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O banco de médio porte está confortável em sua posição e aposta no seu braço de reestruturação para dar solidez ao balanço em tempos turbulentos na bolsa
Entra ano e sai ano, a B3 segue sendo palco para o nascimento de heróis, vilões e arcos de corrupção e de redenção, muitas vezes dando inveja à criatividade de muito roteirista de primeira linha por aí. E o BR Partners (BRBI11) desponta como um improvável personagem-chave do enredo da bolsa.
A fotografia de apenas um dia de negociações no mercado financeiro pode nos mostrar pouco, mas em um ano nos daria uma narrativa digna das melhores histórias em quadrinhos. Nesse horizonte mais longo, o banco quer se destacar como um aliado importante das empresas em apuros — em uma dinâmica à Batman e Robin.
Se nos últimos tempos a narrativa foi dominada pelos efeitos da pandemia e a briga dos bancos centrais para controlar o dragão da inflação, 2023 parece ter mudado o foco dos investidores de volta para as empresas — mas não por uma boa razão.
No exterior, o problema maior parece estar concentrado no setor financeiro: os problemas do Credit Suisse e de diversos bancos médios americanos ganharam manchetes e espalharam pânico nos mercados.
Já no Brasil, a notícia de que a Lojas Americanas (AMER3), uma das maiores varejistas do país, enfrentava um rombo bilionário, surpreendeu a todos já em janeiro. A história se desenrolou rapidamente e, em poucas semanas, os erros contábeis levaram a empresa ao temido reino da recuperação judicial.
Enquanto há quem diga que as dificuldades do sistema bancário americano eram uma tragédia anunciada, a volta do fantasma da RJ ao território brasileiro foi uma indesejada surpresa — e parece ter lembrado a todos que, em tempos de juros altos e renda estrangulada, mais companhias estão suscetíveis a problemas financeiros cada vez maiores.
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A lista das endividadas logo começou a ganhar a luz do dia: na bolsa, Light (LIGT3), CVC (CVCB3), Oi (OIBR3) e Marisa (AMAR3) foram só algumas das companhias que ganharam manchetes; fora dela, Grupo Petrópolis, Amaro e Tok&Stok são exemplos notáveis.
Mas, anexada ao rol das devedoras, vem o BR Partners (BRPI11) e sua tentativa de ser o parceiro perfeito. Em seu cinto de utilidades, uma gama completa de ferramentas — e muitas delas podem ser utilizadas para evitar que uma empresa caia nas garras de uma eventual recuperação judicial.
Fundado em 2009, o banco independente de investimentos é especializado em transações de fusões e aquisições, mercado de capitais, tesouraria, derivativos, investimentos e reestruturação financeira. E, só em 2022, já foi responsável por dois projetos badalados de reestruturação de dívidas — o da Marisa e o da CVC.
E em conversa com o Seu Dinheiro, José Flávio Ferreira Ramos, CEO do banco de investimentos BR Partners, e Vinícius Carmona, diretor de relações com investidores, apontam que, se as coisas não mudarem no cenário macroeconômico, mais nomes podem se juntar a essa lista.
A instituição divide a sua estrutura em quatro pilares de negócio — Investment Banking (com assessoria para fusões e aquisições, captação de recursos, parcerias estratégicas e reestruturações societárias), Mercado de Capitais (captação de recursos por meio da estruturação e distribuição de serviços financeiros), Treasuries Sales & Structuring (consultoria no oferecimento de operações de câmbio, commodities ou juros) e Investimentos (com a gestão de recursos próprios e de terceiros, com foco em investimentos em empresas de pequeno e médio porte de até US$ 100 milhões).
E, enquanto os ventos do mercado de capitais seguem contrários, o setor de reestruturações tem se mostrado providencial para manter o balanço de riscos e a geração de receitas equilibradas. Apesar de não ser exatamente uma novidade, essa área se consolidou ao longo de 2022 — o primeiro ano completo em que atuou como um setor independente dentro da empresa.
Segundo José Flávio Ferreira Ramos, CEO do banco de investimentos BR Partners, a constituição do setor surgiu de uma necessidade de resiliência da companhia: era preciso alguma atividade capaz de atravessar os altos e baixos do mercado.
Também contou pontos a boa capacidade de barganha nas negociações, já que, ao contrário de outros bancos que também atuam no segmento, o BR Partners não é — e nem pretende ser — uma instituição de crédito.
Com bom trânsito entre banqueiros e executivos, a companhia aposta em sua independência para garantir um bom acordo para todas as partes envolvidas no processo.
E, assim, mesmo em um ambiente macroeconômico desafiador, o banco de investimentos tem o melhor cronograma de operações da sua história, com mais de 50 potenciais transações que abrangem todos os nichos do grupo.
Agora que você já sabe a importância do braço de reestruturação para o BR Partners, podemos dar um passo atrás. Ao contrário do que muitos podem imaginar, um processo de reestruturação não necessariamente indica uma recuperação judicial – pelo contrário.
O objetivo é afastar da melhor forma possível a necessidade de uma RJ. A equipe atua otimizando ativos existentes, estudando melhorias na estrutura de capital e no fluxo de caixa, e até mesmo as melhores ferramentas de captação de recursos.
Para Ramos, muitas vezes o empresário brasileiro demora a entender o tamanho do problema que tem em mãos. “O empresário no nosso país, por natureza, tem que ser otimista, né? Porque para enfrentar tanta barreira, tanto imposto, tanta regra trabalhista para ser um empreendedor, o cara tem que ser um super-herói”, diz ele, em entrevista ao Seu Dinheiro.
Como fiel escudeiro das empresas, a missão do BR Partners, muitas das vezes, é ser o detentor das más notícias — como ser obrigado a passar a mensagem de que “se você não se mover agora, corre o risco de quebrar”.
O CEO do banco aponta que o processo de reestruturação se baseia, então, em traçar um plano para que os empresários não deem de cara no poste.
No caso da CVC, o executivo aponta que foi um “deal à jato”, fazendo referência à facilidade do acordo com os debenturistas da empresa. Aqui, o objetivo era dar fôlego para que a companhia pudesse seguir com a sua operação sem sustos ou riscos de caixa.
Já no caso da Marisa, os executivos deram poucos detalhes sobre a operação — uma vez que o processo de análise ainda se encontra nos estágios iniciais do processo.
A lista de empresas varejistas com problemas de caixa não deve parar por aí e, apesar de o banco ter uma postura cautelosa com relação ao governo Lula, o CEO do banco de investimentos BR Partners parece concordar com o presidente em um ponto: o atual patamar da Selic pode se tornar um problemão.
“Não podemos mais viver dois ou três anos com as taxas de juros no nível em que estão. Mas, obviamente, o Banco Central não pode reduzir isso de uma maneira forçada ou não racional, porque isso voltará ao que ocorreu no governo Dilma — a inflação sobe e você tem que subir a Selic muito mais”, aponta Ramos.
Embora o diagnóstico atual seja de que os problemas estão restritos aos setores mais sensíveis ao custo alto de dívida e redução do poder de compra das famílias — como varejo de bens duráveis e educação —, os executivos do banco não descartam um problema maior no futuro.
Para Vinícius Carmona, diretor de RI do BR Partners, se a Selic se mantiver em 13,75% ao ano em 2023 ou ficar por muito mais tempo acima da casa dos dois dígitos, os desafios podem, de fato, se tornar sistêmicos.
“Ainda não é, mas estamos no caminho. Se você pegar o indicador Dívida/Ebitda das empresas desde junho de 2022, dá para ver que ele passou de 2x. Saiu de 1,5x e estamos indo rumo aos 3x, mesmo patamar de 2015. Se você tiver um custo de dívida que é de quase 20%, isso vai pegar todos os setores”.
Nas histórias em quadrinhos, os sidekicks tradicionalmente acabam tendo uma característica específica de fraqueza.
Com o balanço blindado para lidar com eventuais mudanças de direção do mercado e um alinhamento de riscos conservador, a pulga atrás da orelha dos investidores é com relação ao patamar atual das ações do banco de investimentos.
Desde a sua oferta inicial de ações, realizada em junho de 2021, os papéis BRBI11 acumulam perdas na casa dos 35% — desempenho bem pior do que o registrado pelo IFNC, o índice financeiro da B3.
Mas, se os resultados trimestrais mostram avanço e crescimento, porque as ações não respondem em igual medida?
Como qualquer movimento do mercado financeiro, a explicação costuma ser multifatorial, mas até mesmo Vinicius Carmona, diretor de relações com investidores, aponta uma fraqueza inegável: a baixa liquidez dos papéis.
Apesar da forte queda do IPO para cá, Carmona afirma que o perfil dos investidores não mudou desde a abertura de capital — gestoras com foco no longo prazo. De acordo com o executivo, das 29 assets que embarcaram na oferta, 14 (com as posições mais relevantes) se mantiveram no quadro de acionistas, e outras 20 entraram.
Com os juros altos e os resgates obrigando diversos gestores a se desfazerem de ativos, muitos foram obrigados a desmontar posições estratégicas – o que não parece ter sido o caso daqueles que investem no BR Partners.
Se, por um lado, o impacto disso significa que o mercado de fato acredita na tese de crescimento da companhia, por outro acaba afetando a liquidez dos papéis, reduzindo o volume de negociações e aumentando a dificuldade de manutenção do mercado secundário.
Para resolver o problema, uma nova oferta de ações pode ganhar a luz do dia. Mas a empresa não tem pressa, e as mudanças só devem vir em um momento de maior clareza — com juros mais baixos, retomada de IPOs e maior apetite por risco.
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