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Jasmine Olga

Jasmine Olga

É repórter do Seu Dinheiro. Formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

ESPECIAL SD

Vale (VALE3), B3 (B3SA3) e mais de 40 empresas partem para a recompra de ações após queda na bolsa, mas será que elas deveriam fazer isso?

Apesar dos tradicionais ganhos de curtíssimo prazo, especialistas apontam que nem todo programa de recompra de ações pode ser visto como positivo e o investidor precisa analisar caso a caso antes de seguir a manada

Jasmine Olga
Jasmine Olga
1 de junho de 2022
6:01 - atualizado às 16:47
Painel com logotipo da B3; programa de formação em tecnologia | Dividendos
Painel com logotipo da B3 - Imagem: Shutterstock

Se você acompanhou a temporada 2021 da bolsa de valores — principalmente no primeiro semestre — deve se lembrar que dias sem a estreia de uma nova ação ou de uma oferta de uma empresa já listada na B3 foram raros. Em 2022 as companhias seguem indo até à bolsa, mas dessa vez desempenhando um papel bem diferente – o de compradoras. 

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E não é qualquer comprinha. Elas vão atrás de encher o carrinho com suas próprias ações.

Os anúncios de novos programas de recompra de ações viraram rotina nos cadernos de economia e, na maior parte do tempo, são recebidos com entusiasmo pelos investidores, muitas vezes levando a valorizações expressivas logo na sequência. 

Oficialmente, a operação é uma forma de gerar um maior retorno ao acionista, por meio de dividendos mais gordos agora ou no futuro. O recado imediato digerido pelo mercado, no entanto, é outro – se a própria gestão vai às compras é porque o papel está barato. 

Pelo menos 45 empresas voltaram à B3 como compradoras em 2022 – o mesmo número de companhias que foram listadas na bolsa ao longo de todo o ano passado, e uma quantidade muito superior ao mesmo período dos anos anteriores. Confira a lista completa dos programas de recompra no final desta matéria.

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O número chama a atenção, principalmente quando observamos que algumas dessas empresas fizeram a sua estreia na bolsa há menos de um ano. Além disso, algumas delas se mostraram dispostas a comprar 10% ou mais das ações em circulação. 

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O movimento é curioso e levanta algumas questões, principalmente em um momento turbulento como o que enfrentamos. Será que uma recompra de ações é sempre uma oportunidade ou pode ser um artifício sofisticado de marketing? E, afinal, o que o investidor ganha com isso?

Para a maior parte dos analistas e gestores com quem conversei nas últimas semanas, o movimento visto na bolsa brasileira parece ser de fato apoiado em uma oportunidade criada com as desvalorizações recentes, mas é preciso atenção.

Assim como muitas empresas não estavam prontas para um IPO, nem todas têm condições de realizar um programa de recompra neste momento. 

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Para esta reportagem especial o Seu Dinheiro entrevistou Gustavo Harada, chefe da mesa de renda variável da Blackbird; Isabel Lemos, gestora de renda variável da Fator Administração de Recursos; Tomás Awad, CIO e sócio-fundador da 3R Investimentos; Edoardo Biancheri, gestor de ações da Garde Asset Management; e Marcelo Inoue, sócio-analista da Perfin. 

Para que serve um programa de recompra?

Uma empresa listada em bolsa tem diversas formas de gerar um maior retorno financeiro para os seus acionistas. Algumas delas estão diretamente ligadas à capacidade de crescimento de margens e receitas, como investimentos voltados para aumento de produção, aquisições estratégicas e pesquisa. Outras nem tanto. 

Um programa de recompra de ações pode entrar na última categoria, isso se a empresa decidir cancelar os papéis ou colocá-los novamente no mercado. 

Se o objetivo for o cancelamento, o acionista vai passar a deter uma fatia maior do capital social da empresa mesmo sem comprar mais ações e, com isso, receber dividendos proporcionalmente maiores.

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Se a companhia decidir guardar os papéis e esperar pelo processo de valorização, os ganhos também devem impactar a receita e o lucro, mais uma vez refletindo em proventos maiores. 

Empresas que oferecem bônus em ações para os principais executivos também se valem de recompras na bolsa. Nesse caso, o percentual adquirido costuma ser baixo quando comparado ao total disponível no mercado e não costuma afetar as cotações. 

Commodities: surfando o bom momento

Não dá para negar que dentre todos os programas anunciados até o momento em 2022, os que mais chamam a atenção dos gestores são aqueles propostos pelas empresas produtoras de commodities – em especial a Vale (VALE3), JBS (JBSS3), CSN (CSNA3) e CSN Mineração (CMIN3)

No caso da JBS e da Vale, o timing dos anúncios levantou alguns questionamentos. Isso porque eles foram feitos em conjunto com a divulgação dos resultados dos primeiros três meses do ano.

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Isabel Lemos, gestora de renda variável da Fator Administração de Recursos, lembra que os últimos trimestres foram de forte geração de caixa para essas companhias – uma das características mais importantes na hora de definir se uma estratégia de recompra é eficiente ou não. 

Com a gordurinha extra no balanço, as empresas precisam fazer suas apostas em como reinvestir esse dinheiro. No caso das siderúrgicas e mineradoras, foi possível manter um balanço forte  mesmo com complicações no ambiente macro, cortesia do preço elevado do minério de ferro e do dólar. Já a empresa de proteínas viu a sua subsidiária nos Estados Unidos engordar o caixa. 

Apesar da saúde financeira vigorosa, a gestora classifica como “atípicos” os programas que abrangem 10% ou até mais do total de papéis em circulação, como os recentemente anunciados. Embora a sensação possa ser a de contrapartida para evitar uma queda das ações após resultados considerados fracos, ela encara como uma surpresa positiva. 

Mas nem todo mundo tem essa visão positiva para programas de recompra agressivos como o da Vale. É o caso de Tomás Awad, da 3R Investimentos. Para ele, o cenário de incerteza após o novo surto de coronavírus na China e os sinais de uma desaceleração global são elementos suficientes para encarar o futuro com menos otimismo. 

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“A Vale é uma gigante e é menos óbvio, mas vemos o futuro com cautela. O indicativo de dívida da companhia já passou de US$ 10 bilhões para US$ 20 bilhões. O custo marginal do minério de ferro é mais baixo do que o que temos hoje e se retornar a patamares mais modestos, como US$ 70 ou US$ 80 por tonelada, a posição do caixa não estará mais tão confortável”. 

Sem pé nem cabeça

A recompra de ações pode ser usada como um instrumento pela administração para defender as cotações na bolsa em momentos de turbulência. 

No setor de saúde, a Hapvida (HAPV3) foi destaque logo após as ações tombarem 17% com a reação negativa ao balanço do primeiro trimestre pelo mercado. Quase na sequência, a empresa anunciou a intenção de recomprar quase 9% do total de papéis em circulação, em uma operação classificada como inteligente por diversos entrevistados.

Apesar de alguns dos programas de recompra terem enchido os olhos do mercado, outros não foram tão bem recebidos e levantam dúvidas – principalmente quando a empresa tem uma maior exposição à economia local. 

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Um dos gestores com quem conversei aponta que muitas empresas se beneficiam de elementos conjunturais para justificar programas que, no futuro, podem se mostrar uma “grande furada”. No caso de negócios mais cíclicos, a orientação neste momento deveria ser preservar o caixa e se manter na defensiva. 

Chama a atenção, por exemplo, movimentos como o da Armac (ARML3). Há menos de um ano na bolsa, a locadora de equipamentos pesados anunciou no começo de maio um programa de recompras de quase 14 milhões de ações – mais de 8% dos papéis em circulação. Isso em um cenário em que a empresa tem uma dívida e o plano do IPO para executar.

Desde a estreia na B3, as ações da Armac acumulam queda de  mais de 50%

Outro alvo de crítica são as incorporadoras – como Moura Dubeux (MDNE3) e São Carlos (SCAR3) –, e empresas de locação e venda de automóveis, como a Movida (MOVI3). Na análise de uma das casas consultadas, as margens confortáveis atuais não devem se manter por muito mais tempo, o que coloca em risco não apenas os programas de recompra, mas também a decisão de pagar dividendos acima do mínimo. 

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“A Selic deve encostar nos 14% ao ano em breve, as construtoras deveriam se preparar para um futuro mais árido. No segundo caso, o preço do automóvel usado vai cair após o choque da pandemia e essas empresas já se encontram alavancadas. Isso sem falar em problemas de gestão”. 

Quem também aparece na lista dos gestores como um exemplo ruim é a administradora da bolsa – B3 (B3SA3). Nesse caso, alguns especialistas não enxergam um retorno atrativo que justifique o movimento e nem mesmo um sentido para a recompra em si. 

Oportunidade ou marketing?

O retorno negativo de 11% acumulado pelo Ibovespa nos últimos 12 meses deixa os analistas e gestores mais confiantes sobre os fundamentos por trás das decisões das empresas retornarem à bolsa como compradoras de seus próprios papéis, em um movimento visto quase como natural. 

Mas essa não é razão suficiente para utilizar um anúncio como decisivo na tomada de decisões, já que nem toda alocação de capital é eficiente. Alguns especialistas consultados não negam que algumas diretorias usam o artifício para tentar segurar o preço das ações – nesse caso, pouco ou nada do total prometido é adquirido. 

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Edoardo Biancheri, gestor da Garde Asset Management, explica que não aumenta ou diminui uma posição devido a um programa de recompra, mas quando uma empresa que faz parte da estratégia de longo prazo anuncia uma operação, a gestão reforça a visão de que o risco-retorno está atrativo. 

Tomás Awad, da 3R Investimentos, é mais cauteloso que a média do mercado quando o assunto é recompra de ações, mas concorda que os níveis atuais de alavancagem das empresas e a depreciação do mercado beneficiam o movimento. Mas nem por isso acredita que este é o momento de você ir às compras junto com as empresas. 

As incertezas no radar são inúmeras – a elevação dos juros nos países desenvolvidos, o desempenho da economia chinesa após o novo surto do coronavírus, a guerra na Ucrânia, o quadro fiscal brasileiro e o ano eleitoral.

Para Awad, o ideal seria que as empresas preservassem caixa e liquidez. Se nada de ruim acontecer e o cenário se mostrar mais favorável, sempre é possível pagar dividendos no futuro. 

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Já para Gustavo Harada, chefe da mesa de renda variável da Blackbird, a tendência deve persistir por mais algum tempo, com as empresas buscando janelas de oportunidade frente ao cenário de incertezas que ainda vivemos. 

Identificar uma oportunidade de um “golpe de marketing'' é ainda mais difícil em momentos turbulentos, mas os especialistas dão algumas dicas do que você deve olhar antes de chegar a um veredito. 

  • Estude os últimos resultados divulgados pela companhia. Avalie se a empresa está com uma situação confortável de geração de caixa e se o volume de endividamento é saudável.
  • É um investimento inteligente? A empresa não deve deixar de realizar outros investimentos relevantes para o seu crescimento – como compra de maquinário, novas plantas, recursos humanos ou aquisições estratégicas.
  • Analise se o bom momento atual é sustentável ou apenas conjuntural. 
  • Existem ações suficientes em circulação? Uma empresa com baixa liquidez que retira muitos papéis do mercado pode prejudicar a negociação dos ativos, ficando sujeita a grandes oscilações e menor procura dos investidores. 
  • Como a empresa se comportou no passado? Os programas anteriores foram cumpridos ou acabaram cancelados? Em caso negativo, a gestão explicou a mudança de estratégia aos investidores?
  • O programa abrange uma quantidade expressiva de ações? Em caso negativo, a recompra pode ser apenas para cumprir obrigações de bonificação a acionistas ou outra operação irrelevante para o mercado. 

Confira a seguir a lista completa de programas de recompra de ações em aberto na B3 em 2022:

EmpresaInícioTérminoQuantidade de Ações% da recompra
Banco Inter (ON)03/01/202202/07/20224.000.0000,67%
Banco Inter (PN)03/01/202202/07/20228.000.0000,69%
BK Brasil (ON)06/01/202206/01/202316.000.0005,87%
Raízen (PN)07/01/202207/07/202340.000.0003,21%
Grupo Soma (ON)07/01/202207/07/202344.000.0005,61%
BTG Pactual (Units)10/01/202210/07/202353.447.3544,36%
Sequioa (ON)11/01/202211/07/20236.074.7055,00%
Ser Educacional (ON)13/01/202213/01/20234.939.8409,09%
Priner (ON)18/01/202218/01/20231.000.0002,68%
Neogrid (ON)18/01/202218/07/20238.500.0007,92%
Lojas Renner (ON)20/01/202215/07/202318.000.0001,83%
Viveo (ON)21/01/202221/07/20235.784.0245,00%
Sinqia (ON)21/01/202221/07/20237.496.63110,00%
Americanas (ON)28/01/202221/07/202317.500.0002,82%
Brisanet (ON)03/02/202203/02/20239.500.0009,90%
Porto Seguro (ON)04/02/202203/02/202317.973.30610,00%
Gcogna (ON)11/02/202210/02/2023102.880.6585,48%
Vivara (ON)14/02/202214/02/20234.972.3425,00%
Vivo (ON)22/02/202222/02/202342.383.4209,80%
Boa Vista (ON)24/02/202224/08/20231.772.9400,33%
Hypera (ON)24/02/202224/08/202310.000.0002,50%
Santos Brasil (ON)09/03/202208/09/202385.000.0009,90%
Ambipar (ON)15/03/202215/09/20232.017.1724,60%
Mills (ON)25/03/202223/09/202314.917.03513,74%
JBS (ON)22/03/202222/09/2023116.167.19710,00%
YDUQS (ON)21/03/202221/09/202320.500.0006,81%
WEG (ON)23/03/202222/03/20233000,02%
Moura Dubeux (ON)28/03/202228/03/20232.703.8605,00%
Camil (ON)01/04/202230/09/202310.000.0009,05%
Multilaser (ON)07/04/202209/10/202317.231.32310,00%
Kora Saúde (ON)11/04/202211/10/202315.603.20410,00%
Odontoprev (ON)29/04/202230/10/202318.000.0006,55%
Vulcabras (ON)03/05/202202/11/20235.000.0006,78%
Armac (ON)06/05/202206/11/202313.830.3808,13%
Eletromidia (ON)09/05/202208/11/20234.870.4199,09%
Cosan (ON)09/05/202209/11/2023110.000.0009,39%
São Carlos (ON)10/05/202209/05/20231.000.0004,38%
Totvs (ON)10/05/202210/11/20224.000.0000,77%
JBS (ON)11/05/202211/11/2023113.498.64710,00%
Unifique (ON)12/05/202212/05/20233.000.0003,18%
Vale (ON)16/05/202216/11/2023500.000.0009,74%
Hapvida (ON)18/05/202218/11/2023400.000.0008,98%

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