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Analistas chamam atenção para a possibilidade de o arranjo criar uma brecha na qual o acesso ao mercado chinês fica condicionado a uma divisão de lucros com o governo dos EUA
Em um acordo que está sendo considerado sem precedentes, a Nvidia e a Advanced Micro Devices (AMD) concordaram em dividir 15% da receita obtida nas vendas para a China com o governo de Donald Trump. O mercado inicialmente não condena a estratégia da Casa Branca.
As ações das duas gigantes dos chips operam próximas da estabilidade em Nova York nesta tarde, enquanto o governo norte-americano sinalizou nesta segunda-feira (11) que pode buscar acordos nos mesmos moldes daqui para frente.
Vai funcionar assim: em troca do corte de receita, as duas empresas de semicondutores receberão licenças de exportação para vender os chips H20 da Nvidia e MI308 da AMD na China, de acordo com o Financial Times.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, diz que a natureza do acerto chama atenção por inverter a lógica tradicional da política comercial norte-americana.
“Em vez de restringir importações por meio de tarifas, Washington passa a participar diretamente da receita das exportações — um arranjo que pode gerar desconforto tanto no meio corporativo norte-americano quanto em Pequim, por criar um precedente no qual o acesso ao mercado chinês fica condicionado a uma divisão de lucros com o governo dos EUA”, diz.
EUA e China travam uma corrida pela inteligência artificial (IA). Em abril, o governo norte-americano suspendeu a venda de chips avançados para a China alegando questões de segurança nacional.
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No mês passado, no entanto, a Nvidia e a AMD revelaram que a Casa Branca permitiria que as vendas dos chips H20 e MI308, usados no desenvolvimento de IA, fossem retomadas, mas não indicaram a condição para que isso acontecesse.
Nesta segunda-feira (11), Trump confirmou os termos do acordo inusitado, observando que originalmente queria 20% da receita de vendas quando a Nvidia pediu para vender o chip H20, que chamou de obsoleto, para a China.
O republicano deu crédito ao CEO da Nvidia, Jensen Huang, por negociar a redução para 15%.
"Negociamos um pequeno acordo. Ele está vendendo um chip essencialmente antigo", disse Trump.
Spiess explica que os chips H20 e MI308 foram desenvolvidos sob medida para contornar as restrições impostas em 2022 pela administração de Joe Biden, que proibiam a venda de semicondutores de última geração à China.
Especialistas em política comercial citados pelo Washington Post disseram que os acordos anunciados por Trump constituem uma chantagem e violam a proibição de impostos de exportação da Constituição dos EUA.
Lideranças democratas na Câmara dos Deputados norte-americana levantaram preocupações sobre o acordo durante um painel focado na competição com a China, chamando o acerto de “um perigoso uso indevido de controles de exportação que mina nossa segurança nacional”.
“Nosso regime de controle de exportação deve se basear em considerações genuínas de segurança, não em esquemas tributários criativos disfarçados de política de segurança nacional”, disse o deputado Raja Krishnamoorthi, membro sênior do Comitê Seleto da Câmara sobre a China.
A Nvidia não comentou sobre os detalhes específicos do acordo ou a natureza da troca, mas afirmou que seguiria as regras de exportação estabelecidas pelo governo.
“Seguimos as regras estabelecidas pelo governo dos EUA para nossa participação em mercados globais. Embora não tenhamos enviado H20 para a China há meses, esperamos que as regras de controle de exportação permitam que os EUA concorram na China e no mundo”, escreveu a Nvidia em um comunicado à AP.
“Os EUA não podem repetir o 5G e perder a liderança em telecomunicações. A tecnologia de IA dos EUA pode ser o padrão mundial se competirmos.”
A AMD afirmou em um comunicado que seus pedidos iniciais de licença para exportar chips MI308 para a China foram aprovados.
“Mais do que uma negociação comercial, o episódio evidencia como os chips de IA deixaram de ser apenas componentes tecnológicos para se tornarem ativos estratégicos, no centro da disputa geopolítica e econômica que molda as relações de poder no século XXI, principalmente em meio a essa Nova Guerra Fria que vivemos”, diz Spiess, da Empiricus.
As ações da Nvidia e da AMD operam próximas da estabilidade, mas já chegaram a avançar mais de 2% no início do dia, destacando como os investidores acreditam que a notícia não é um grande ponto negativo para as empresas.
"Da perspectiva do investidor, ainda é um resultado positivo, 85% da receita é melhor que zero", disse Ben Barringer, analista global de tecnologia da Quilter Cheviot, à CNBC.
"A questão será se a Nvidia e a AMD ajustarão seus preços em 15% para compensar a taxa, mas, em última análise, é melhor que elas possam vender no mercado em vez de entregar o mercado inteiramente para a Huawei."
A Huawei é a rival chinesa mais próxima da Nvidia e da AMD.
*Com informações da CNBC, da AP e do The Washington Post
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