Inflação assume dianteira e Fed acelera retirada de estímulos; veja como decisão afeta juros e investimentos
Além de enxugar liquidez do mercado, banco central norte-americano fica mais perto de elevar a taxa básica, mantida hoje entre zero e 0,25% ao ano

A inflação assumiu definitivamente a dianteira na corrida da política monetária do Fed, que foi obrigado a fazer uma troca de pneus para tentar evitar que a disparada de preços abra ainda mais vantagem e comprometa o futuro da economia norte-americana.
Hoje, em sua última reunião do ano, o Fed anunciou que irá pisar no acelerador e retirar mais rápido os estímulos fornecidos no auge da crise provocada pela pandemia de covid-19, em março do ano passado.
Com isso, o banco central norte-americano deixará de comprar os atuais US$ 90 bilhões em títulos de dívida ao mês para passar a adquirir US$ 60 bilhões desses papéis mensalmente a partir de janeiro do ano que vem.
"A economia norte-americana não precisa mais de apoios crescentes vindos da política monetária", disse o presidente do Fed, Jerome Powell, na coletiva que aconteceu logo após a decisão de política monetária.
Ele reconheceu ainda que a inflação mais alta se espalhou amplamente pelos setores nos Estados Unidos. "Precisamos ver mais dados, acompanhar como a inflação vai evoluir nos próximos meses. Faremos de tudo para garantir que a inflação alta não seja um problema para alcançarmos nossa meta de máximo emprego e estabilidade de preços", afirmou.
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No mês passado, o banco central americano avisou que reduziria o volume de títulos de dívida comprados do mercado financeiro por conta das preocupações com a inflação. Até outubro, o Fed vinha adquirindo US$ 120 bilhões desses títulos, que passaram a US$ 105 bilhões em novembro e diminuíram para US$ 90 bilhões em dezembro.
Mantida esta redução conhecida como tapering, de US$ 15 bilhões por mês, o estímulo terminaria em junho do ano que vem. Agora, com a aceleração anunciada hoje, essas aquisições devem acabar antes, em março de 2022.
O próximo passo do Fed
O próximo passo do Fed deve ser o aumento dos juros para conter uma inflação galopante. Com a morte do discurso que indicava que o aumento de preços dos Estados Unidos era transitório, a próxima missão de Powell é trazer a inflação para próximo da meta de 2% e isso só será possível com a elevação da taxa básica.
De acordo com o gráfico de pontos, que traz as projeções dos membros do Fed para os juros nos próximos anos, é unânime que a taxa básica será elevada em 2022. O famoso dot plot mostra três elevações no ano que vem, com mais dois apertos monetários em 2023 e mais dois em 2024.
A cada trimestre, os membros do Fed atualizam suas previsões para os juros. Em setembro, última vez que as projeções foram revisitadas, a maioria dos 18 dirigentes via um aumento da taxa básica já em 2022. Até junho, as estimativas indicavam uma subida dos juros apenas em 2023.
Veja abaixo o gráfico de pontos da reunião de dezembro de 2021:

Qualquer decisão do Fed, no entanto, também levará a situação da pandemia de covid-19 em conta. "A trajetória da economia continua dependendo do curso do vírus. O progresso na vacinação e a redução das restrições de oferta devem apoiar os ganhos contínuos na atividade econômica e no emprego, bem como na redução da inflação. Os riscos para as perspectivas econômicas permanecem, inclusive de novas variantes do vírus", diz o comunicado.
Menos liquidez, dólar valorizado
E o que a aceleração da retirada dos estímulos tem a ver com o seu dinheiro? Tudo.
Quando o Fed reduz os estímulos, ele está, na prática, retirando dinheiro de circulação disponível para investimentos no mundo todo, inclusive aqui.
Países emergentes como o Brasil, que oferecem mais risco, são os primeiros a sentir o impacto, já que o investidor estrangeiro fica mais seletivo e reduz suas aplicações por aqui.
Esse comportamento tem dois efeitos práticos: pode pressionar para baixo o preço das ações das quais o gringo se desfizer e puxar para cima a cotação do câmbio, por conta dos dólares que os estrangeiros retiram do Brasil.
Juros mais altos, custo maior para empresas
Depois que o Fed retirar os bilhões de dólares em ajuda pandêmica, o próximo passo deve ser o aumento da taxa de juros para conter a inflação, como já contamos aqui. Embora pareça uma realidade distante, esse movimento tem efeito sobre as empresas e, consequentemente, sobre suas ações.
Hoje, com os juros perto de zero, as empresas conseguem o chamado negócio de pai para filho ao tomar um empréstimo. Logo, uma taxa mais elevada significa que esses empréstimos vão encarecer, a dívida corporativa pode aumentar e a percepção do valor de uma companhia na bolsa pode diminuir, refletindo em seus papéis no mercado.
Para as empresas brasileiras, que tomam crédito no exterior ou que tem negócios lá fora, o cenário é mais ou menos o mesmo.
A atratividade dos Treasuries
Um outro ponto que não pode ser ignorado é como a alta de juros nos Estados Unidos afeta os mercados globais. E a linha de raciocínio é uma só: uma taxa básica mais elevada por lá torna os Treasuries - os famosos títulos da dívida do governo norte-americano - muito mais atraentes.
Isso significa que diminui o apelo de ativos de risco, como as bolsas e os de países emergentes - novamente o Brasil entra na roda.
A reação dos mercados ao Fed
Com a novidade no posicionamento a respeito do tapering, o mercado brasileiro, que acompanhava o clima de instabilidade antes da decisão do Fed, passou a subir com mais ímpeto assim que a decisão saiu. Lá fora, as bolsas norte-americanas apagaram as perdas do dia e também subiram assim que o comunicado foi divulgado.
Depois de oscilar entre perdas e ganhos, o Ibovespa fechou em alta de 0,63%, aos 107.431 pontos. O dólar à vista recuou de sua trajetória de alta, ao cair 0,16%, a R$ 5,709, mas acabou terminando o dia em alta de 0,25%, a R$ 5,7080.
O olhar dos especialistas
Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, chama atenção para o fato de que os comentários sobre a transitoriedade da inflação foram suprimidos do comunicado com a decisão de hoje. "Reconheceu os sólidos avanços do mercado de trabalho, deixando novas variantes da covid-19 apenas como riscos", afirma.
Já Marcos Mollica, gestor do Opportunity Total, viu a decisão de hoje como mais hawk - uma referência ao falcão e que é muito usada na política monetária para indicar tendências de aperto monetário.
"No comunicado, o Fed removeu a linguagem suave em relação a inflação. Agora, a indicação é que o objetivo de inflação já foi atingido e só restaria completar a meta de emprego para começar a subir juros. Com desemprego em 4,2%, este objetivo está também muito próximo de ser atingido. Em resumo, resultado mais hawk que coloca firmemente na mesa o início de altas de juros no segundo trimestre de 2022, ou seja maio ou junho", diz Mollica.
Já o economista-chefe da CIBC World Markets, Avery Shenfeld, a aceleração do tapering não foi uma surpresa, e o ritmo da retirada dos estímulos deve ganhar ainda mais tração nos próximos meses.
"Agora serão necessários mais aumentos nos juros para acalmar essas águas, com a taxa média agora em 0,9% no final de 2022 e 1,6% no final de 2023 e em 2,1% em 2024, com a meta de longo prazo inalterada em 2,5%", diz Shenfeld.
Veja a coletiva do presidente do Fed, Jerome Powell, aqui.
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