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O mercado segue premiando os nomes ligados à inteligência artificial, mas a velha economia fica para trás — e os fundamentos começam a incomodar

A nova velha Guerra do Irã volta às manchetes. Diante da escassez de verdadeiras novidades, o curto prazo impõe aos mercados uma lógica desconfortável, mas relativamente fácil de assimilar na superfície.
Funciona mais ou menos assim: para que as ações ligadas a hardware de inteligência artificial (IA) continuem a disparar, todos os papéis da “velha” economia precisam se sacrificar um pouco (ou muito).
Não é nem mais aquela disputa clássica entre growth e value, mas sim uma versão hiperconcentrada da distribuição de Pareto. Ou você está junto aos poucos grandes sequestradores de lucros da IA ou está fora. Não tem meio termo.
Do ponto de vista de fluxos financeiros, até dá para entender. Em mercados globais e arbitráveis, os drenos de liquidez funcionam como pêndulos diários, atraindo ou reprimindo a narrativa escolhida para o dia.
No entanto, do ponto de vista de fundamentos, existe algo estranho com a dinâmica atual…
Eu li primeiro esta provocação no Substack do Michael Burry (o cara do "Big Short"), mas ela pode ser também mais detalhadamente acessada no episódio recente do Market Makers com o Daniel Goldberg.
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Vamos direto ao cerne: afinal, quão sustentável pode ser um contexto no qual poucos atores se apropriam de quase todo o lucro de uma indústria, sendo que os reais financiadores dessa mesma indústria (ainda?) não conseguem ver seu capex devidamente remunerado?
Em tese, se o advento da IA realmente implica um salto de produtividade sistêmico, deveríamos ver as ações da “velha” economia subindo junto com as narrativas de IA, e não em detrimento delas.
Mas, pelo menos até o momento, não há qualquer sinal crível desse tipo de correlação. Ao contrário, os sinais apontam pesadamente em direção oposta.
Como corolário, isso incitou Michael Burry a disparar um alerta sobre os feedback loops fechados dentro do ecossistema de IA, em que uma marca investe em outra marca, retroalimentando os valuations ao transformar, magicamente, capex em receita e receita em capex.
Chegará um momento em que vamos todos cair na real?
Não sei, mas as próprias hyperscalers já parecem estar se dando conta disso, ainda que de maneira tácita, sem fazer barulho.
Amazon, Google e Meta tentam se posicionar, cada vez mais, como provedores de infra em vez de meramente financiadores, tentando ocupar um espaço do outro lado do balcão.
Microsoft já tornou pública a percepção de que os gastos com chips (capex) e tokens (opex) ultrapassaram uma zona de decisões triviais.
E Apple — talvez a mais safa de todas, por motivos históricos (foi quem cometeu os maiores erros lá atrás) —, nunca mergulhou de vez em planos de capex mais artificiais do que propriamente inteligentes.
O famoso ditado de Wall Street diz que contra fluxo não há fundamentos. Já contra fundamentos pode existir fluxo, mas por quanto tempo?
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