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2022-09-02T15:43:46-03:00
Jasmine Olga
Jasmine Olga
É repórter do Seu Dinheiro. Formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
HERANÇAS DA PANDEMIA

Do Zoom à Netflix: Ainda vale a pena investir nas ações queridinhas da pandemia após o tombo recente?

Consideradas disruptivas e inovadoras no auge da pandemia, muitas empresas viram os seus ganhos bilionários virarem pó em pouquíssimo tempo. Apesar disso, especialistas apontam que ainda há espaço para algumas dessas ações na carteira — desde que você olhe para o médio e longo prazo

2 de setembro de 2022
7:02 - atualizado às 15:43
Videoconferência Zoom
Imagem: Shutterstock

A rápida disseminação do coronavírus no primeiro trimestre de 2020 exigiu que a população mundial se adaptasse à nova realidade na velocidade da luz, adiantando tendências que o mercado não esperava ver concretizadas por, pelo menos, mais uma década. 

Foi quase como dormir no presente e acordar em um futuro imaginado pelos roteiristas do clássico desenho animado Os Jetsons

As chamadas de vídeo tornaram-se essenciais para o trabalho, a escola e até mesmo os consultórios médicos. A academia de ginástica passou a ser na sala de estar, e assinar um contrato importante deixou de ser uma tarefa burocrática. 

Diante da facilidade e imposição do e-commerce como única alternativa viável num mundo em lockdown, a “morte” dos grandes shoppings centers foi dada como certa. Os carros voadores ainda não são uma realidade, mas a sociedade agora sonha com o fim da era dos combustíveis fósseis. 

Enquanto o planeta passava por um dos maiores episódios de destruição de riqueza da sua história, a bolsa de valores tornou-se uma via de mão dupla: de um lado, bilhões eram perdidos diariamente; do outro, os “ativos da pandemia” se transformaram em uma nova fábrica de milionários. 

Empresas com receitas tímidas e estrutura de startup viram o seu valor de mercado triplicar e alcançar a marca de algumas dezenas de bilhões de dólares em poucas semanas. As gigantes de tecnologia ficaram ainda maiores, e companhias de biotecnologia passaram a fazer parte do hall de queridinhas dos investidores. 

Muitos bradavam aos quatro ventos que a revolução forçada pelo coronavírus era um caminho sem volta: ali estava o nascimento de uma nova leva de apostas para o longo prazo. A realidade, no entanto, mostrou-se muito mais difícil — e nem foi preciso esperar tanto tempo assim. 

Em pouco menos de dois anos, a mesa virou. Os hábitos pandêmicos não se consolidaram após a reabertura, e empresas como Zoom (Z1OM34), DocuSign (D1OC34), Peloton, Teladoc Health (T2DH34) e Shopify (S2HO34) — elevadas a queridinhas do mercado — viram o ciclo de bonança se encerrar.

Seus papéis, assim, despencaram na mesma velocidade com que atingiram as máximas. 

As big techs, mais tradicionais e consolidadas no mercado, também sofreram. Mesmo com a recuperação recente, os papéis da Amazon acumulam perdas de mais de 30% só em 2022 — um movimento muito similar ao que empresas locais, como Magazine Luiza (MGLU3) e Via (VIIA3), estão passando. 

Nas últimas semanas, conversei com diversos especialistas em mercado internacional para entender quem foram os culpados pelo erro de cálculo — e se ainda há oportunidades dentro das tendências nascidas em 2020. 

Ficou claro que o entusiasmo do mercado com as novas tendências para o futuro foi excessivo, mas muitos gestores e analistas acreditam que algumas ex-queridinhas do mercado ainda têm potencial de dobrar de valor — mas em um ritmo muito mais lento do que o inicialmente esperado. 

Para essa reportagem, o Seu Dinheiro consultou Guilherme Zanin, analista da Avenue Securities; Alexandre SantAnna, gestor de ações da ARX Investimentos; Lucas Ribeiro, analista da Kínitro Capital, Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da Inter Asset; Felipe Mattar, gestor da Atmosphere Capital; e Bruno Leite, gestor na Parcitas Investimentos. 

Antídoto contra armadilhas

Comentar um período da história após a superação desse momento pode ser uma tarefa traiçoeira: afinal, é muito mais fácil fazer uma análise quando não se está mais no centro do furacão. 

O exercício, no entanto, pode te ajudar na tomada de decisões. Para os especialistas consultados, evitar a destruição de patrimônio no curtíssimo prazo envolve estar disposto a abrir mão de retornos de três dígitos — e ter muita paciência. 

Isso porque é difícil prever ao certo quanto tempo o cenário favorável prevalecerá; a realização de lucros pode sacrificar não só os seus ganhos, mas também o seu patrimônio investido. 

Bruno Leite, gestor da Parcitas, afirma que não basta apenas que o papel seja barato para ser elegível para uma carteira. É preciso também que se consiga projetar todas as possibilidades que podem surgir, para o bem ou para o mal — um processo chamado de “de-risking”.

“Quando a gente olhava Zoom e Shopify era muito fácil enxergar o cenário em que a ação vai muito bem, mas o contrário também valia”, diz Leite. “Estava precificada uma coisa incrível, e não é fácil justificar um crescimento de 50 vezes a receita”. 

O gestor da Parcitas e o Lucas Ribeiro, da Kínitro Capital, apontam que essa tendência a extrapolar qualquer cenário, seja ele bom ou ruim, é uma ineficiência de mercado que ocorre com muita frequência — e que, na maior parte do tempo, cria movimentos difíceis de prever.

Segundo eles, há sempre um viés de se perpetuar o passado mais recente: basta um indicador ruim ou um trimestre abaixo do esperado para que os modelos indiquem quase uma "permanência infinita" de resultados semelhantes. 

O analista da Kínitro cita outro exemplo da clara ineficiência do mercado em precificar ativos durante a pandemia. A rede de varejo pet Chewy viu a sua base de clientes multiplicar diversas vezes; mesmo assim, suas ações ainda são negociadas abaixo do patamar pré-covid.

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Futuro incerto

Para Rafael Maciel, da Inter Invest, não há como negar: a pandemia nos forçou a mergulhar no futuro. O movimento, no entanto, não foi uma novidade para todo mundo. 

É uma opinião semelhante à de Alexandre SantAnna, gestor da ARX Investimentos. Para ele, o que se viu foi uma aceleração de processos que já vinham acontecendo — como a busca por alternativas de transição energética, o crescimento do e-commerce e a revolução financeira promovida pelas fintechs. 

“Elas [as empresas] continuam crescendo, apresentando melhorias operacionais, seguem na vida das pessoas, mas aqueles valuations de 2020 não são mais aceitáveis no novo cenário econômico, porque elas não são tão confiáveis quanto empresas mais tradicionais que já estão há décadas apresentando lucro líquido e bons resultados.”, diz Guilherme Zanin, analista da Avenue Securities.

Segundo o especialista, o maior erro do mercado foi não projetar a inflação que resultaria das restrições impostas pela pandemia e a resposta dos governos e bancos centrais ao problema — a conta pode ter até demorado para chegar, mas era inevitável. 

Zanin acredita que a correção vista nos papéis nos últimos trimestres pode até ser considerada exuberante, mas por mais que as companhias sigam crescendo, as ações podem não ter chegado ao fundo do poço — ainda que exista uma melhora na acessibilidade e no potencial ganho que o investidor pode ter no futuro. 

Pá de cal?

A alta exorbitante das ações da pandemia em Wall Street pode até ter feito os olhos dos investidores brasileiros brilharem, mas foi apenas em junho de 2021 que a B3 liberou a negociação de recibos de ações (BDRs) a todos os tipos de agentes financeiros.

Com isso, foi permitida uma forma mais simples e intuitiva para que o investidor pessoa física pudesse alocar seus recursos no mercado internacional — incluindo as até então queridinhas Pfizer (PFIZ34), Moderna (M1RN34), Netflix (NFLX34), Zoom (Z1OM34), DocuSign (D1OC34), Teladoc Health (T2DH34) e outras. 

Mas a janela de oportunidade para aproveitar a festa foi pequena. Pouco menos de dois meses depois, os papéis entraram na fase mais aguda de queda, o que para muitos indicou o fim definitivo das teses do coronavírus. 

Essa deterioração ainda maior de um cenário que já se encontrava bem longe das máximas não veio de nenhuma piora significativa nos balanços trimestrais ou algum elemento assustador do noticiário corporativo, mas sim da boca de Jerome Powell, o presidente do Federal Reserve — o banco central dos EUA. 

No tradicional simpósio de Jackson Hole, realizado em 27 de agosto de 2021, o executivo deixou claro que a era de injeção quase ilimitada de dólares na economia e juros baixos estava chegando ao fim.

Em breve, seria necessário iniciar o ciclo de aperto monetário para conter o avanço da inflação — algo que o mercado só esperava que acontecesse em 2023 ou 2024. 

Em outras palavras: o dinheiro ficaria mais caro, e o risco de se investir em empresas de crescimento — que ainda precisam tomar dívida para financiar o seu futuro e não apresentavam lucro líquido — ficou muito maior. 

Se em um mundo de juros próximos do zero essas empresas eram uma alternativa para ganhos mais robustos, a mudança de chave do cenário macroeconômico as transformou em possíveis bombas-relógios. 

Efeitos colaterais

Embora a discussão sobre as teses da pandemia muitas vezes se concentre nas big techs e empresas voltadas ao pacote “fica em casa”, esses não foram os únicos setores a serem fortemente afetados pelo coronavírus. 

Outra tendência que foi acelerada e freada foi a de transição energética, com a busca por alternativas aos combustíveis fósseis.

Assim como outras tendências que foram apressadas com projeções que exacerbaram a realidade, a crença do mercado na transição energética rápida superou a capacidade de as empresas amadurecerem as tecnologias e conseguirem os insumos necessários. 

O gestor da Atmosphere Capital, Felipe Mattar, aponta que faltam componentes materiais para que os governos cumpram os seus objetivos até 2030, 2040 ou 2050; os governos de vários países começam a se dar conta disso, e já falam em “segurança energética”. 

SantAnna, da ARX, compartilha do posicionamento: em sua visão, o mundo ainda vai seguir precisando de petróleo e de combustíveis fósseis por um bom tempo, mesmo que as metas de descarbonização sejam cumpridas nos países desenvolvidos. 

Durante o auge da pandemia, no entanto, a perspectiva era outra, e empresas como Fuel Cell, Renew Energy Global, Plug Power e Ceres viram os seus valores de mercado superarem em muito a entrega de resultados. 

As oportunidades que ainda existem na bolsa

Quedas anualizadas na ordem de 70% ou 80% assustam os investidores, mas os analistas acreditam que ainda pode ser cedo para enterrar de vez uma tendência pandêmica como um fracasso. 

Isso porque o período de análise ainda é muito curto; é difícil afirmar categoricamente que alguma das teses que nasceram em 2020 não têm verdade ou fundamento.

Para Lucas Ribeiro, da Kínitro, os próximos 12 meses devem ser um período interessante para analisar quem realmente sobreviveu ao tempo. A desconfiança persiste, mas algumas teses parecem já ter se provado aos olhos dos gestores e voltam a aparecer como oportunidade após a queda recente. 

Isso porque o ritmo de crescimento pode até ser mais lento do que o projetado em 2020, mas os produtos e serviços têm tudo para continuar sendo utilizados nos próximos anos. 

Os especialistas, no entanto, não aconselham a busca de ganhos estratosféricos em poucos meses. A preferência tende a ser por investimentos de médio e longo prazo, que até podem não triplicar sua receita todos os anos, mas tendem a crescer de forma sustentável por um período mais longo de tempo.

Do Zoom à Netflix: Confira alguns dos ativos favoritos:

  • Peloton (NY: PTON)

A Peloton é uma companhia que oferece equipamentos de ginástica, como esteiras e bicicletas ergométricas, por meio de um sistema de assinatura. Durante o auge do isolamento social imposto pelo coronavírus, a empresa conseguiu multiplicar o seu número de clientes por mais de 20 vezes. 

Para alguns analistas, os papéis estão baratos quando se compara ao crescimento obtido durante a pandemia e o preço das ações pré-2020, mas o ativo está longe de ser uma unanimidade. Em 2022, a Peloton acumula perdas de mais de 70%. 

  • Zoom (Z1OM34)

Talvez uma das empresas mais lembradas quando se fala em teses de investimento da pandemia, o Zoom viu o seu valor de mercado saltar quase 500% nas máximas, chegando a US$ 96 bilhões ao fim de 2020. 

Apesar de as projeções terem sido ajustadas para a nova realidade, diversos analistas apontaram que a plataforma de teleconferências apresenta potencial de ganhos, já que a demanda segue alta mesmo com a volta ao trabalho presencial; além disso, a empresa é uma geradora de caixa. 

  • Darling Ingredients (NY: DAR)

No setor de energia renovável, a Darling Ingredients foi uma das indicações da Atmosphere. A empresa tem base na Califórnia e opera coletando óleo de cozinha e de processos frigoríficos para transformar em diesel renovável — ação que conta com subsídio do governo local. 

Com o seu modelo de negócios, a companhia vende o seu produto por quase quatro vezes o valor do diesel convencional, o que gera um retorno interessante para o acionista. “Ela está em expansão de capacidade, mas é uma operação que já se provou”. 

  • DocuSign (D1OC34)

A DocuSign cresceu com a proposta de ser uma empresa de assinatura online de contratos, arquivos e documentos, eliminando as amarras burocráticas e a necessidade de deslocamento para a realização do ato. 

A Avenue indica que, mesmo sem apresentar lucro líquido, a companhia não possui necessidade de se endividar para financiar suas atividades e deve seguir aumentando a sua base de usuários nos próximos anos, gerando valor para os investidores no longo prazo.

  • Green Plains (NY: GPRE)

A empresa britânica se tornou uma agrotech nos últimos anos, investindo para aumentar a capacidade de transformação do milho em etanol, com desperdícios menores e aproveitamento muito superior aos seus concorrentes. 

Big techs

Descritas pelo gestor de renda variável da Inter Invest como “os melhores ativos do mundo em termos de rentabilidade sobre capital investido, dominância do setor e preço após as quedas recentes”, as big techs também seguem firmes e fortes na carteira de muitas casas. 

  • Amazon (AMZO34)

A queda brusca no preço dos papéis parece estar longe de ser suficiente para espantar a confiança que muitos analistas possuem na empresa de Jeff Bezos. Para a Parcitas, hoje os papéis repercutem a desaceleração do e-commerce, mas há muito mais que isso para ser precificado pelos investidores. 

Apesar de a consolidação do varejo digital ter falhado no pós-pandemia e o lucro esperado ter sido adiado para o ano seguinte, Bruno Leite lembra que a Amazon não passou por destruição de capital e é hoje uma fábrica de startups, com operações de sucesso e rentáveis voltadas para os segmentos de computação em nuvem, logística, publicidade e, claro, o varejo. 

Para Leite, não seria surpreendente se a área de computação em nuvem triplicasse nos próximos anos, superando o valor negociado em bolsa hoje. “No curto prazo, a foto é bem ruim, mas isso porque o mercado está extrapolando mais uma vez a tendência atual. Assim como na pandemia o Peloton parecia ser bom para sempre, agora precifica-se que o varejo da Amazon vai ser ruim para sempre.”

  • Netflix (NFLX34)

Conhecida por sua capacidade de adaptação desde os tempos em que competia com a então gigante Blockbuster por meio de envio de DVDs pelo correio, as ações da pioneira do mundo dos streamings andam passando por maus bocados com o aumento da competição e a dificuldade de manutenção da sua base de assinantes no mundo pós-pandemia. 

Embora não espere uma resposta concreta sobre o futuro dos streamings nos próximos meses, a Parcitas está otimista com a volta por cima da companhia. Isso porque não só o histórico recente de resiliência depõe a seu favor, como também o ambiente competitivo atual parece não ser sustentável e apresenta sinais de ser irracional.

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