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Carolina Gama

Formada em jornalismo pela Cásper Líbero, já trabalhou em redações de economia de jornais como DCI e em agências de tempo real como a CMA. Já passou por rádios populares e ganhou prêmio em Portugal.

O SEGREDO DA ATA DO FED

O corte está chegando: o recado das principais mentes do maior banco central do mundo sobre os juros — e a reação dos mercados aqui e lá fora

Os investidores correram para ajustar as posições sobre a magnitude do corte de juros nos EUA; entenda o motivo para essa nova visão

Carolina Gama
21 de agosto de 2024
16:09 - atualizado às 14:24
Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, guiando os mercados

É muito mais uma questão de quanto do que de quando será o primeiro corte de juros nos EUA desse ciclo — pelo menos é esse o sinal da ata da reunião de julho do Federal Reserve (Fed), divulgada nesta quarta-feira (21). 

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O principal documento de política monetária do banco central norte-americano mostra que nos dias 30 e 31 de julho "a grande maioria” dos membros do Fomc (Comitê de Mercado Aberto) "observou que, se os dados continuassem chegando conforme o esperado, provavelmente seria apropriado flexibilizar a política na próxima reunião", marcada para 17 e 18 de setembro.

Mais do que isso: embora todos os membros do Fomc tenham votado naquele momento pela manutenção dos juros no maior patamar em 23 anos — na faixa entre 5,25% e 5,50% ao ano — a ata mostra que houve uma inclinação — entre um número não especificado de autoridades — para o início da flexibilização já na reunião de julho em vez de esperar até setembro.

“Vários [membros da reunião] observaram que o progresso recente na inflação e os aumentos na taxa de desemprego forneceram um caso plausível para reduzir os juros em 25 pontos-base nesta reunião ou que eles poderiam ter apoiado tal decisão”, diz a ata. 

É importante ressaltar, no entanto, que na linguagem da ata do Fed, que não menciona nomes nem especifica a quantidade exata de membros, "vários" é um número relativamente pequeno.

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No entanto, o documento deixa claro que as autoridades estavam confiantes sobre a direção da inflação e estavam prontas para começar a flexibilizar a política se os dados continuassem a cooperar.

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Se, por muito tempo, o BC dos EUA usou todas as armas — e leia-se aqui uma sequência brutal de aumento de juros — para trazer a inflação de volta à meta de 2% ao ano, nos últimos dois meses é o emprego — que compõe o mandato duplo do Fed junto com a estabilidade de preços — que preocupa autoridades e o mercado em geral. 

"A maioria dos membros [do Fomc] observou que os riscos para a meta de emprego aumentaram, e muitos deles notaram que os riscos para a meta de inflação diminuíram", diz a ata. 

"Alguns membros [do Fomc] notaram o risco de que uma flexibilização gradual nas condições do mercado de trabalho pudesse transitar para uma deterioração mais séria", acrescenta.

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O documento mostra ainda que "muitos" membros do comitê notaram que "os ganhos de emprego relatados podem estar exagerados".

Mais cedo, o Bureau of Labor Statistics relatou, em uma revisão preliminar dos números de emprego de abril de 2023 a março de 2024, que os ganhos podem ter sido exagerados em mais de 800.000.

Do lado da inflação, a ata de julho mostra alívio em torno da redução das pressões de preços. 

"Com relação à perspectiva de inflação, os membros julgaram que dados recentes aumentaram a confiança de que a inflação estava se movendo de forma sustentável em direção a 2%", diz a ata.

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"Quase todos os participantes observaram que os fatores que contribuíram para a desinflação recente provavelmente continuariam a pressionar a inflação para baixo nos próximos meses", acrescenta o documento. 

SELIC AOS 12%? POR QUE OS JUROS DEVEM VOLTAR A SUBIR AINDA ESTE ANO, SEGUNDO EX-BC

Mercado espera corte de juros em setembro e reage à ata 

As bolsas subiram no dia da decisão do Fed, em 31 de julho, mas despencaram nas sessões seguintes devido às preocupações de que o banco central norte-americano poderia estar se movendo muito lentamente para flexibilizar a política monetária.

Naquele momento, o Departamento do Trabalho relatou um aumento inesperado nos pedidos de seguro-desemprego, enquanto um indicador separado mostrou que o setor manufatureiro contraiu mais do que o esperado. 

As coisas pioraram quando o payroll de julho mostrou a criação de apenas 114.000 vagas e outro aumento na taxa de desemprego, agora para 4,3%.

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Os pedidos aumentaram para que o Fed cortasse rapidamente os juros —  alguns chegaram a sugerir que o banco central norte-americano chamasse uma reunião de emergência para evitar que a economia dos EUA entrasse em recessão em um futuro próximo. 

O pânico, no entanto, durou pouco e novos pedidos de seguro-desemprego voltaram aos níveis históricos normais, enquanto os indicadores de inflação mostraram que as pressões de preços estavam diminuindo. Os dados de vendas no varejo também foram melhores do que o esperado, amenizando as preocupações com a pressão do consumidor.

Hoje, Wall Street seguiu operando em alta após a divulgação da ata de julho — um movimento que rompeu com a tendência da sessão anterior, quando o S&P 500 e o Nasdaq terminaram o dia em queda. 

No mercado de dívida, assim que a ata foi publicada, os yields (rendimentos) dos títulos do Tesouro norte-americano de dois e dez anos renovaram mínimas intradiárias. 

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Por aqui, a reação do Ibovespa foi morna. O principal índice da bolsa brasileira continuou sua trajetória de alta, enquanto o dólar à vista inverteu o sinal e passou a cair, chegando a R$ 5,4782. 

Ao mesmo tempo, o mercado ampliava a chance de o Fed iniciar o ciclo de afrouxamento monetário com um corte de juros de 50 pontos-base em setembro — embora o cenário mais provável ainda seja de uma redução de 25 pontos-base.

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