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A um mês do primeiro turno das Eleições 2022, veja como o Ibovespa se comportou no mesmo período antes de todas as escolhas presidenciais desde 1998
Estamos a um mês do primeiro turno das Eleições 2022, marcado para 3 de outubro, mas como você talvez já tenha percebido, a corrida presidencial não anda fazendo muito preço na bolsa brasileira neste ano. O Ibovespa, principal índice da B3, acumula alta de 8% em agosto e 5% no ano, depois de muitos altos e baixos não relacionados ao pleito.
Por mais que a bolsa brasileira costume ser bastante afetada pela política local, o que mais tem impactado o mercado de ações doméstico em 2022 são os ventos vindos do exterior, principalmente a política de juros americana e a possibilidade de haver uma recessão nos Estados Unidos.
Em relação às eleições presidenciais, o mercado tem adotado uma postura meio “tanto faz” em relação aos principais candidatos, alegando que os estilos de ambos os favoritos - Lula e Bolsonaro - já são bem conhecidos.
Os mais atentos podem notar uma leve preferência do mercado pelo atual presidente — principalmente entre os investidores institucionais locais, como os gestores de fundos de investimento. Mas ninguém espera uma tragédia na bolsa se o favoritismo de Lula se confirmar em outubro.
E não é a primeira vez que essa relativa calmaria acontece. Se olharmos para o desempenho do Ibovespa em outros anos eleitorais, veremos que não é possível identificar um padrão para o desempenho das ações.
Alguns pleitos, nos últimos anos, foram sim decisivos para o desempenho do índice, como é o caso da primeira eleição de Lula em 2002, da segunda eleição de Dilma em 2014 e da eleição de Bolsonaro, em 2018.
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Os três momentos têm em comum a grande polarização entre os dois principais candidatos e o fato de que o novo governo poderia trazer uma mudança radical — para melhor ou para pior, na visão do mercado — na condução da política econômica.
Em outros anos eleitorais, como 2006 e 2010, o mercado encarava os favoritos à presidência com muito mais tranquilidade, a economia estava crescendo, e os fatores que moveram o Ibovespa acabaram sendo outros, mais ligados à macroeconomia global e aos resultados das empresas.
Um relatório publicado para a XP Investimentos no final do ano passado, inclusive, corrobora essa visão, de que não é possível traçar um padrão para o comportamento das principais ações da B3 em anos eleitorais.
O que o levantamento da corretora concluiu, isso sim, foi que de fato a volatilidade da bolsa brasileira, na média, tende a aumentar antes do segundo turno e diminuir logo após a definição das urnas.
A seguir, eu tracei um pequeno histórico sobre como o Ibovespa se comportou a um mês das eleições presidenciais desde 1998 (pós-implantação do Real) e, em seguida, trago algumas pistas do que esperar da bolsa até a definição do próximo presidente do país.
| Turno | Data | Desempenho do Ibovespa um mês antes | Período de apuração |
| 1º turno | 7 de outubro | +10,19% | De 5 de setembro a 5 de outubro |
| 2º turno | 28 de outubro | +9,02% | De 26 de setembro a 26 de outubro |
Vencedor: Jair Bolsonaro (PSL)
Principal adversário: Fernando Haddad (PT)
Desempenho do Ibovespa no ano: +15,03%
No ano das eleições que deram vitória ao atual presidente Jair Bolsonaro, o Ibovespa subiu tanto antes do primeiro quanto do segundo turno.
O mercado então apostava num possível viés liberal do capitão, que escolhera o economista Paulo Guedes como seu parceiro na economia. A expectativa era de que a nova abordagem trouxesse recuperação à combalida atividade econômica do país, recém saído de uma crise.
Quando Bolsonaro começou a mostrar chances de vitória contra o segundo colocado, o petista Fernando Haddad, os investidores se animaram, embalados pela possibilidade de ver finalmente reformas estruturais e privatizações saírem do papel, pondo um fim à era de maior intervenção na economia dos governos do PT.
| Turno | Data | Desempenho do Ibovespa um mês antes | Período de apuração |
| 1º turno | 5 de outubro | -11,88% | De 3 de setembro a 3 de outubro |
| 2º turno | 26 de outubro | -8,14% | De 24 de setembro a 24 de outubro |
Vencedora: Dilma Rousseff (PT)
Principal adversário: Aécio Neves (PSDB)
Desempenho do Ibovespa no ano: -2,91%
No ano da segunda eleição de Dilma Rousseff, a de maior polarização entre PT e PSDB, a volatilidade do Ibovespa foi bastante intensa, variando da euforia pela possibilidade de troca de governo à depressão com a perspectiva da continuidade do PT no poder.
Da mínima em março à máxima em setembro, o principal índice da bolsa chegou a subir 37,5%, voltando a cair às vésperas do primeiro turno, até terminar o ano com recuo de cerca de 3%.
A má vontade do mercado com a então presidente Dilma se dava por conta da crise econômica que se desenhava, da escalada da inflação e dos juros em alta após anos de forte intervenção econômica.
O uso de bancos públicos para baixar juros “na marra”, a interferência no setor de energia e o escândalo de corrupção do petrolão, que fizeram o endividamento da Petrobras disparar, derrubaram as ações dessas empresas e reduziram a confiança dos investidores no país. Apenas em 2014, os papéis da Petrobras despencaram 40%.
O aumento dos gastos do governo, na época, e o crescimento da dívida pública também elevaram o risco fiscal e pesaram sobre os juros futuros, fator negativo para a bolsa.
Vale lembrar que 2014 foi o primeiro ano de déficit fiscal no Brasil após uma década de superávits, algo que se tornaria crucial para o desempenho dos mercados domésticos nos anos seguintes.
| Turno | Data | Desempenho do Ibovespa um mês antes | Período de apuração |
| 1º turno | 3 de outubro | +7,80% | De 1º de setembro a 1º de outubro |
| 2º turno | 31 de outubro | +2,09% | De 29 de setembro a 29 de outubro |
Vencedora: Dilma Rousseff (PT)
Principal adversário: José Serra (PSDB)
Desempenho do Ibovespa no ano: +1,04%
O ano de 2010 também foi de intensa volatilidade para a bolsa brasileira, mas não tanto pelas eleições. Após um rali em 2009, quando disparou mais de 80% em razão da recuperação da crise de 2008, o Ibovespa subiu apenas 1,04% no ano seguinte, após fortes altos e baixos.
Na época, a crise da Grécia e a capitalização da Petrobras, que derrubou os preços das ações da estatal, seguraram o desempenho do principal índice da B3. Mas em relação às eleições, os investidores se mantiveram tranquilos.
José Serra, do PSDB, era o candidato preferido do mercado. Mas os investidores entendiam que, mesmo que Dilma ganhasse, o tripé macroeconômico, mantido nos governos Lula, continuaria de pé. Além disso, a economia brasileira crescia, e os patamares de juros e inflação ainda eram considerados razoáveis.
Já havia alguma preocupação com os gastos públicos, mas também se entendia que, devido à crise de 2008 e à derrubada dos juros nos países desenvolvidos, o governo brasileiro precisava mesmo colocar a mão no bolso para garantir que a economia do país atravessasse bem aquela fase difícil.
Na ocasião, as medidas adotadas com o colchão assegurado pelos últimos anos de austeridade fiscal garantiram ao país transformar a crise em uma “marolinha”, como afirmou o então presidente Lula.
| Turno | Data | Desempenho do Ibovespa um mês antes | Período de apuração |
| 1º turno | 1º de outubro | +0,21% | De 29 de agosto a 29 de setembro |
| 2º turno | 29 de outubro | +9,80% | De 27 de setembro a 27 de outubro |
Vencedor: Lula (PT)
Principal adversário: Geraldo Alckmin (PSDB)
Desempenho do Ibovespa no ano: +32,93%
No ano de 2006, a bolsa brasileira vivia uma ótima fase, impulsionada pelo desenvolvimento chinês e a alta nos preços das commodities. Por aqui, a taxa de juros recuava, enquanto nos Estados Unidos, havia parado de subir.
O clima no exterior, aliás, era de otimismo em relação à economia - o que acabou se tornando euforia, como veríamos na crise de 2007-2008. Mas em 2006, a bolsa brasileira ainda atraiu capital estrangeiro, o que contribuiu para impulsionar o Ibovespa.
Assim, as eleições também foram encaradas com tranquilidade pelos mercados, que viam de forma positiva ambos os principais candidatos.
Lula havia cumprido o prometido e mantido o tripé macroeconômico, tendo feito um governo favorável aos mercados e entregue crescimento econômico - e os investidores esperavam que, se ele fosse eleito, haveria uma continuidade desse processo. Já Alckmin era visto como alguém liberal na economia, abordagem bem vista pelos investidores.
| Turno | Data | Desempenho do Ibovespa um mês antes | Período de apuração |
| 1º turno | 6 de outubro | -8,64% | De 4 de setembro a 4 de outubro |
| 2º turno | 27 de outubro | +9,47% | De 25 de setembro a 25 de outubro |
Vencedor: Lula (PT)
Principal adversário: José Serra (PSDB)
Desempenho do Ibovespa no ano: -17,01%
As eleições de 2002 foram tensas para os mercados domésticos, que passaram por uma brutal volatilidade à medida que o favoritismo de Lula na corrida eleitoral ia se concretizando.
Os investidores temiam uma eventual troca de governo do PSDB pelo PT, pois viam risco de ruptura das políticas dos anos anteriores que foram fundamentais para estabilizar o país economicamente. E o histórico de Lula como candidato justamente apontava nessa direção, de uma mudança radical.
Nem a Carta ao Povo Brasileiro, divulgada pelo PT em junho daquele ano, foi capaz de tranquilizar o mercado. No documento, Lula assumia compromissos como preservar o equilíbrio fiscal, gerar superávits primários, respeitar contratos e instituições.
O “risco Lula” levou a uma forte desvalorização do real ante o dólar - a cotação saltou de R$ 2,31 no fim do ano anterior para R$ 4 em outubro, o que pressionou a inflação e também os juros.
Com isso o mês anterior ao primeiro turno foi marcado por uma queda do Ibovespa, com uma recuperação em seguida, à medida em que Lula, cada vez mais perto da vitória, afagava o mercado, aplacando os seus temores. Ainda assim, o Ibovespa terminou o ano com uma perda acumulada de 17%.
Data da eleição (apenas um turno): 4 de outubro
Desempenho do Ibovespa um mês antes (de 2 de setembro a 2 de outubro): -7,34%
Vencedor: Fernando Henrique Cardoso (PSDB)
Principal adversário: Lula (PT)
Desempenho do Ibovespa no ano: -33,46%
O ano de 1998 foi outro em que não foram tanto as eleições que fizeram preço na bolsa, mas sim o cenário internacional - e desta vez para o mal, e não para o bem, como ocorreu nos anos 2000.
Fernando Henrique Cardoso foi reeleito em primeiro turno, dado o sucesso da estabilização da economia nos anos anteriores, o que foi bem recebido pelo mercado, que tinha nele seu candidato preferido.
Mas isso não foi suficiente para que o Ibovespa tivesse um bom desempenho antes da eleição ou no ano como um todo.
Naquele ano, a moratória da Rússia desencadeou uma série de crises financeiras em países emergentes, que acabou atingindo também o Brasil, marcando os mercados locais no ano seguinte.
E neste período de um mês antes do primeiro turno das eleições presidenciais 2022 - ou dois meses até o segundo turno, se houver -, como a bolsa brasileira deve se comportar?
Para Larissa Quaresma, analista da Empiricus, o investidor pode esperar bastante volatilidade. Mas ela destaca que “o lado bom é que a gente está lidando com dois candidatos que já foram presidentes.”
“Ninguém espera uma ruptura. Não estamos lidando 100% com o desconhecido”, diz.
Quaresma acredita que, passada essa incerteza do período eleitoral, “sai o bode da sala”. “Quem está esperando uma definição política para comprar vai comprar. E aqui eu me refiro mais ao investidor local. Os fundos multimercados, por exemplo, estão com alocação de apenas 5% do patrimônio em bolsa, abaixo da média histórica de 13%”, diz.
A analista afirma ainda que a bolsa brasileira continua barata e que foi uma das poucas bolsas emergentes que não dispararam neste ano. E o fato de o ciclo de alta de juros estar chegando ao fim por aqui, com a política monetária já surtindo efeito, enquanto nos EUA esse processo está apenas começando, é uma vantagem para o mercado local.
Ela admite que a alta dos juros nos países desenvolvidos e a desaceleração da economia chinesa são fatores que de fato podem deixar o investidor estrangeiro mais avesso ao risco no geral, inclusive para investir em emergentes.
Por outro lado, ela acredita que os investidores que mantiverem investimento em emergentes, dada a situação da China e a disposição a serem mais conservadores, podem justamente migrar seus recursos para cá, dado o patamar baixo de preço da bolsa brasileira.
“O que temos recomendado aos nossos clientes é ficar comprado em bolsa brasileira e vendido, mas com peso menor, em bolsa americana. Exatamente por acreditar que o custo de capital [os juros] nos Estados Unidos ainda não foi ao máximo”, diz.
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