Vale suspende eleição de Conselho por divergências entre acionistas; votação será retomada no dia 3
Processo eleitoral na Vale em 2021 é emblemático por se tratar da escolha do primeiro conselho após o fim do acordo de acionistas vigente desde a sua privatização, em 1997

Diante de uma assembleia marcada por longas interrupções e muitos questionamentos de acionistas, a Vale decidiu suspender a eleição do Conselho de Administração na reunião desta sexta-feira, 30. A escolha do novo board foi adiada para a segunda-feira, dia 3 de maio.
A principal divergência envolveu a contagem de votos destinados ao ex-presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, apoiado por gestoras e fundos de investimento. "Para assegurar a solidez da votação e do regime de voto múltiplo, a companhia vai suspender a assembleia a esse item e outros relacionados para maiores apurações", disse o presidente da mesa, Luiz Antonio Sampaio.
A assembleia geral ordinária (AGO) levou seis horas. Só a discussão sobre a escolha do novo conselho tomou em torno de quatro horas e meia, com três interrupções, sendo a última delas por cerca de duas horas e meia.
Primeiro, a assembleia parou para que acionistas que não haviam votado pelo Boletim de Voto a Distância (BVD) preenchessem a planilha enviada pela companhia por e-mail para computar seus votos ao conselho de administração. Depois, para corrigir um erro apontado por participantes da reunião e que acabou levando à suspensão da eleição.
Após reclamações de acionistas e dos candidatos Marcelo Gasparino e Mauro Cunha, indicados por minoritários, a Vale apresentou o mapa sintético com os votos dados via BVD e dos detentores de ADRs, certificados de ações da companhia emitidos no mercado americano. Inicialmente, ele trazia apenas os votos enviados pelo boletim.
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O cômputo é essencial para que os minoritários definam sua estratégia de voto para eleger ao menos parte de seus quatro indicados. O resultado indicava Castello Branco na penúltima colocação entre os 16 candidatos ao colegiado, atrás apenas do japonês Ken Yasuhara.
O representante do grupo Capital, Rodrigo de Mesquita Pereira, afirmou que os votos de ADRs do grupo Capital no candidato não foram devidamente computados. A Capital é acionista relevante da Vale, com um total de 11,3% do capital social.
Pelo mapa divulgado somando votos via ADRs e BVD, em princípio seriam eleitos três dos quatro nomes alternativos indicados por minoritários. A exceção seria Castello Branco. Assim, entrariam entre os eleitos Gasparino, Cunha e a conselheira do Grupo Soma, Rachel Maia. Entre os 12 nomes indicados da Vale, ficariam de fora Fernando Buso (Bradespar), José Maurício Coelho (Previ) e Yasuhara (ex-Mitsui).
Diante das divergências, entretanto, o resultado segue totalmente em aberto. É preciso também computar os votos dados durante a AGO. De acordo com o presidente da mesa, os votos conferidos a Castello Branco foram informados pelo Citi, instituição depositária dos ADRs.
Sampaio disse que a Vale só poderia trabalhar com a informação oficialmente recebida e que a mesma só poderia ser retificada pelo próprio banco. A reunião voltou a ser congelada por quase duas horas para que os acionistas enviassem suas planilhas de voto, mas na volta foi anunciado o adiamento.
Minoritários vs. acionistas de referência
O processo eleitoral na Vale em 2021 é emblemático por se tratar da escolha do primeiro conselho após o fim do acordo de acionistas vigente desde a sua privatização, em 1997. A disputa vem sendo marcada por uma forte oposição entre minoritários e acionistas de referência como Previ, Bradespar e Mitsui, que até novembro faziam parte do bloco de controle da companhia.
Donos de 21% do capital da Vale, eles apoiaram (e tiveram executivos entre) os indicados pela empresa. A mineradora, entretanto, tem outros acionistas de referência de peso, como BlackRock (5,29%) e o grupo Capital, com um total de 11,3%. Os fundos da Capital fazem parte dos que solicitaram o voto múltiplo e apoiaram outras candidaturas.
Outras matérias foram aprovadas
Apesar da turbulência, a AGO da Vale aprovou outras matérias. Foram aprovadas as contas da companhia, a destinação do resultado do exercício social encerrado em 31 de dezembro de 2020, o número de membros do conselho de administração, conforme proposta da administração, em 13 membros titulares e 1 suplente.
Também foi homologada a reeleição de Lucio Azevedo como representante dos empregados da companhia. A eleição para o 13º assento no colegiado se dá em separado.
Além disso, os acionistas aprovaram o pacote de remuneração dos administradores. A empresa passa a incluir 55% de indicadores não financeiros entre as metas coletivas. Os incentivos de longo prazo passam a ser compostos também por metas ESG (20%), não só de retorno ao acionista.
Houve um aumento de 44,3% no valor reservado para o pagamento dos principais executivos em 2021. A diretoria receberá um total de R$ 238,7 milhões, incluídos encargos sociais. Para o conselho fiscal da Vale, foram eleitos Cristina Fontes Doherty, Marcelo Moraes, Marcus Severini e Raphael Manhães Martins, além de três suplentes.
As matérias votadas na Assembleia Geral Extraordinária (AGE), realizada em seguida, foram todas aprovadas. A votação incluiu as incorporações, sem aumento de capital e sem emissão de novas ações, da CPFL e da Valesul pela Vale, além da incorporação do Acervo Cindido MBR pela Vale e do plano de remuneração baseado em ações.
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