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Pela visão talebiana, não conseguimos nos contentar com o simples acaso, precisamos sempre de uma explicação para o que está acontecendo
Como todo mundo já sabia o que esperar da Super Quarta, pedimos licença ao Federal Reserve (Fed) e ao Copom para um debate metodológico na edição de hoje.
No sexto capítulo de “Cisne Negro”, Nassim Taleb nos apresenta o conceito de “falácia da narrativa”.
Antes de qualquer ressalva, quero esclarecer que Taleb é uma espécie de pai intelectual da Empiricus, e que entender a referida falácia é condição sine qua non para trabalhar em nosso Research.
No entanto, para seguir amadurecendo, precisamos praticar um parricídio metafórico; ao melhor estilo de Édipo Rei, é isso que eu proponho aqui.
Voltemos à abordagem original de Taleb, amparada na flexibilidade interpretativa das diferentes estórias que podemos contar para explicar um mesmo fenômeno.
Seu exemplo da capa da Bloomberg News em 2003 tornou-se famoso por tirar sarro dos jornalistas.
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Pela manhã, a Bloomberg noticiou que os Treasuries subiam devido à captura de Saddam Hussein.
Mais tarde, no mesmo dia, quando o pregão inverteu e caiu, a Bloomberg atualizou a manchete com a mesma justificativa.
Ou seja, uma mesma variável explicativa (“Saddam Hussein”) foi usada para justificar tanto a propensão quanto a aversão ao risco, em um mesmo dia.
Como humanos enviesados, manipulamos os mapas de significado conforme as nossas intenções, sejam elas tão nobres como a busca pela verdade ou tão mundanas como a necessidade de atualizar rapidamente uma manchete.
Pela visão talebiana, não conseguimos nos contentar com o simples acaso; precisamos sempre de uma explicação para o que está acontecendo, ainda que seja apenas ruído estocástico.
E Taleb está certo aí, realmente é uma carência epistemológica.
No entanto, assim como Gerd Gigerenzer fez com os vieses das Finanças Comportamentais, podemos também perguntar se os humanos são simplesmente idiotas por usar falácia da narrativa, ou se eles têm um motivo genuíno para tanto.
Eu desconfio que haja alguns motivos genuínos, mas vou me concentrar em apenas um por enquanto.
Ele deriva da seguinte pergunta: qual é o melhor substituto possível para o acaso?
Pois não sabemos a priori se é acaso ou não (isso se confunde com a própria definição de acaso); e simplesmente se render ao acaso pode custar caríssimo.
Hegel dizia que o melhor substituto do acaso é a dialética: um processo lógico no qual as contradições se enfrentam e redundam numa síntese mais alta (tese → antítese → síntese).
Sob essa perspectiva, não é surpresa alguma que a dualidade da Bloomberg pareça contraditória, pois ela espelha o decorrer de um processo dialético tocado pelo próprio mercado, e noticiado pelo coitado do jornalista.
Assim, a captura de Saddam não estaria explicando dois eventos paralelamente opostos, iguais em hierarquia, mas sim uma oposição em movimento entre tese e antítese — o que é bem diferente, e bastante construtivo do ponto de vista da formação do conhecimento.
Ao longo de um processo dialético, é natural que o mercado mude de opinião, até que atinja uma síntese. Isso dificulta muito qualquer exercício preditivo, mas não implica necessariamente uma falácia, já que a narrativa está efetivamente se modificando no decorrer do processo.
Só para deixar tudo mais tangível, vejamos outro exemplo contemporâneo:
Percebe como tudo isso pode soar extremamente contraditório e, ao mesmo tempo, compor uma unidade final com perfeito sentido?
O mercado depende de um arcabouço lógico que admita a reflexividade e a contradição, desde que elas estejam a serviço de uma síntese a ser formada no tempo.
Assim, análises estáticas e baseadas estritamente em "Verdadeiro ou Falso" serão sempre pobres demais dentro do léxico econômico-financeiro, e concluirão prematuramente pelo gosto falacioso de um bolo cru, que ainda precisa ser assado no forno.
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