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Companhia enfrenta conflito no leste europeu com artilharia de brincos e pulseiras reinventados, e pode ser opção para quem quer investir em empresas de varejo na bolsa
Não à toa, o ouro é usado como símbolo da aliança que dura uma vida. Branco, amarelo e até rosé, o metal é um clássico não só dos enlaces amorosos, mas também das crises. A corrida para o ouro provocada pela invasão russa à Ucrânia é o mais recente exemplo da busca dos investidores por um ativo seguro — e foi assim que a guerra chegou à Vivara (VIVA3).
Para entender melhor os efeitos desse movimento sobre os negócios da maior joalheria do Brasil, é importante lembrar, antes de mais nada, que o ouro é um recurso natural cujas reservas são finitas.
Ou seja: a oferta do metal precioso é limitada. Sendo assim, o que determina o seu valor é o nível de procura — quanto maior a demanda, maior o preço, e vice-versa. Não falamos, afinal, de um material qualquer para uma bijuteria fajuta.
No ano passado, o ouro até recuou, mas ainda se manteve em patamar elevado. Só que, desde que o conflito na Ucrânia começou, seu preço voltou a disparar: no ano, a valorização acumulada da commodity é de quase 10%, enquanto a da prata já passa dos dois dígitos.
Metais como ouro e prata, junto com as gemas, representam um terço dos custos da Vivara. Então, como a joalheria se mantém viva em meio à troca de tiros entre russos e ucranianos e à fuga dos investidores de ativos mais arriscados?
Se uma aliança de 18 quilates ficou mais cara em tempos de guerra, a Vivara (VIVA3) tem a saída para manter vivo o desejo da joia clássica: a reciclagem.
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Atualmente, a companhia usa cerca de 100 quilos de ouro por mês em sua produção, mas tem se beneficiado de campanhas adotadas há alguns anos, baseadas na recompra de joias antigas de consumidores na troca por novas.
Em entrevista ao Neofeed no mês passado, o CFO da Vivara, Otávio Lyra, disse que um quarto do ouro usado pela companhia vem dessa prática de economia circular que, ao mesmo tempo, permite uma recorrência do cliente nas lojas.
“A Vivara é uma empresa verticalizada, ou seja, não apenas comercializa, mas fabrica as joias. Com isso, tem a possibilidade de derreter peças com baixa aceitação, transformando-as em novas”, disse o analista Breno Francis de Paula, do Inter Research.
Fernando Ferrer, analista da Empiricus, explica ainda que, por ter a própria fábrica e parceria com companhias aéreas, a Vivara ganha agilidade no derretimento de peças para devolvê-las ao mercado com uma nova roupagem.
“A fabricação e o design próprios possibilitam que a Vivara devolva às lojas peças com novas gramaturas e mitigue o aumento de preços do ouro. A Vivara pode, por exemplo, pegar uma peça de ouro com 10 gramas e refazê-la com 8 gramas de ouro sem subir o preço, com novo design, agradando o cliente”, afirma Ferrer.
Como a Vivara (VIVA3) tem uma parte significativa de seus custos atrelados à variação do ouro, prata e pedras preciosas, é praticamente impossível que a empresa não sinta os efeitos da disparada de preços nos seus negócios.
Mas, além de derreter peças antigas ou com baixa aceitação, a companhia também tem outro forte aliado na guerra contra o aumento de preços: os estoques. Foi assim, por exemplo, que a joalheria sobreviveu aos efeitos da pandemia de covid-19.
Em 2020, o ouro disparou até mais do que agora, com investidores se refugiando novamente em um dos ativos considerados mais seguros no mundo e também tentando escapar da inflação - que agora se mostra mais feroz do que nunca.
“Com a guerra na Ucrânia, os custos da Vivara devem se elevar, mas não disparar. A empresa, de fato, tem um estoque robusto para lidar com essa situação que não é de agora”, afirmou de Paula, do Inter Research.
Segundo Ferrer, da Empiricus, a Vivara trabalha com estoque para dez meses, o que ajuda a empresa a normalizar os preços do ouro.
“Se o ouro sobe 10%, a Vivara, graças aos estoques, ao invés dar um choque nos preços com um repasse dessa magnitude, consegue aumentar seus valores aos poucos e ao longo dos meses”, disse.
Vários fatores fizeram a inflação disparar em todo o mundo. A reabertura das economias depois de meses de bloqueio pela covid-19 e a falta de suprimentos em várias partes do mundo são os principais vilões dos preços altos.
A guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou no último dia 24 de fevereiro, jogou mais lenha nessa fogueira, fazendo também o petróleo disparar, o que afeta os preços dos combustíveis — um alimento e tanto para a inflação em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil.
“O ambiente macroeconômico é perverso para o consumo, mas ainda não sentimos esses efeitos neste início de 2022 sobre os produtos da Vivara”, disse o CFO da empresa, Otavio Lyra, na teleconferência de resultados do quarto trimestre de 2021.
Com a renda engolida pela inflação, quem pensaria em comprar joias neste momento? O público-alvo da Vivara (VIVA3), cujo poder de compra costuma ser mais elevado — e que, portanto, não é tão afetado pelo aumento generalizado nos preços.
“Empresas de joias não são tão pressionadas pela inflação porque seus clientes não sentem um impacto forte da alta dos preços”, disse o economista e especialista em investimentos da Empiricus, Matheus Spiess.
Ele explica ainda que esse fator dá outra vantagem à Vivara: o pricing power, isto é, a capacidade que uma empresa tem de aumentar os preços de seus produtos ou serviços sem prejudicar sua posição competitiva ou alienar sua base de clientes.
“Em um cenário como o atual, quem tiver mais pricing power vai se dar melhor. No caso da Vivara, ela é uma empresa dominante, com marcas únicas e ainda pode dar descontos, por exemplo, em sua segunda linha de produtos”, afirmou Spiess.
A artilharia da Vivara (VIVA3) para fazer frente à alta do ouro também é composta pela Life, marca que basicamente concentra itens feitos em prata e que vem ganhando relevância em faturamento e base de clientes.
Entre outubro e dezembro de 2021, a receita de lojas exclusivas da marca Life atingiu 6,3% de participação na receita do canal físico da Vivara, com a abertura de 20 novas lojas nos últimos 12 meses.
Ferrer, da Empiricus, conta que o ganho em importância da Life para a Vivara não é à toa: além de uma marca aspiracional para pessoas com renda menor, também apoia os negócios em momentos de crise no país.
“Além de ter um mix de produtos, a Vivara passou a se concentrar mais na Life, que é sempre opção para quem não consegue comprar um item em ouro, mas deseja ter uma boa prata”, afirma.
Antes de responder essa pergunta, é sempre importante lembrar que qualquer investimento não está livre de riscos, por mais que o cenário e a posição de uma empresa sejam fortes. E, com a Vivara (VIVA3), não é diferente.
“Entendemos que o movimento do mercado brasileiro em cenários de guerra é se voltar para as empresas ligadas à exportação de commodities, mas para o investidor que gosta do varejo e entende essa conjuntura, enxergamos a Vivara como uma opção para se ter em carteira”, disse De Paula, do Inter Research.
O Inter Research tem recomendação de compra para VIVA3, com preço alvo de R$ 34 para o final de 2022 — o que representa um potencial de alta de 30,72% com relação ao fechamento de sexta-feira (18).
Para um gestor de uma asset em São Paulo, a tese da Vivara segue válida ainda que os custos subam e haja repasse ao consumidor final.
"A simples alta do ouro — tanto pelo preço da commodity quanto pelo câmbio — não inviabiliza a tese de Vivara. Ela continua sendo mais eficiente do que as concorrentes, e com custos menores. A alta de preços pode impactar a demanda no curto prazo, mas a tese original ainda é válida", afirmou.
Analistas do JP Morgan capitaneados por Joseph Giordano também veem uma boa dinâmica para a Vivara. O banco tem recomendação neutra para VIVA3, com preço-alvo de R$ 24,78 - uma chance de desvalorização de 4,73% em relação ao fechamento de sexta-feira.
“No geral, acreditamos que as boas tendências de crescimento provavelmente serão bem-vindas pelo mercado, principalmente porque a empresa menciona no lançamento tendências sólidas de vendas mesmas lojas no primeiro trimestre deste ano”, diz em nota.
A Empiricus não tem neste momento VIVA3 em suas carteiras de ações, mas nem por isso deixa de ver a empresa como uma boa opção de investimentos.
“Não temos VIVA3 porque optamos, por exemplo, por empresas ligadas às commodities, mas para quem quer se manter no varejo, vejo a Vivara como boa opção, já que é uma empresa líder de mercado, com capacidade de repasse de preços e que negocia múltiplos elevados”, diz Ferrer.
A Vivara (VIVA3) apresentou seus resultados do quarto trimestre de 2021 e do ano na quinta-feira (17). Os principais números estão listados abaixo:
Quarto trimestre
No ano de 2021
Considerando as vendas digitais, a empresa registrou um aumento de 162,5% em relação ao quarto trimestre de 2019, representando 15,6% do faturamento do período e de 17,4% no ano.
Nas vendas mesmas lojas (SSS, em inglês) — uma métrica fundamental para o varejo — a Vivara viu um crescimento de 11,5% entre outubro e dezembro, enquanto no ano a alta foi de 32,1% em 2021; e de 16,1% em relação a 2019.
“Em relação à rentabilidade, a margem bruta se manteve em níveis saudáveis apesar do forte aumento de custos de matéria-prima — prata subindo cerca de 60% desde o início da pandemia e ouro, 30% — e custos relacionados à expansão da fábrica da empresa”, afirmaram analistas da XP em nota.
A corretora reiterou a recomendação de compra para a Vivara, com preço-alvo de R$ 37,00 por ação — um potencial de alta de 42,25% com relação ao fechamento de sexta-feira.
Depois do forte desempenho no quarto trimestre e em 2021, a Vivara (VIVA3) não deve parar. A companhia traçou uma rota de expansão que inclui um aumento de 25% a 30% da receita em 2022 e R$ 170 milhões em investimentos.
Além disso, a empresa anunciou planos de abrir entre 50 e 70 lojas este ano, com foco na expansão da bandeira Life, que deve responder por 35 a 40 dessas inaugurações. Para a Vivara, a previsão é de 15 a 20 novas unidades com o objetivo de aumentar sua presença em cidades com pouca penetração.
Mas não é só com novas lojas ou com aportes na indústria que a companhia pretende enfrentar a concorrência e ampliar seu domínio no mercado de joias nacional.
As aquisições seguem vivas nos planos da companhia. Em maio do ano passado, muito se falou do casamento da Vivara com uma das mais tradicionais joalherias do país, a H.Stern. Mas chegamos em março de 2022 e a união não saiu.
Embora não tenha mencionado possíveis alvos, o CEO da Vivara, Paulo Kruglensky, não descartou aquisições para manter o ritmo de expansão da companhia.
“Mantemos em vista a expansão inorgânica, pensando em players que complementam nosso mix, para abrir outras frentes de crescimento”, afirmou o executivo, durante a teleconferência de resultados..
Quem então seriam os possíveis alvos da Vivara? Segundo Ferrer, a H.Stern segue como uma opção junto com a Monte Carlo. O analista da Empiricus, no entanto, não vê a consolidação da empresa no mercado nacional como o melhor caminho no momento.
“Os anos de 2020 e 2021 foram duros, então não fazia muito sentido destinar recursos para aquisições naquele momento”, afirmou. “Ainda acho que a melhor opção para a Vivara é ampliar participação de mercado - já que 16% ainda dá margem para isso - e pensar, talvez, em uma expansão para a América do Sul”, acrescenta.
O analista André Oliveira, do BB-BI, reitera a recomendação de compra, especialmente para os investidores mais arrojados
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