Ações de construtoras recuam com realização de lucros e previsão de corte de 95% na verba do Casa Verde Amarela
O corte no orçamento está previsto mesmo após o governo ter encontrado uma brecha na lei de criação do programa que regulamentou o uso de emendas parlamentares para reduzir ou quitar o pagamento da entrada nos financiamentos

Após passarem as últimas semanas em um rali que chamou a atenção do mercado, as ações das construtoras e incorporadoras da B3 são contaminadas pela aversão ao risco que domina a renda variável brasileira nesta sexta-feira (16).
Com exceção de Cury (CURY3), que, por volta das 15h40, avançava 4%, e de MRV (MRVE3) — que inverteu o sinal após iniciar a sessão em baixa —, todos os outros nomes do setor operavam no campo negativo. Ao longo do pregão, porém, outros três ativos também conseguiram virar o jogo. Veja o saldo final do dia:
- Cury (CURY3): +4,25%
- Cyrela (CYRE3): -1,56%
- Direcional (DIRR3): -1,05%
- EZTec (EZTC3): +0,10%
- MRV (MRVE3): +2,03%
- Plano & Plano (PLPL3): +0,29%
- Tenda (TEND3): +2,82%
O movimento de descida em bloco das companhias ocorre em um momento no qual os investidores analisam mais atentamente as implicações do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) para o setor.
O documento, entregue pelo Ministério da Economia ao Congresso no final do mês passado, destina apenas R$ 34,5 milhões ao Casa Verde e Amarela (CVA) em 2023. A soma é 95% inferior à destinada ao programa habitacional neste ano.
O corte está previsto mesmo após o governo ter encontrado uma brecha na lei de criação do CVA que regulamentou o uso de emendas parlamentares para reduzir ou quitar o pagamento da entrada nos financiamentos.
Na prática, a medida — anunciada a menos de um mês das eleições — permitirá que deputados e senadores enviem uma verba diretamente para suas regiões.
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Vale destacar ainda que, antes mesmo da redução, o orçamento atual não é suficiente para financiar a construção de novas casas e apartamentos para a população carente.
O Ministério da Economia admitiu, em nota enviada ao G1, que “os recursos previstos ficaram aquém da necessidade e da vontade do governo federal”.
Já o Ministério do Desenvolvimento Regional, responsável pela execução do CVA, explicou que, com esse cenário, foi preciso “priorizar o pagamento das obras já contratadas, bem como a retomada das obras dos residenciais paralisados, que somam 115 mil moradias”.
Gustavo Gomes, sócio e assessor de renda variável da Acqua Vero Investimentos, afirma que a redução “é bastante relevante” para as construtoras. “O subsídio do governo é muito importante para as famílias dentro do programa, visto que ele chega a pagar até 30 a 40% do valor total do imóvel.”
Ele explica que o impacto deve ser sentido principalmente por companhias como MRV (MRVE3) e Plano&Plano (PLPL3), que trabalham com as faixas de renda mais baixas do CVA.
“A situação é diferente na EZTec (EZTC3), por exemplo, que, por mais que também faça algumas residências dentro do programa, não tira de lá a maior parte da sua receita”, destaca Gomes.
Queda no orçamento não pesa para as ações?
Mas a visão de que a previsão orçamentária do governo é prejudicial para o setor não é unânime.
Uma analista de setor imobiliário ouvida pelo Seu Dinheiro relembra que a maior parte dos recursos utilizados pelas empresas listadas não vem do Orçamento da União, e sim do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
“As empresas de baixa renda às vezes são impactadas por esse tipo de notícia. Mas isso é um grande erro, pois o financiamento da LDO afeta apenas o primeiro grupo do programa”, afirma.
Para a analista, que chefia a divisão de real estate de um grande banco, a queda do setor hoje é fruto de um movimento de realização “natural e saudável” após as fortes altas registradas nos últimos dias.
Bruce Barbosa, sócio-fundador da Nord Research, acrescenta que, além de não ser uma grande preocupação do setor, a previsão orçamentária não é definitiva. “Os números não fecham a conta e qualquer presidente que ganhar as eleições terá que mudar o orçamento”, argumenta ele.
Gomes, da Acqua Vero, concorda que a realização técnica também está por trás da performance das ações das construtoras.
“Tivemos empresas que chegaram a subir 30% a 40% entre meados de julho e o início de setembro. Investidores que compraram na baixa já estão querendo vender esses ativos com um lucro bem considerável em um curto espaço de tempo.”
Alta dos juros preocupa as construtoras da B3?
Outro fator que pesa sobre o setor hoje é o avanço dos juros futuros, que sobem às vésperas de uma nova decisão de política monetária nos Estados Unidos e no Brasil.
As reuniões do Federal Reserve, banco central dos EUA, e do Copom, do BC brasileiro, estão marcadas para a próxima semana. Veja aqui o que esperar para o futuro da taxa Selic.
“As incorporadoras apanharam muito quando os juros estavam subindo. E hoje, mesmo que a alta seja pequena, elas estão caindo junto com o resto do mercado e dando um respiro no rali que registraram nos últimos dias”, afirma Bruce Barbosa.
Gustavo Gomes, da Acqua Vero, relembra ainda que o crescimento da taxa de juros futura encare também os financiamentos, que são um dos pilares do setor imobiliário.
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