Rodolfo Amstalden: A falácia da “falácia da narrativa”
Pela visão talebiana, não conseguimos nos contentar com o simples acaso, precisamos sempre de uma explicação para o que está acontecendo

Como todo mundo já sabia o que esperar da Super Quarta, pedimos licença ao Federal Reserve (Fed) e ao Copom para um debate metodológico na edição de hoje.
No sexto capítulo de “Cisne Negro”, Nassim Taleb nos apresenta o conceito de “falácia da narrativa”.
Antes de qualquer ressalva, quero esclarecer que Taleb é uma espécie de pai intelectual da Empiricus, e que entender a referida falácia é condição sine qua non para trabalhar em nosso Research.
- LEIA TAMBÉM: Novo episódio do Touros e Ursos no AR! Acompanhe as análises e recomendações de especialistas do mercado; acesse já
No entanto, para seguir amadurecendo, precisamos praticar um parricídio metafórico; ao melhor estilo de Édipo Rei, é isso que eu proponho aqui.
Flexibilidade interpretativa
Voltemos à abordagem original de Taleb, amparada na flexibilidade interpretativa das diferentes estórias que podemos contar para explicar um mesmo fenômeno.
Seu exemplo da capa da Bloomberg News em 2003 tornou-se famoso por tirar sarro dos jornalistas.
Leia Também
Pela manhã, a Bloomberg noticiou que os Treasuries subiam devido à captura de Saddam Hussein.
Mais tarde, no mesmo dia, quando o pregão inverteu e caiu, a Bloomberg atualizou a manchete com a mesma justificativa.
Ou seja, uma mesma variável explicativa (“Saddam Hussein”) foi usada para justificar tanto a propensão quanto a aversão ao risco, em um mesmo dia.
Como humanos enviesados, manipulamos os mapas de significado conforme as nossas intenções, sejam elas tão nobres como a busca pela verdade ou tão mundanas como a necessidade de atualizar rapidamente uma manchete.
Pela visão talebiana, não conseguimos nos contentar com o simples acaso; precisamos sempre de uma explicação para o que está acontecendo, ainda que seja apenas ruído estocástico.
E Taleb está certo aí, realmente é uma carência epistemológica.
Motivos genuínos
No entanto, assim como Gerd Gigerenzer fez com os vieses das Finanças Comportamentais, podemos também perguntar se os humanos são simplesmente idiotas por usar falácia da narrativa, ou se eles têm um motivo genuíno para tanto.
Eu desconfio que haja alguns motivos genuínos, mas vou me concentrar em apenas um por enquanto.
Ele deriva da seguinte pergunta: qual é o melhor substituto possível para o acaso?
Pois não sabemos a priori se é acaso ou não (isso se confunde com a própria definição de acaso); e simplesmente se render ao acaso pode custar caríssimo.
Hegel dizia que o melhor substituto do acaso é a dialética: um processo lógico no qual as contradições se enfrentam e redundam numa síntese mais alta (tese → antítese → síntese).
Sob essa perspectiva, não é surpresa alguma que a dualidade da Bloomberg pareça contraditória, pois ela espelha o decorrer de um processo dialético tocado pelo próprio mercado, e noticiado pelo coitado do jornalista.
Mudança de opinião do mercado
Assim, a captura de Saddam não estaria explicando dois eventos paralelamente opostos, iguais em hierarquia, mas sim uma oposição em movimento entre tese e antítese — o que é bem diferente, e bastante construtivo do ponto de vista da formação do conhecimento.
- VEJA TAMBÉM: Descubra como os gigantes do mercado estão investindo: o podcast Touros e Ursos traz os bastidores toda semana; acompanhe aqui
Ao longo de um processo dialético, é natural que o mercado mude de opinião, até que atinja uma síntese. Isso dificulta muito qualquer exercício preditivo, mas não implica necessariamente uma falácia, já que a narrativa está efetivamente se modificando no decorrer do processo.
Só para deixar tudo mais tangível, vejamos outro exemplo contemporâneo:
- A) Você pode querer se manter afastado da Vale (VALE3) devido aos fundamentos frágeis da economia chinesa (e.g. crescimento anual em 4%, versus 5% na média dos tris anteriores).
- B) Ou pode deduzir que é justamente essa fraqueza que incitará uma retomada dos estímulos fiscais/monetários até o fim do ano; logo, precisa sim ter VALE3 no portfólio.
- C) Num passo além, pode intuir que a mera possibilidade de uma síntese derivada da interação entre A e B basta para provocar um FOMO comprador de VALE3. Já que o peso da mineradora no índice é muito grande, a chance de perder essa carona passa a ser dura demais para ser tolerada.
Percebe como tudo isso pode soar extremamente contraditório e, ao mesmo tempo, compor uma unidade final com perfeito sentido?
O mercado depende de um arcabouço lógico que admita a reflexividade e a contradição, desde que elas estejam a serviço de uma síntese a ser formada no tempo.
Assim, análises estáticas e baseadas estritamente em "Verdadeiro ou Falso" serão sempre pobres demais dentro do léxico econômico-financeiro, e concluirão prematuramente pelo gosto falacioso de um bolo cru, que ainda precisa ser assado no forno.
O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Tubarões saem dos FIIs, o título que ainda paga IPCA+ 14% ao ano, o acordo entre Trump e Irã: o que move o mercado hoje
23 de setembro de 2026 - 8:30AINDA TEM DESCONTO
Saudade do Tesouro IPCA+ 8%? Este investimento ainda oferece até IPCA+ 14% — com isenção de imposto de renda
23 de setembro de 2026 - 7:05O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O fantasma que assombra as eleições e as contas públicas, a reunião entre EUA e China e o que mais move o mercado hoje
22 de setembro de 2026 - 8:38INSIGHTS ASSIMÉTRICOS
Dois gigantes à mesa, um mundo em combustão: o que está em jogo no encontro entre Trump e Xi Jinping
22 de setembro de 2026 - 7:48O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O que o Bradesco fará com R$ 10 bilhões na conta e como resolver o buraco fiscal em 4 passos: o que ler hoje
21 de setembro de 2026 - 8:15PLANO A
Se você quer investir para o longo prazo, esta é a pergunta que deve se fazer antes das suas escolhas
20 de setembro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O pote de ouro da Vivara (VIVA3), o que fazer com a ação da Vale (VALE3), e o que move os mercados hoje
18 de setembro de 2026 - 8:11SEXTOU COM O RUY
Vale (VALE3) escapa do jogo de “vida ou morte” — mas você sabe o que fazer com as ações agora?
18 de setembro de 2026 - 7:20O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A nova estratégia da XP Asset, o risco de o Brasil quebrar, o corte na Selic: o que afeta os mercados hoje
17 de setembro de 2026 - 8:21O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A tempestade sobre o Banco Central e o Fed, a crise no STF e o que mais move os mercados hoje
16 de setembro de 2026 - 8:22O MELHOR DO SEU DINHEIRO
As PMEs na disputa com gigantes no marketplace, o sobe e desce dos juros no Brasil e nos EUA e o que mais move os mercados
15 de setembro de 2026 - 8:22O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Como os grandes investidores buscam ganhar com o trade eleitoral, o império de bolos de R$ 800 milhões, e a última pesquisa eleitoral: o que ler hoje
14 de setembro de 2026 - 8:06TRILHAS DE CARREIRA
O fim da carreira em 3 fases: por que a transição profissional está se tornando a norma no mercado
13 de setembro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Como resolver briga por aluguel em uma fração do tempo e do custo, as oportunidades na bolsa de valores e o que mais agita o mercado hoje
11 de setembro de 2026 - 8:15SEXTOU COM O RUY
Ainda vale comprar ações? Histórico indica que a bolsa brasileira pode não estar tão cara quanto parece
11 de setembro de 2026 - 7:31O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Como calcular o valor justo do IPTU ou ITBI, o futuro da Selic e a crise no STF: o que move os mercados hoje
10 de setembro de 2026 - 8:31EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: De agora em diante, o trade eleitoral é com emoção
9 de setembro de 2026 - 19:55O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O retorno da Petz Cobasi (AUAU3), a crise no STF e o que mais movimenta os mercados hoje
9 de setembro de 2026 - 8:13O MELHOR DO SEU DINHEIRO