segundo o relatório.
Mudanças de mãos
Nos últimos anos, a rede de supermercados Dia passou por diversas mãos. Em 2019, o controle da rede espanhola, incluindo a operação brasileira, passou para o fundo Letterone, do investidor russo Mijail Fridman.
Em maio de 2024, a operação brasileira foi comprada por 100 euros pelo fundo de investimento Lyra II, gerido pela MAM Asset Management, do Banco Master. O fundo assumiu uma dívida de mais de R$ 1 bilhão e comprometeu-se a injetar recursos para a recuperação judicial.
Já em dezembro, o controle da operação brasileira passou para o fundo Arila, do empresário Nelson Tanure, que já havia comprado o Lyra II.
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