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Ainda que o processo eleitoral esteja longe de qualquer definição, a reação ao anúncio da candidatura de Flávio Bolsonaro deixou claro que o caminho até 2026 tende a ser marcado por tensão e volatilidade
A semana passada foi encerrada sob o impacto de uma correção relevante nos ativos brasileiros, provocada pela sinalização de que o senador Flávio Bolsonaro seria o pré-candidato à Presidência com o apoio direto de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na leitura dominante do mercado, a notícia mudou de forma abrupta a percepção sobre o cenário eleitoral de 2026. Como consequência, houve um forte tombo na sexta-feira (5), quando o Ibovespa desabou 4,53% e encerrou o dia aos 157 mil pontos, acumulando uma perda superior a 7 mil pontos em apenas uma sessão — um movimento que evidencia o grau de sensibilidade dos ativos domésticos à leitura política.
Para os investidores, a principal consequência dessa sinalização foi a redução da probabilidade de vitória de uma candidatura de centro-direita com perfil mais claramente “pró-mercado”, até então associada ao nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
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Uma eventual candidatura de Flávio é vista como bem menos competitiva, dada sua elevada rejeição — tanto pelo desgaste natural associado ao bolsonarismo quanto pela frustração do eleitorado de centro, que enxergava na emergência de um nome alternativo a possibilidade de romper a atual polarização.
Esse redesenho das expectativas elevou a aversão ao risco, devolveu volatilidade aos ativos brasileiros e, na percepção dos agentes, aumentou a probabilidade de continuidade do atual projeto político em 2027, reduzindo a chance de uma mudança na política econômica, considerada fundamental para a retomada de uma agenda mais reformista e fiscalista.
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Ainda que o processo eleitoral esteja longe de qualquer definição final — o que torna precipitada qualquer leitura definitiva neste momento — a reação da última sexta-feira deixou claro que o caminho até 2026 tende a ser marcado por episódios frequentes de tensão e volatilidade.
Nesse contexto, o movimento da família Bolsonaro, visto como desorganizado e excessivamente concentrado na preservação de sua própria liderança no campo da direita, acaba, na prática, favorecendo politicamente o presidente Lula.
Mais uma vez, a oposição acaba atuando, ainda que de forma involuntária, como um vetor de fortalecimento do governo. Primeiro, com Eduardo Bolsonaro e os ruídos gerados em torno de tarifas e sanções dos Estados Unidos; agora, com Flávio Bolsonaro, cuja movimentação dificulta a organização e a coesão do campo oposicionista.
O resultado prático tem sido o aumento da instabilidade política e a redução da previsibilidade do cenário eleitoral, fatores que tendem a pesar negativamente sobre os ativos domésticos no curto prazo.
É verdade que ainda há um intervalo relevante até as eleições, e o próprio Flávio já admitiu publicamente que pode desistir da candidatura caso “paguem o preço dele”, assumindo de maneira explícita uma lógica de chantagem política que já havia sido ensaiada anteriormente por seu irmão.
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Esse “preço”, como se sabe, seria a soltura do ex-presidente Jair Bolsonaro — um desfecho que, na prática, parece extremamente improvável. Após a forte repercussão negativa, Flávio recuou da declaração e passou a afirmar que sua candidatura seria “irreversível”. Qual versão prevalecerá, apenas o tempo dirá.
Ao mesmo tempo, mesmo que uma eventual anistia avance no Congresso, o desenho que hoje parece mais plausível seria restrito, por meio de algum tipo de dosimetria, e ainda assim sem qualquer garantia de libertação do ex-presidente.
A reação negativa do mercado na última sexta-feira sugere que, desde já, a candidatura de Flávio nasce politicamente frágil. Ainda assim, o cenário mais provável é que essa narrativa seja sustentada até pelo menos o fim de março ou o início de abril, quando se encerra o prazo de desincompatibilização para ocupantes de cargos públicos.
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A partir desse movimento, alguns cenários começam a se desenhar. Um deles é a leitura de que a família Bolsonaro percebeu a perda contínua de capital político ao longo dos últimos meses — um processo que teria sido acelerado pela prisão do ex-presidente — justamente no momento em que a constelação de forças da direita começava a se reorganizar, de forma mais natural, em torno do nome de Tarcísio de Freitas.
Nesse contexto, a pré-candidatura de Flávio pode ser interpretada como uma tentativa desordenada de recuperar protagonismo e manter a família no centro do debate político.
Como a anistia nos termos desejados dificilmente prosperará e a soltura do ex-presidente parece cada vez menos factível, um dos objetivos estratégicos por trás desse movimento pode ser, na verdade, a construção de uma futura negociação política.
Entre as possibilidades, estaria a busca por uma posição de vice-presidência em uma chapa competitiva, associada a um eventual indulto presidencial em 2027 — ainda que a inelegibilidade fosse mantida, ao menos garantir-se-ia a liberdade do patriarca.
Sob essa ótica, a candidatura de Flávio funcionaria como um instrumento para “blindar” o nome de Tarcísio até março, evitando uma exposição precoce, porém ao custo de desorganizar a oposição como um todo, que teria pouco tempo, a partir de abril, para se reestruturar plenamente.
Ainda há margem temporal para esse jogo político: faltam cerca de dez meses para as eleições, período suficiente para reviravoltas, mas não sem produzir, no caminho, novas ondas de volatilidade sobre o mercado.
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O cenário alternativo que se desenha é especialmente desfavorável à família Bolsonaro. Caso insistam na candidatura de Flávio até o fim, acabam por transferir uma vantagem expressiva ao lulopetismo, ao mesmo tempo em que fragilizam politicamente tanto o ex-presidente quanto o próprio senador — que, em 2027, ficaria exposto sem o amparo do foro privilegiado.
Além disso, esse movimento tenderia a prolongar por mais quatro anos o processo de enfraquecimento do bolsonarismo, que já não possui a mesma força eleitoral observada em 2018 e 2022.
Em outro possível desdobramento, uma candidatura paralela de um nome como Ratinho Jr., por exemplo, poderia ganhar tração justamente por carregar uma rejeição significativamente menor que a de Flávio.
Isso abriria um cenário ainda mais adverso para a família Bolsonaro, no qual um candidato sem vínculos diretos com o clã poderia se viabilizar eleitoralmente e ocupar o espaço da direita competitiva no pleito.
Seja como for, o desenho que hoje parece mais plausível é o da manutenção dessa narrativa ao menos até março, com uma eventual transferência de bastão para Tarcísio de Freitas, a depender da evolução das condições políticas.
O governador, inclusive, se manifestou na noite de ontem, após três dias de silêncio, com uma declaração considerada tecnicamente correta ao afirmar que apoiará a candidatura mais forte da oposição — sinalizando pragmatismo e preservação de capital político.
Apesar de toda essa turbulência no campo político, a possibilidade de uma inflexão mais reformista no pêndulo eleitoral em 2026 ainda não está descartada, mesmo diante dos movimentos recentes da família Bolsonaro.
Antes disso, permanece vivo também o pilar da política monetária, com a expectativa de uma possível flexibilização no tom do Banco Central já nesta semana — fator que, se confirmado, tende a oferecer suporte adicional aos ativos de risco.
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