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Demanda teria sido equivalente ao dobro do valor inicialmente estimado para a oferta, e teve até queda de braço entre investidores-âncora e coordenadores em torno do preço da ação
A Eletrobras (ELET6; ELET3) não é mais, oficialmente, uma empresa estatal. Na noite desta quinta-feira (09), a elétrica concluiu a badalada oferta pública de ações que tinha como objetivo diluir a participação da União, resultando na privatização da companhia.
E a oferta foi um sucesso, terminando com a emissão, pela Eletrobras, de 627.675.340 novas ações e ADS na sua oferta primária, mais o lote suplementar de 104.621.528 papéis, a um preço por ação ordinária (ELET3) estabelecido em R$ 42.
Com isso, R$ 30,8 bilhões irão para os cofres da companhia, e a participação da União no capital votante cai de 72% para 40,3%.
Houve ainda uma oferta secundária de 69.801.516 ações feita pelo BNDESPar, que com isso embolsou R$ 2,9 bilhões. No total, a oferta pública de privatização da Eletrobras movimentou R$ 33,7 bilhões, tornando-se a maior oferta de ações da bolsa brasileira em 2022 até agora.
O montante estimado, inicialmente, era de R$ 35 bilhões, mas a demanda chegou ao dobro deste valor, segundo fontes ouvidas pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Estadão.
Na iminência da aguardada privatização, as ações da agora ex-estatal fecharam o pregão na B3 entre as maiores altas do Ibovespa nesta quinta. Os papéis preferenciais (ELET6) subiram 2,09%, a R$ 42,50, enquanto os ordinários (ELET3) avançaram 2,14%, a R$ 43,04.
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Os papéis vendidos na oferta pública concluída nesta quinta começam a ser negociados na bolsa de valores na próxima segunda-feira, 13 de junho.
Fontes ouvidas pelo Seu Dinheiro afirmaram que a demanda superou a oferta com bastante folga. Segundo um deles, apenas dois megainvestidores - o fundo de pensão Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB) e a holding Itaúsa (ITSA4) - teriam abocanhado algo em torno de R$ 13 bilhões.
Também houve grande interesse por parte dos fundos que já eram acionistas da companhia em exercerem seu direito de preferência para não terem as suas posições diluídas. Investidores estrangeiros também manifestaram desejo de participar.
Fontes ouvidas pelo Broadcast afirmaram que a demanda total pelos papéis da Eletrobras chegou a extraordinários R$ 70 bilhões e que cerca de 45% dos investidores foram estrangeiros.
E com essa procura tão aquecida, chegou a haver uma certa queda de braço entre investidores-âncora e coordenadores da oferta para fechar o preço.
A expectativa era de que o preço por ação ficasse ao redor dos R$ 40, mas o fechamento das ações ELET3 acima desse patamar, no pregão de hoje, já era um indicativo dessa pressão de última hora para as ações saírem por um valor mais alto. No dia anterior ao do registro da oferta, porém, as ações ELET3 fecharam cotadas a R$ 44, acima dos R$ 42 dos papéis emitidos hoje.
A oferta foi coordenada por BTG Pactual (coordenador-líder), Bank of America (agente estabilizador), Goldman Sachs, Itaú BBA, XP Investment Banking, Bradesco BBI, Caixa, Citi, Credit Suisse, JP Morgan, Morgan Stanley e Safra.
No caso das reservas feitas com recursos do FGTS, às quais os trabalhadores tinham direito, a demanda ficou acima do teto de R$ 6 bilhões estabelecido pelo governo, chegando a R$ 9 bilhões, segundo apuração do Estadão. Isso significa que haverá rateio, isto é, os trabalhadores não conseguirão investir todo o valor solicitado.
No caso das pessoas físicas que investiram nas ações diretamente, porém, sem ser com recursos do FGTS, a Eletrobras dizia garantir uma alocação mínima de R$ 5 mil a R$ 50 mil, antes que houvesse qualquer rateio.
O período de reserva das ações da companhia foi de 3 a 8 de junho. Neste prazo, trabalhadores com saldo no FGTS também puderam destinar até 50% dos recursos do seu fundo de garantia para Fundos Mútuos de Privatização (FMP-FGTS) criados especialmente para investir na oferta da Eletrobras. Mais de 20 fundos foram lançados por 15 instituições financeiras.
O grande interesse dos trabalhadores em investir parte do seu FGTS na empresa se espelha nos retornos formidáveis obtidos nos últimos 20 anos por quem teve a oportunidade de investir parte do fundo de garantia em ofertas de Petrobras e Vale no início dos anos 2000.
A rentabilidade baixa do fundo de garantia motiva os trabalhadores a buscarem potenciais de retorno maiores para esses recursos que, de fato, estão "presos" no fundo até que eles atinjam os pré-requisitos para resgatá-los.
Quem conseguiu alocar uma parte do seu FGTS em um FMP-FGTS Eletrobras deverá agora permanecer com o investimento por 12 meses, no mínimo. Após este prazo será possível resgatar os recursos, mas se o trabalhador não se enquadrar nas pré-condições que permitem o saque do fundo de garantia, o dinheiro resgatado apenas retornará ao FGTS.
Com um parque gerador gigantesco, milhares de quilômetros de linhas de transmissão e sem o Estado como sócio, o mercado parece convencido de que investir na Eletrobras é um bom negócio. Mas há alguns poréns nessa história que precisam ser considerados.
As características do setor de energia – previsibilidade maior de fluxo de caixa e ganhos mais resilientes –, e o tamanho das mudanças que serão feitas na companhia indicam que esse é um investimento para pessoas com um horizonte de longo prazo.
Para Ruy Hungria, analista da Empiricus, um investimento em ações deve ser de dois a três anos, tempo suficiente para eliminar os ruídos de curto prazo.
Ou seja: se você pensa em investir de olho em um retorno de 100% em poucos meses, esse não é o ativo certo para você. Apesar da desestatização da empresa, as mudanças não devem ser sentidas da noite para o dia.
Vitor Rhein Schirato, sócio-fundador da Daemon e especialista em Direito Regulatório, comparou a empresa com um navio de carga de 14 mil contêineres, em que é impossível fazer manobras bruscas.
Dos gestores ouvidos pelo Seu Dinheiro, as projeções para as ações vão de R$ 55 a R$ 70 apenas ao considerar a saída do governo do controle. O ponto de saída fica mais difícil de quantificar e depende muito da gestão futura da empresa, mas uma casa estima que os ganhos podem ir de 60% a 200%.
Para o diretor de uma das casas ouvidas pela reportagem, a Eletrobras é mais interessante que as concorrentes logo na largada do processo, oferecendo um risco-retorno atrativo.
Se o seu objetivo são dividendos gordos, as perspectivas também são positivas, já que mesmo como estatal a empresa tem feito bons pagamentos de proventos. No entanto, antes é preciso saber quais são os planos estratégicos da nova gestão e, como vimos anteriormente, essa é uma questão em aberto.
Na visão do gestor mais cauteloso com o Seu Dinheiro conversou, a entrada na oferta só valia a pena se fosse feita com utilização dos recursos do FGTS, já que o potencial de ganhos com o papel da Eletrobras é superior ao rendimento do fundo de garantia. Do contrário, ainda são muitas incertezas no horizonte para justificar um aporte mais significativo neste momento.
“Se puder escolher outras coisas, eu prefiro, ainda não sabemos quem vai tocar a empresa e qual vai ser a cabeça da nova gestão em torno do crescimento. Vão escolher pagar dividendos ou tomar dívida e se alavancar para crescer?”.
Para Ruy Hungria, da Empiricus, mesmo que a expectativa seja de um retorno maior do que o gerado pelo FGTS, você não deve abandonar o seu perfil de risco e ignorar a necessidade de diversificação ao investir na Eletrobras.
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