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Bolsonaro até tentou minimizar o tom de seus discursos para avançar para o segundo turno e alimentar o sentimento antipetista que o levou ao Planalto em 2018, mas fracassou e foi derrotado por Lula neste domingo
Ainda que não tenha perdido no primeiro turno como algumas pesquisas apontavam, Jair Bolsonaro (PL) sai da corrida ao Palácio do Planalto estabelecendo uma marca inédita: é o primeiro presidente desde a redemocratização a não conseguir se reeleger.
E mais: fez do rival Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o primeiro a ocupar o cargo de chefe do Executivo pela terceira vez na história do país.
Essas marcas não são sem razão. Se, em 2018, Bolsonaro bebeu na fonte do antipetismo para conseguir chegar ao Planalto, agora foi o antibolsonarismo que o impediu de ocupar por mais quatro anos a cadeira de presidente do Brasil.
Com 99,29% das urnas apuradas, Lula tinha 50,86% dos votos válidos contra 49,14% de Bolsonaro.
Conforme a campanha foi avançando, Bolsonaro percebeu que o tom extremista de seus discursos não garantiria a vitória contra Lula. Ainda na reta final do primeiro turno, a equipe do presidente o aconselhou a minimizar declarações em uma espécie de mea culpa.
Bolsonaro então passou a se dizer arrependido de ter dito, em 2020, que não era coveiro para comentar as mortes por covid-19 no Brasil.
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Ele fez um mea culpa ao dizer que “deu uma aloprada” e que “perdeu a linha” quando afirmou que “não era coveiro” ao tratar do tema na época.
Em abril de 2020, ainda nos primeiros meses da pandemia, Bolsonaro foi questionado por jornalistas na porta do Palácio da Alvorada — no local onde costumava receber apoiadores, chamado de “cercadinho” — sobre as mortes por covid-19. À época, o Brasil registrava 2.575 vítimas do vírus. O presidente afirmou então que não era “coveiro”.
Em outro momento, ele disse que não zombou de pessoas com asfixia provocada pela doença — no entanto, ao afirmar que não teria imitado os pacientes com falta de ar, Bolsonaro tornou a fazer sons de asfixia.
Em 2021, o presidente simulou em ao menos duas ocasiões pacientes com covid-19 sem oxigênio. A falta de cilindros de ar foi um dos problemas mais graves no enfrentamento da doença no país, levando, por exemplo, ao colapso do sistema de saúde em Manaus e provocando a morte de pacientes por asfixia.
Bolsonaro também afirmou ao ser questionado sobre suas falas machistas que “pisou na bola” quando disse que o nascimento de sua filha caçula, Laura, teria sido uma “fraquejada” depois de seus quatro filhos — o que fez o presidente ser rejeitado pelo eleitorado feminino.
Bolsonaro chegou a dizer também que o seu comportamento mudou no último ano e que a cadeira da Presidência da República é um “aprendizado”.
Bolsonaro, no entanto, não se arrependeu de tudo. Ele disse, por exemplo, que não retiraria a declaração sobre a possibilidade de uma pessoa “virar jacaré” depois de receber uma dose da vacina por desconhecer os efeitos colaterais do imunizante.
O presidente afirmou que se tratava de uma “figura de linguagem”.
Ele seguiu defendendo o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19, segundo estudos científicos. Bolsonaro afirmou que acreditava que salvou milhares de vidas graças à divulgação do tratamento precoce.
O chefe do Executivo também não escapou de novas polêmicas no segundo turno. Um dos episódios mais marcantes desta etapa foi a sequência de falas de Bolsonaro sobre meninas venezuelanas que ele abordou no entorno de Brasília.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acabou por proibir Lula de usar o episódio na campanha, mas o petista ecoou as redes sociais e disse em entrevista que o presidente "se comporta como um pedófilo".
Lula assume a presidência no dia 1º de janeiro de 2023. A Bolsonaro caberá passar a faixa e repensar os planos para o futuro.
Em agosto, durante evento em Goiás, o presidente disse que tinha três alternativas: "Estar preso, estar morto ou a vitória. Pode ter certeza que a primeira alternativa não existe. Estou fazendo a coisa certa e não devo nada a ninguém. Sempre onde o povo esteve, eu estive", afirmou ele na ocasião.
Mas, conforme a campanha foi avançando e as pesquisas foram mostrando a possibilidade de Lula vencer ainda no primeiro, Bolsonaro foi ajustando o tom sobre seu futuro.
Menos de um mês antes do primeiro turno, o presidente passou a dizer que se perdesse a eleição passaria a faixa e se recolheria, indicando que deixaria a política em caso de derrota.
Se Bolsonaro está certo ou não quando diz que não existe a alternativa de prisão para ele, só o tempo e a Justiça dirão, mas fato é que o presidente tomou algumas providências nesse sentido.
Ao longo do mandato, Bolsonaro impôs uma série de sigilos de 100 anos para impedir o acesso a informações consideradas sensíveis pelo governo.
O mais recente deles foi sobre as visitas ao Planalto, que se tornaram secretas nos casos que incluem os filhos do presidente e os convidados da primeira-dama Michelle Bolsonaro. O governo alega que há informações pessoais nos documentos.
Talvez o caso mais emblemático sobre os sigilos tenha ligação com a pandemia. Em janeiro de 2021, o governo impôs sigilo de 100 anos para o cartão de vacinação de Bolsonaro.
Segundo a assessoria da presidência, os dados "dizem respeito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem" do presidente — que dizia não ter recebido o imunizante e andava sem máscaras e em aglomerações pelo Brasil.
Ainda ligado à pandemia, os contratos da aquisição da vacina indiana Covaxin foram colocados sob sigilo de 100 anos pelo Ministério da Saúde. O acordo, assinado em fevereiro de 2021 ao custo de R$ 1,6 bilhão, foi investigado pela CPI da Covid, que conseguiu derrubar a restrição de acesso.
O governo federal colocou sigilo de 100 anos no processo interno do Exército contra o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, pela participação dele em um ato político ao lado de Bolsonaro, em maio de 2021. Ele foi investigado por infringir o Regimento Disciplinar do Exército, de 2002.
Bolsonaro também demonstrou imensa preocupação com os filhos. Por isso, determinou o sigilo de 100 anos sobre informações dos crachás de acesso ao Palácio do Planalto emitidos em nome dos filhos Carlos (Republicanos-RJ) e Eduardo (PL-SP).
A Receita Federal também impôs um sigilo de 100 anos no processo conhecido por "rachadinhas" do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O órgão afirma que os documentos possuem informações pessoais, com acesso restrito a agentes públicos e aos envolvidos no processo.
A vitória de Lula pode ter tirado Bolsonaro do Palácio do Planalto, mas não acaba com o bolsonarismo no Brasil — uma semente plantada em 2018 que ainda pode dar frutos.
Na boca de defensores do presidente e do governo, o adjetivo bolsonarista é usado para ostentar uma posição política.
Já para os críticos, bolsonarista beira o insulto, em um mecanismo não tão diferente do observado no uso de palavras como petista ou comunista por eleitores de direita.
Para alguns especialistas, podem ser classificados como bolsonaristas os mais de 30% dos eleitores que apoiam o governo do presidente Jair Bolsonaro e que votaram pela sua reeleição.
Já outros acadêmicos defendem que bolsonaristas não seriam todos os apoiadores de Bolsonaro, mas somente a parte considerada mais combativa e radical, os "bolsonaristas raiz" — aqueles eleitores e políticos que consideram o governo bom ou ótimo, que não abriram mão de votar no presidente e que dizem "acreditar sempre" nas declarações dele.
De 2015 a 2018, o número de bolsonaristas foi se multiplicando graças a sentimentos como o antipetismo e o repúdio ao sistema político-partidário tradicional — e fatores variados, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e o uso eficiente das mídias sociais por pessoas no entorno de Bolsonaro, como seu filho Carlos.
"[O bolsonarismo é] um fenômeno político que transcende a própria figura de Jair Bolsonaro, e que se caracteriza por uma visão de mundo ultraconservadora, que prega o retorno aos 'valores tradicionais' e assume uma retórica nacionalista e 'patriótica', sendo profundamente crítica a tudo aquilo que esteja minimamente identificado com a esquerda e o progressismo", escreveram a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado e o historiador Adriano de Freixo no livro Brasil em Transe: Bolsonarismo, Nova Direita e Desdemocratização.
E esse fenômeno não acabou com a derrota de Bolsonaro.
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