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Com a aproximação do calendário eleitoral, cresce a percepção de que o pêndulo político está prestes a mudar de direção — e, com ele, toda a correlação de forças no país — o problema é o intervalo até lá
Diante da relativa — e temporária — estabilidade no Oriente Médio, as principais teses do primeiro semestre de 2025 voltaram ao radar dos mercados, entre elas a fraqueza do dólar em escala internacional. Seria um ambiente propício para emergentes, e o Brasil, teoricamente, teria muito a ganhar. No entanto, segue tropeçando em seus próprios erros.
As fragilidades domésticas continuam impedindo o país de capitalizar esse vento a favor. O maior entrave, como de costume, é o desequilíbrio fiscal — agravado agora por uma sucessão de decisões desastradas por parte do governo.
A queda do decreto do IOF foi uma derrota histórica para o governo Lula — a primeira do tipo desde os tempos de Collor. Diante disso, o Planalto se vê agora diante de três saídas para cobrir o novo rombo nas contas públicas: judicialização, criação de nova fonte de receita ou cortes adicionais no orçamento.
A primeira opção, inicialmente defendida pelo ministro da Fazenda, prevê levar o tema ao Supremo Tribunal Federal (STF). Mas o clima azedo entre os poderes e a percepção de que o governo também poderia ser derrotado por lá faz a proposta perder força. Fernando Haddad, mais uma vez isolado e esvaziado, sente-se traído.
Se houvesse algum apreço pela racionalidade política, o Planalto teria recuado da ideia e buscado compor com o Congresso. Mas a sensatez não faz parte do repertório atual.
Lula, incomodado com a postura do Legislativo, dá sinais de que prefere o confronto à negociação. O problema é que o Executivo chega a essa disputa já fragilizado e, ao insistir no embate, corre o risco de aprofundar ainda mais seu isolamento institucional. A fragilidade fiscal permanece — agora acompanhada por uma instabilidade política.
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Afinal, um governo que se recusa a cortar gastos e não dispõe de força política para aprovar reformas estruturais acaba recorrendo ao caminho mais torto. Com isso, arrasta o país para o que se configura como um confronto aberto entre os poderes.
E o desgaste do governo Lula não se restringe ao front doméstico. No plano internacional, as críticas se acumulam. Em editorial publicado no fim de semana, a The Economist ironizou a fixação do presidente brasileiro por temas como Ucrânia e Oriente Médio — cenários nos quais sua presença diplomática é, na melhor das hipóteses, irrelevante.
Ao mesmo tempo, a revista aponta a omissão do Brasil em questões regionais onde, de fato, teria influência, como Venezuela e Haiti.
Essa busca por protagonismo em arenas que não o convidaram, combinada à omissão nos próprios domínios, mina o capital político internacional de Lula — que, ao tentar ocupar um papel para o qual não foi chamado, negligencia sua própria governabilidade interna.
Agora, todas as atenções se voltam para o relatório bimestral de receitas e despesas primárias, previsto para 22 de julho. O arsenal do governo para ampliar a arrecadação é limitado e o espaço para novos erros fiscais simplesmente não existe. O Planalto está encurralado.
No fundo, a crise do IOF é apenas o sintoma de um problema muito mais profundo: a rigidez estrutural dos gastos públicos. É ela que colocará o país, inevitavelmente, diante de uma encruzilhada fiscal após a próxima eleição. A diferença é que, em 2027, o governo de turno não poderá mais empurrar a conta adiante.
E até lá, o custo da incerteza vai continuar corroendo a confiança — e a paciência — dos investidores. E que não se iludam os mais ingênuos — o Congresso está longe de ser vítima nessa história. Sua retórica reformista não resiste a uma simples comparação com a prática cotidiana, marcada por apetite expansionista e disputa constante por emendas parlamentares.
Parte relevante da atual insatisfação com o Planalto nasce, aliás, da frustração com a liberação de recursos. No meio desse impasse, o Executivo, sem apoio e sem convicção, ajoelha-se diante do sistema. E sem liderança que venha do topo, é quase ingênuo esperar que o Congresso se transforme, espontaneamente, em motor de qualquer mudança de fundo.
É nesse contexto que o “trade eleitoral” ganha importância crescente. Enquanto o país aguarda 2026, seguimos oscilando sobre a corda bamba de uma crise fiscal difícil de ignorar.
No seu mais recente relatório, a Instituição Fiscal Independente (IFI) voltou a alertar: a trajetória da dívida pública segue se deteriorando, e, mantido o ritmo atual, o Brasil ultrapassará os 100% do Produto Interno Bruto (PIB) antes do fim da década. Um cenário insustentável — e que escancara a urgência de uma agenda de reformas sérias e coordenadas.
Mas não é só a frente fiscal que preocupa. Estamos, mais uma vez, diante dos chamados “déficits gêmeos”: além do desequilíbrio nas contas públicas, o país volta a registrar deterioração acelerada nas contas externas.
O déficit em transações correntes saltou de -1,8% do PIB entre janeiro e maio de 2024 para -2,8% no mesmo período deste ano. Em 12 meses, já são 3,3% do PIB — mais que o dobro de um ano atrás.
É um nível de fragilidade que seria preocupante em qualquer economia, mas torna-se ainda mais delicado em um país emergente como o Brasil. Manter simultaneamente desequilíbrios fiscais e externos por muito tempo não é apenas imprudente — é insustentável.
E o tempo para reagir está se esgotando. A dúvida que resta é se o ajuste virá por iniciativa própria ou será imposto pelas circunstâncias.
A escalada da tensão entre Executivo e Congresso só agrava essa vulnerabilidade. A articulação política do governo está esgarçada justamente num momento em que seria crucial consolidar uma base mínima de governabilidade.
Com a aproximação do calendário eleitoral no Brasil, cresce a percepção de que o pêndulo político está prestes a mudar de direção — e, com ele, toda a correlação de forças no país. O problema é o intervalo até lá: o trajeto promete ser conturbado, com elevado risco fiscal, um Executivo cada vez mais isolado e uma base parlamentar mais indócil e imprevisível.
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