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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

Eles estão indo bem!

Tesouro Direto: títulos preferidos de analistas e gestores têm alta no ano e vivem rali – e ainda há espaço para mais

Para além do Tesouro Selic, prefixados e Tesouro IPCA+ de prazos curtos estão se saindo bem de forma talvez até meio surpreendente – mas tem explicação!

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
8 de agosto de 2022
6:30 - atualizado às 11:23
Ilustração utilizada em matéria sobre alta dos fundos multimercado, mostra homem de negócios surfando num vetor para cima
Títulos prefixados e atrelados à inflação de prazos mais curtos tiveram uma alta forte nos últimos dias. Imagem: iStock

No Tesouro Direto, 2022 tem sido um ano ótimo para alguns títulos e bem difícil para outros.

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No lado positivo, o destaque fica, é claro, com o Tesouro Selic (LFT), título pós-fixado indexado à Selic, que tem se beneficiado da alta da taxa básica de juros. Eles estão entre os melhores investimentos do ano, em média.

Desempenho dos títulos Tesouro Selic em 2022

VencimentoRentabilidade no ano
20236,84%
20246,90%
20256,97%
20277,27%
Fonte: Tesouro Direto

Na ponta negativa, os títulos prefixados e indexados à inflação de prazos longos sofrem com a alta dos juros futuros diante do aumento do risco fiscal, a inflação global elevada e a expectativa de aperto monetário no mundo todo.

Mas, de todos esses fatores, certamente é o aumento do risco-país por conta do fiscal que mais pesa, já que o governo furou de vez o teto de gastos para aumentar o Auxílio Brasil e conceder outros benefícios sociais, driblando a lei eleitoral, além de ter cortado impostos sobre combustíveis e energia, abrindo mão de parte da arrecadação.

Até meados da semana passada, todos os títulos com vencimento posterior a 2032 tinham perda acumulada no ano. Alguns vencimentos só passaram para o azul nos últimos dias, com a melhora das condições de mercado.

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Na parte intermediária dos prazos do Tesouro Direto, porém, observamos um fenômeno muito positivo para o investidor, com títulos prefixados e indexados à inflação que vêm se saindo bem de forma talvez até um pouco surpreendente.

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Os papéis Tesouro Prefixado (LTN e NTN-F) e Tesouro IPCA+ (NTN-B e NTN-B Principal) com ou sem juros semestrais e com vencimentos que variam de 2023 a 2030 acumulam alta no ano, mesmo depois de verem um aumento nas suas taxas - e esses títulos tipicamente se desvalorizam quando isso acontece.

Além disso, eles têm vivido um verdadeiro rali. Recentemente, começamos a ver um movimento generalizado de queda nas taxas e alta nos preços entre prefixados e NTN-Bs de todos os vencimentos, com a proximidade do fim do ciclo de alta de juros no país.

Mas o fenômeno tem sido mais intenso justamente para os papéis de prazos mais curtos. Enquanto os títulos longos só começaram a ver queda nas taxas e alta nos preços mais para o fim de julho/início de agosto, os papéis com vencimentos até 2030 já passam por esse processo desde meados de julho, quando suas taxas atingiram as máximas do ano.

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Este é o caso, por exemplo, do Tesouro Prefixado 2025 (LTN) e do Tesouro IPCA+ 2026 (NTN-B Principal), apenas para citar os títulos curtos ainda oferecidos para compra no Tesouro Direto.

No dia 20 de julho, esses papéis atingiram suas taxas máximas: 13,51%, no caso do pré 2025 e 6,35% + IPCA no caso do Tesouro IPCA+ 2026. Eles acumulam ganhos de 1,36% e 0,73% de lá até o fim do mês e de 3,44% e 3,10% da mesma data até agora, respectivamente.

O mesmo fenômeno de retorno positivo no ano e rali nos últimos dias é observado também entre os títulos curtos que não são mais oferecidos para compra pelo Tesouro Direto, mas continuam disponíveis para resgate, pois ainda habitam as carteiras de alguns investidores.

Observe:

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TítulosVencimentoAlta no anoTaxa início do ano*Taxa atual**Taxa máxima no anoAlta desde a taxa máxima
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais20246,82%5,20%6,13%7,31%1,86%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais20266,76%5,03%5,46%6,43%2,82%
Tesouro IPCA+20246,64%5,18%6,09%7,26%1,98%
Tesouro IPCA+20266,56%5,01%5,41%6,35%3,10%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20236,17%11,87%13,74%13,91%0,64%
Tesouro Prefixado20236,06%11,83%13,73%13,89%0,64%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais20304,53%5,16%5,61%6,28%3,26%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20253,46%10,71%12,07%13,57%3,26%
Tesouro Prefixado20243,36%10,90%12,43%13,79%2,67%
Tesouro Prefixado20252,95%10,74%12,06%13,51%3,44%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais20271,42%10,66%12,07%13,53%4,95%
(*) Taxa de compra manhã em 3 de janeiro de 2022 (**) Taxa de compra manhã em 5 de agosto de 2022
Todas as taxas máximas do ano foram atingidas no dia 20 de julho, com exceção dos títulos prefixados com e sem juros semestrais com vencimento em 2023, que atingiram suas taxas máximas em 19 de julho.
Fonte: Tesouro Direto

O que explica o rali recente

Conforme me explicou Lais Costa, analista de renda fixa da Empiricus, os títulos prefixados e atrelados à inflação de prazos mais curtos têm visto uma queda acentuada nas suas taxas, recentemente, em razão do recuo da inflação implícita.

A inflação implícita é a parte da remuneração dos títulos que diz respeito à expectativa para a inflação no futuro - no caso dos títulos mais curtos, num futuro próximo.

De maneira mais simples, bem antes de o Banco Central emitir sua decisão para os juros, indicando finalmente o fim do ciclo de alta, o mercado já tinha perspectivas de queda para a inflação, o que reduziu as taxas dos títulos e motivou sua valorização

Sim, é verdade que a inflação brasileira continua elevada, mas existem no momento pelo menos duas grandes forças deflacionárias que estão ganhando corpo, não só no Brasil, como no mundo, diz a analista. Ela cita:

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  • A redução dos preços dos combustíveis em razão do corte de impostos e da queda no preço do petróleo, esta motivada pelos temores de recessão no exterior. Este fator impacta toda a cadeia de produção, tanto pela redução no custo do transporte de bens, quanto pela redução do próprio custo de produção dos alimentos. O fenômeno já começou a ser sentido, mas deve continuar.
  • Queda na inflação dos comercializáveis (tradables), produtos que podem ser substituídos por importados em caso de alta da demanda ou queda na oferta local. O impulso da população pelo consumo de bens duráveis, forte durante a pandemia, já diminuiu com a reabertura, e agora a demanda externa está baixando, com a perspectiva de aperto monetário nos países ricos e possível recessão.

Os títulos mais longos, por sua vez, são bem menos afetados por essa queda na inflação de curto prazo e pelo fim do ciclo de alta da Selic. Sua dinâmica de preços tem mais a ver com a perspectiva para o quadro fiscal, e esta não é das melhores.

Basta lembrar que algumas das medidas tomadas para baixar a inflação agora - como os cortes de impostos - ou ajudar a população a lidar com ela - como o aumento do Auxílio Brasil e a concessão de auxílios a caminhoneiros e taxistas - motivaram o rompimento do teto fiscal e um drible na lei eleitoral.

Em outras palavras, essa conta será paga lá na frente, na forma de uma inflação elevada por mais tempo, e ainda se abriu um precedente negativo para os próximos governos que tentem se reeleger.

“Também temos eleições à vista e não sabemos ainda como o próximo governo vai se comportar [em relação ao fiscal], mas a perspectiva não é boa para nenhum dos dois principais candidatos”, acrescenta Lais Costa.

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A analista chama atenção ainda para um dado curioso: a inflação implícita caiu mais do que as taxas prefixadas, o que indica que o mercado ainda cobra um prêmio de risco relativamente elevado para investir nesses papéis.

“Como um dos vetores deflacionários veio na canetada, isso aumentou a percepção de risco do mercado. Teremos menos inflação, mas os títulos não podem pagar menos juros, porque precisa compensar esse risco”, explica.

Por que os títulos pré e NTN-B curtos têm alta no ano

Um fator que pode parecer estranho aos olhos do investidor mais experiente no Tesouro Direto é o fato de que os prefixados e Tesouro IPCA+ mais curtos têm desempenho positivo no acumulado de 2022, mesmo com a alta das suas taxas, como pode ser visto na tabela anterior.

Em geral, o que ocorre é o oposto. Quando há um aumento das taxas, os preços desses títulos públicos tendem a cair.

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O que acontece aqui, porém, tem uma dimensão mais técnica e, de certa forma, mais relacionada ao fato de esses papéis terem prazos mais curtos.

De forma geral, quanto menor o prazo de um papel, menos arriscado ele é. Então, num título público, quanto mais perto do vencimento o investidor comprar o papel, mais ele paga, proporcionalmente, pois ele fica menos tempo exposto àquele risco.

As taxas dos prefixados e NTN-Bs curtas subiram do início do ano para cá, mas a alta foi menor do que a queda no número de dias úteis até o vencimento (o prazo remanescente).

Esse caso evidencia inclusive a natureza menos arriscada desses papéis quando comparados aos prefixados e NTN-Bs longos, e o porquê de eles serem preferidos pelos investidores em momentos de muita turbulência e incerteza.

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Veja também: Onde investir na renda fixa no segundo semestre de 2022?

Prefixados e Tesouro IPCA+ curtos ainda estão atrativos?

Analistas e gestores de renda fixa gostam bastante desses papéis, ainda mais agora que o ciclo de alta da Selic está chegando ao fim, momento que tende a ser o mais auspicioso para a compra de prefixados e NTN-Bs.

Na reportagem do Seu Dinheiro sobre onde investir na renda fixa no segundo semestre, os prefixados de vencimentos intermediários, como o Tesouro Prefixado 2025, eram os preferidos de Pierre Jadoul, gestor da ARX, que também gostava das NTN-Bs de prazo semelhante, como o Tesouro IPCA+ 2026.

Este também estava entre os papéis preferidos de Ulisses Nehmi, da Sparta. Ambos os gestores disseram, na época, achar os títulos longos muito arriscados, e Nehmi citou nominalmente o risco das eleições - o que talvez explique também a demanda maior pelos títulos mais curtos neste momento.

O Santander já havia indicado especificamente o Tesouro IPCA+ 2026 para seus clientes no mês de julho e repetiu a indicação agora em agosto, em razão de um cenário de inflação já declinante, porém ainda com muitas incertezas à frente.

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Na semana passada, o nosso colunista Matheus Spiess também deixou claro, no seu texto semanal aqui no Seu Dinheiro, que gosta das NTN-Bs mais curtas, com vencimentos entre 2025 e 2027, para carregar até o vencimento.

“Se der certo, o investidor ganha porque a curva [de juros] arrefeceu; se der errado, a inflação vai ser alta o suficiente para mais do que compensar novas altas da curva”, escreve Spiess.

Importante lembrar que, embora o Tesouro Prefixado 2025 e o Tesouro IPCA+ 2026 sejam os únicos papéis de vencimentos mais curtos oferecidos atualmente para compra no Tesouro Direto, no mercado secundário, que pode ser acessado pela mesa de operações da sua corretora, é possível adquirir outros vencimentos.

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