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De ‘neto do Roberto Campos’ a presidente do BC, Roberto Campos Neto está em rota de colisão com Lula por causa da taxa Selic
Até novembro de 2018, ele era apenas o neto do Roberto Campos, até mesmo para quem já era do mercado financeiro. Pouco mais de quatro anos depois, Roberto Campos Neto tornou-se personagem-chave de um cabo de guerra entre o Palácio do Planalto e o Banco Central.
Embora mais conhecido hoje do que quando foi indicado por Jair Bolsonaro para suceder Ilan Goldfajn à frente do BC, Roberto Campos Neto segue relativamente desconhecido fora de círculos restritos como a imprensa especializada, o mercado financeiro e agrupamentos políticos.
Nesse sentido, conhecer a origem, a trajetória e o impacto das ações de Campos Neto como banqueiro central talvez seja fundamental para entender por que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva despendeu tanto tempo, energia, cordas vocais e capital político em críticas diretas à autoridade monetária na semana que passou.
Comecemos então pelas origens de Roberto Campos Neto.
Quando ajudou a criar o Banco Central do Brasil, fundado em 1964, o economista Roberto Campos tinha como prever muita coisa, menos que a autoridade monetária um dia viria a ser presidida por um de seus netos.
Uma das principais referências intelectuais para os liberais clássicos e neoliberais de hoje em dia, Roberto Campos não foi apenas economista. Teve atuação destacada também como diplomata e político.
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Nos estertores da Segunda Guerra Mundial, participou da delegação brasileira na Conferência de Bretton Woods, que daria origem ao sistema monetário global ainda em vigor na atualidade.
Sob Getúlio Vargas, participou da criação da Petrobras e de sua estruturação como empresa de capital misto.
No governo Juscelino Kubitschek, Roberto Campos presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), que mais tarde incorporaria o Social no nome e o S na sigla, transformando-se no atual BNDES.
Mais de 20 anos depois de sua morte, fatos como ter sido o primeiro ministro do Planejamento sob a ditadura civil-militar (1964-85) ou de ter participado da criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) ainda fomentam opiniões fortes e debates acalorados em torno da figura de Roberto Campos. Contra ou a favor.
Diante do extenso e influente currículo do avô, é quase natural que até quase completar meio século de existência Roberto Campos Neto fosse lembrado na maior parte do tempo como parente de Roberto Campos.
Apesar disso, Campos Neto construiu uma longa e sólida reputação no mercado financeiro ao longo dos anos.
Sem renegar o avô, formou-se em economia e especializou-se em finanças. De 1996 a 1999, operou com juros, câmbio, bolsa, renda fixa e até a quase esquecida dívida externa no banco Bozano Simonsen.
Na sequência, Campos Neto acumulou quase duas décadas em duas passagens pelo Banco Santander intercaladas por um período na Claritas Investimentos.
De executivo do mercado financeiro, Campos Neto foi convidado por Bolsonaro para ficar à frente do Banco Central a partir de 2019.
A indicação teria partido de Paulo Guedes na intenção de reforçar a imagem de liberal em sua passagem pelo Ministério da Economia.
Foi como presidente do Banco Central que passou a atender mais como Roberto Campos Neto do que neto de Roberto Campos.
À frente da autoridade monetária, Campos Neto implementou em 2020 o projeto do Pix, que vinha sendo gestado por seu antecessor, Ilan Goldfajn.
A partir do início de 2021, tornou-se o primeiro presidente do BC a atuar com autonomia formal na condução da autarquia.
Também está à frente do projeto do real digital e impressiona na fluência quando é convidado a falar sobre novos mercados como o de criptomoedas.
Não faz muito tempo que a taxa Selic visitou suas mínimas históricas. Com Campos Neto no comando, o Comitê de Política Monetária (Copom) levou a taxa Selic a 2% ao ano em 2020.
Mas a alta dos preços derivada da paralisação das cadeias de suprimento em meio à pandemia da covid-19 forçou a autoridade monetária a desencadear um intenso ciclo de aperto monetário.
Num intervalo de um ano e meio, a partir de fevereiro de 2021, a taxa Selic subiu mais de mil pontos-base até alcançar 13,75% ao ano no segundo semestre de 2022.
Mesmo assim, Campos Neto não conseguiu manter a inflação dentro da meta nos últimos dois anos.
Ainda em dezembro de 2022, antes mesmo do início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incumbiu o hoje ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de buscar uma aproximação com o BC.
Ciente da autonomia formalmente concedida ao Banco Central, Lula parecia ter como principal objetivo engajar a autoridade monetária em um esforço conjunto para recuperar a economia brasileira.
Afinal, na avaliação do novo governo, a herança recebida de Bolsonaro é “ainda mais maldita” do que aquela vinda de Fernando Henrique Cardoso em 2003.
Entre uma provocação e outra vinda do Planalto, tudo parecia estar sob controle até a virada de janeiro para fevereiro. Foi quando o Copom reuniu-se pela primeira vez desde a posse de Lula para seu terceiro mandato.
No encontro, o Copom decidiu pela manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano. Isso já era esperado. Na visão do governo, o problema estava no tom do comunicado.
O Copom cita no documento a "ainda elevada incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país" como um dos fatores do risco de alta para o cenário inflacionário.
O comunicado também indica que o Brasil precisaria conviver com juros altos por mais tempo que o esperado.
No Palácio do Planalto, o teor do comunicado foi recebido como uma tentativa de sabotagem por parte do BC.
Além disso, Lula e seus ministros acreditam que seriam merecedores de um voto de confiança. Eles argumentam que herdaram de Bolsonaro um orçamento insuficiente, a inflação em níveis elevados e até mesmo uma situação de apagão de dados em alguns ministérios.
Nos dias que se seguiram à decisão do Copom, Lula soltou o verbo contra Campos Neto. Disse ter se sentido traído, elevou o tom do descontentamento com o nível do juro básico, criticou o descompasso entre a alta dos preços e a taxa Selic e propôs a revisão do regime de metas de inflação.
O governo também passou a avaliar mudanças na diretoria do BC, de modo a enfraquecer Campos Neto e alinhar o BC com o governo.
Não é preciso dizer que isso contraria um dos principais argumentos dos defensores da autonomia do Banco Central, que é limitar eventuais interferências políticas no trabalho da autoridade monetária.
Para membros da administração Lula, porém, Campos Neto já atua de forma política, mas de modo a dificultar o sucesso do governo.
Uma rápida visita a perfis de aliados do governo nas redes sociais traz à tona uma série de argumentos para que Lula confronte publicamente Roberto Campos Neto.
Acusam o banqueiro central, por exemplo, de ter permanecido em silêncio quanto às desonerações fiscais e à alocação de bilhões de reais em medidas por eles denunciadas como uma tentativa de Bolsonaro de comprar a reeleição ao longo do segundo semestre de 2022.
A preocupação fiscal, porém, já faz parte das comunicações oficiais do Copom pelo menos desde o fim de 2021.
Observadores apontam ainda que Campos Neto manteve contato próximo com ministros do antigo governo mesmo depois da posse de Lula. Além disso, foi votar vestindo uma camisa amarela da seleção brasileira, símbolo associado a simpatizantes de Bolsonaro nos últimos anos.
Ontem, ao divulgar a ata da reunião da discórdia, o BC tentou jogar água na fervura.
Mesmo sem alterar os termos do comunicado, o Copom reconheceu sinais de uma atividade econômica mais fraca no Brasil e no mundo. Esse cenário pode tirar pressão da alta esperada para a inflação, de acordo com os diretores do Banco Central.
Além disso, indicou que as medidas fiscais anunciadas pelo novo governo podem reduzir o déficit primário previsto para este ano.
Mesmo que isso sirva para embasar uma possível trégua, é preciso ter em mente que, em política, nem tudo é o que parece. Analistas consideram improvável que Lula esteja disposto a arcar com o desgaste político de uma tentativa de derrubar Campos Neto.
O que interessa ao governo é outra queda: a da taxa Selic. Afinal, o fato de o Brasil dispor atualmente de uma das taxas de juros reais mais altas do mundo é um obstáculo adicional à tentativa de recuperar a economia. E ter um culpado na ponta da língua caso a recuperação não se concretize.
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