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Por ora, expectativa é de um contágio limitado a instituições de menor porte, e evidências apontam para má gestão de risco por parte do SVB
O mercado financeiro global assistiu atônito, na última semana, ao colapso de um banco americano de médio porte que simplesmente faliu em apenas dois dias após sofrer uma corrida bancária. O Silicon Valley Bank (SVB), o banco do Vale do Silício, fechou as portas na sexta-feira (10), após intervenção do regulador, e agora o mercado teme um efeito contágio, em alguma medida.
Mas por que, afinal, o SVB quebrou? Outras instituições financeiras podem ter o mesmo fim? E pode o banco financiador das startups de tecnologia se tornar "um novo Lehman Brothers" e acabar desencadeando uma nova crise financeira global?
São muitas as perguntas, que vamos responder a seguir:
O SVB era um banco americano de médio porte, o 16º em tamanho nos Estados Unidos, com base num valor de US$ 209 bilhões em ativos no final do ano passado - é bastante, mas muito menos do que os valores trilionários em ativos detidos pelas quatro maiores instituições financeiras do país.
Seu foco era o mercado de tecnologia, tendo como clientes principalmente startups do Vale do Silício e até mesmo techs iniciantes de outros países que captavam recursos nos EUA com investidores do setor, incluindo algumas brasileiras.
Na semana passada, o SVB anunciou que precisou se desfazer às pressas de bilhões de dólares em títulos, amargando prejuízo de quase US$ 2 bilhões. O banco anunciou, ainda, que precisaria levantar US$ 2,25 bilhões em recursos, o que acendeu um sinal amarelo entre investidores e seus clientes.
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As ações do SVB na Nasdaq derreteram 60% só na última quinta-feira (09), arrastando todos os papéis do setor bancário americano consigo. Ao mesmo tempo, seus clientes correram para sacar seus recursos depositados na instituição, obrigando-a a vender ainda mais títulos com prejuízo, entrando em uma espiral negativa.
Na sexta-feira, a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), equivalente americano do nosso Fundo Garantidor de Créditos (FGC), decretou a falência do SVB após tentar sua venda, sem sucesso, dado ao enorme risco ao qual o banco estava exposto. O banco central inglês também anunciou que buscaria colocar a subsidiária do SVB na Inglaterra em processo de insolvência.
Agora, a FDIC deverá ressarcir os clientes que tiverem até US$ 250 mil em depósitos segurados no SVB, da mesma maneira que o FGC faz quando um banco brasileiro quebra. O problema é que cerca de 90% dos depósitos não estão garantidos, segundo dados do fim de 2022, pois muitos clientes empresariais tinham bem mais que este valor na instituição.
Quem não conseguiu sacar a tempo e tiver a receber valores superiores à garantia da FDIC terá, a princípio, que entrar na fila de credores da massa falida para receber, o que pode levar anos - a menos que o governo americano ofereça outra solução.
É importante entender que o que aconteceu ao SVB faz parte de um contexto maior e que está afetando, em alguma medida, todos os bancos dos Estados Unidos.
O SVB, assim como outras instituições financeiras, mantinha os depósitos dos clientes em títulos públicos e papéis lastreados em hipotecas, isto é, ativos de renda fixa.
Só que, assim como ocorrem com os títulos prefixados e indexados à inflação no Brasil, quando os juros futuros sobem nos Estados Unidos, os preços de mercado desses papéis caem. Se vendidos antes do vencimento, o investidor amarga prejuízo. Foi o que aconteceu com o SVB. Lembre-se de que os juros nos EUA estão pressionados, devido à política monetária restritiva do Federal Reserve, que vem aumentando as taxas para tentar controlar a inflação.
O SVB tinha uma carteira de clientes muito concentrada em startups de tecnologia, empresas que vêm sofrendo com a alta dos juros e que estão precisando de recursos. Um aumento de saques justamente num momento em que a venda antecipada de títulos tem resultado em prejuízo acabou sendo fatal para o banco.
Fenômeno semelhante ocorreu na última semana com outro banco americano focado em empresas do setor cripto, o Silvergate, que também foi à lona.
Ao que tudo indica, sim. Há evidências de que o banco tinha má gestão de risco e que poderia ser até deliberado, isto é, não apenas um erro, mas sim má fé, o que provavelmente será investigado pelas autoridades americanas.
Especialistas entendem que o banco estava excessivamente exposto a risco. Para começar, seu percentual de ativos investido em títulos era bem maior que a média da indústria. Mais especificamente, o percentual desses investimentos alocado em títulos lastreados em hipotecas - bem mais arriscados que títulos públicos, oscilando ainda mais com as altas de juros - era substancialmente maior que o percentual dos grandes bancos, como Citi e JP Morgan.
Também havia uma grande concentração em títulos de prazos mais longos, mais voláteis que os de prazos mais curtos, o que é temerário, tendo em vista que seus clientes são pequenos negócios de um setor de alto risco e que podem precisar fazer resgates toda hora. Ou seja, descasamento entre os prazos dos títulos e das obrigações do banco.
Finalmente, há evidências de que o SVB não vinha fazendo operações de hedge para se proteger de eventos como a alta de juros e não sofrer prejuízos com as oscilações na sua carteira de títulos, além de optar por formas de contabilizar suas operações que, embora legais, disfarçam as perdas com os títulos, deixando-as menos evidentes para analistas e acionistas.
Seria algo equivalente à marcação na curva de títulos de renda fixa, que evidencia quanto você ganha com eles se levá-los ao vencimento, em oposição à marcação a mercado, que mostra o valor que você conseguiria pelos títulos se os vendesse hoje.
Há algum risco de contágio sim, mas ele pode ficar concentrado nas instituições financeiras de menor porte, que devem passar por uma crise de confiança por parte dos clientes.
Em relatório emitido na tarde da última sexta-feira, a consultoria Gavekal se mostrou pessimista com o setor bancário americano e disse que há um alto risco de que problemas surjam em outros bancos.
Por outro lado, ao menos por enquanto, as autoridades americanas acreditam que não há um risco de contágio generalizado.
Em entrevista à rede de TV americana CBS, neste fim de semana, a secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, disse que a situação atual é bem diferente da crise financeira de 2008, quando o colapso do Lehman Brothers desencadeou uma quebradeira generalizada de bancos, inclusive de grande porte.
Lembrando que atualmente a regulação do setor bancário americano é bem mais forte do que naquela ocasião, ao menos para as instituições maiores. Para os bancos menores, porém, a regulação chegou a ser relaxada no governo Trump.
Seja como for, não é exagero esperar que outros bancos de médio e pequeno porte sofram uma onda de saques nos próximos dias, pois os clientes podem querer resgatar seus recursos por medo de que eles também estejam "nadando pelados", migrando para bancos maiores e mais sólidos.
Afinal, embora todos os bancos americanos estejam sofrendo em alguma medida os efeitos da escalada dos juros nos Estados Unidos, é fato que os de menor porte e focados em mercados mais arriscados estão bem mais sujeitos aos soluços da economia dos que os bancões. Além disso, também estão mais sensíveis aquelas instituições que, assim como o SVB, porventura façam uma gestão de risco inadequada.
Por vias tortas, sim. A inflação americana vinha tendo dificuldade de reagir ao aperto monetário, e a atividade econômica do país não há jeito de esfriar, mas um evento grande e impactante como a quebra de um ou mais bancos de porte significativo pode ser suficiente para afetar negativamente setores inteiros a acelerar um esfriamento ou até uma recessão econômica.
Assim, pode ser que o Federal Reserve nem precise aumentar os juros tanto quanto o esperado ou possa até iniciar os cortes antes do imaginado, a depender das consequências da quebra do SVB para a economia.
Além disso, os juros futuros - que são as expectativas do mercado para as taxas - tendem a recuar, o que pode trazer um certo alívio às instituições financeiras mais encrencadas.
O ex-diretor do Banco Central brasileiro, Tony Volpon, resume o caso no fio de Twitter a seguir:
*Com informações do Broadcast, The New York Times e The Wall Street Journal.
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