Com dívidas de R$ 244 milhões, Amaro pede recuperação extrajudicial
Dívida da Amaro inclui débitos com bancos e fornecedores, em situação que se agravou após um aporte previsto não acontecer

A coisa está realmente complicada no varejo nacional — o que não falta é empresa pedindo socorro diante de uma situação financeira delicada, que tem a seca do mercado de crédito e a alta dos juros como vilões. Desta vez, a varejista de moda Amaro pediu à Justiça de São Paulo a homologação de seu pedido de recuperação extrajudicial, processo em que a empresa faz acordo com seus credores.
A companhia soma dívidas de cerca de R$ 244 milhões, sendo R$ 151,8 milhões em dívidas bancárias e R$ 92,8 milhões com fornecedores. A rede quase conseguiu o aporte de um fundo em 2022, mas a piora do mercado com a alta dos juros e retração dos investimentos em empresas de tecnologia fez o futuro sócio desistir dos planos. A decisão piorou ainda mais a situação financeira da empresa.
Em outubro de 2021, a Amaro contratou um banco de investimento para ajudar a empresa a achar um sócio e se capitalizar. Em fevereiro de 2022, um fundo (cujo nome não foi informado pela companhia) se mostrou interessado e, dois meses depois, assinou um contrato de exclusividade para participar do futuro aporte na empresa.
Enquanto não fechava o negócio com o fundo, a Amaro recebeu um empréstimo-ponte do Itaú e do Santander. Mas na segunda metade do ano passado, por conta da instabilidade no mercado financeiro e, especialmente, da crise nos setores de tecnologia e nos fundos de venture capital — que compram participação em empresas de tecnologia — o investidor desistiu do aporte. A alegação teria sido de que todos os seus novos investimentos seriam adiados para 2023.
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Sem o dinheiro desse fundo, a Amaro foi "buscar de imediato outros investidores no mercado", como descreve no pedido à Justiça. "Mas as condições de mercado e a alta taxa de juros tornaram esse processo muito demorado." Como consequência, começou a cortar custos, reduzir o tamanho de sua estrutura e aumentou a austeridade nos gastos.
A varejista tentou prorrogar com os bancos o vencimento das linhas de crédito, mas não conseguiu. Assim, começou a atrasar o pagamento de seus fornecedores e prestadores de serviços. Como resposta, eles suspenderam a entrega de novos produtos, o que dificultou ainda mais as coisas.
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Nessa situação, a prioridade da empresa foram os gastos com empregados e as despesas essenciais para garantir a operação da varejista, além de tentar pagar os empréstimos bancários.
"Os juros elevados criaram uma pressão enorme no caixa da companhia", conta a Amaro. Apenas em 2022, foram desembolsados cerca de R$ 24,5 milhões em pagamentos de juros.
Na lista de credores da companhia, constam dívidas de cerca de R$ 49 milhões ao Itaú; R$ 37 milhões ao Santander; R$ 18 milhões ao BTG Pactual; R$ 12 milhões ao banco ABC Brasil; e R$ 1 milhão ao Safra.
Dentre os motivos para que o pedido seja concedido rapidamente, a companhia cita ainda ações judiciais que sofre na Justiça, “que colocam em risco as atividades empresariais, em virtude da iminência de atos de constrição de patrimônio, falência e/ou despejo das lojas”. A empresa pede, portanto, que essas ações sejam suspensas por 180 dias com a homologação do plano.
A varejista acrescenta que o ambiente de juros em dois dígitos, inflação alta e reajustes elevado dos contratos de aluguel criaram um ambiente difícil para os negócios. Ao mesmo tempo, houve a entrada de grandes grupos asiáticos no mercado de moda online brasileira que, em razão de vantagens tributárias, conseguem ofertar os produtos com preços bem menores. Essas empresas da Ásia também inflam os preços da publicidade em grandes redes sócias e no Google, segundo o pedido da Amaro, o que torna muito caro fazer propaganda.
O plano da Amaro
O plano extrajudicial desenhado para solução dos problemas financeiros da varejista de moda prevê o pagamento dos créditos quirografários — quando não há real garantia para o pagamento do crédito em caso de falência ou recuperação judicial —, somando pouco mais de R$ 244 milhões, de duas formas. Os fornecedores parceiros serão pagos conforme a opção da “tranche A” enquanto os credores financiadores parceiros, nos termos da “tranche B”.
A tranche A prevê pagamento do valor equivalente a 85% (oitenta e cinco por cento) dos créditos corrigido pela variação do CDI, e pago em uma única parcela no prazo de 5 (cinco) anos após a referida publicação, observada a possibilidade de antecipação em caso de ocorrência de qualquer evento de liquidez.
A tranche B prevê o pagamento do valor equivalente a 15% (quinze por cento) dos créditos de acordo com as seguintes condições: carência de 18 (dezoito) meses a contar da publicação da decisão de homologação remuneração pela variação do CDI, incidente a partir da referida publicação até a data do efetivo pagamento.
O documento diz que os encargos serão capitalizados ao principal durante o período de carência indicado e, após o início dos pagamentos, serão aplicados sempre sobre o saldo devedor do mês imediatamente anterior, sem capitalização, e pagos junto com as parcelas mensais de principal; e amortização do saldo de principal da tranche B em 42 (quarenta e duas) parcelas mensais, iguais e sucessivas, com início dos pagamentos após o fim do período de carência.
A companhia ainda sinaliza planos de pagamento para parceiros de marketplace e “fornecedores consignados parceiros”. O plano teve adesão de 41,63% dos credores quirografários.
- Leia também: A história se repete? Com dívida de R$ 4,4 bilhões, cervejaria Petrópolis pede recuperação judicial
* Com informações do Estadão Conteúdo
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