5 pontos para entender a inflação americana – e o que isso tem a ver com o seu bolso
Só se fala em inflação em disparada nos Estados Unidos. Mas você sabe o que isso realmente significa?

Acessar os veículos de investimentos e economia nos últimos dias tem sido como andar em uma Times Square onde todos os letreiros luminosos piscam em letras garrafais “PERIGO: INFLAÇÃO AMERICANA EM DISPARADA”.
A “disparada” dos preços nos Estados Unidos pode parecer um tanto modesta para os padrões históricos brasileiros. E nem estou falando da hiperinflação. É só lembrar que atualmente o IPCA, principal índice de inflação local, mostra uma aceleração de mais de 6% nos últimos 12 meses.
A crise do coronavírus jogou os juros nas mínimas históricas por todo o mundo, deixando o cenário bem favorável para o investimento na renda variável. A inflação alta nos Estados Unidos indica que o Banco Central americano talvez tenha que fazer aquilo que alguns países emergentes (como o Brasil) já começam a fazer - elevar suas taxas de juros e repensar sua política acomodatícia.
Ontem, o estresse no mercado foi geral com a divulgação de um dos índices de preço na terra do Tio Sam e o resultado foi bolsa, dólar e juros sob pressão. Hoje o dia está mais calmo, mas o pano de fundo segue o mesmo.
Conversei com Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital e especialista em inflação, para entender melhor o porquê do acordar do dragão americano ser tão ameaçador e separei alguns pontos essenciais para você entender todo esse movimento.
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1) As contas são diferentes
Vamos do início. O sistema de inflação americano também tem uma meta, mas, ao contrário do que acontece no Brasil, não existe um teto ou um piso para o índice.
Com trilhões de dólares sendo enviados às famílias americanas e despejados na economia para trazer liquidez e contornar os efeitos da crise econômica deixada pelo coronavírus, o aquecimento da pressão inflacionária nos Estados Unidos passou a ser notado.
O Federal Reserve, banco central americano, persegue uma taxa anualizada média de 2% ao ano. O Fed tem repetido diversas vezes que pode aceitar uma inflação acima desse nível “por algum tempo”, já que considera a elevação dos preços como algo apenas transitório para a recuperação plena do país.
Os 2% não foram atingidos...ainda. Para a economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, o índice só se mantém nessa faixa, porque ainda leva em conta os resultados obtidos em meados de 2020, época em que a demanda estava ainda mais reprimida e a crise do coronavírus ainda era uma novidade, mas “devemos deixar essa base nos próximos meses”.
2) Sopa de letrinhas
Há meses essa leitura de que a inflação pode mudar a rota dos estímulos monetários tem permeado o mercado. Mas o número que azedou o humor dos investidores ontem e levou o mercado financeiro a ter um dia amargo foi o do CPI - índice de preços ao consumidor.
Os economistas esperavam uma alta de 0,2% em abril, mas o índice mostrou um avanço de 0,8%.
Mas esse não é o único dado de inflação olhado pelo mercado ou mesmo o mais importante. Outros indicadores também ajudam a medir a temperatura dos preços - e todos eles se mostram aquecidos.
Para o Federal Reserve, o melhor parâmetro é o índice de preços PCE para Despesas com Consumo Pessoal, com o CPI sendo uma espécie de prévia do que vem pela frente. Em março, o índice subiu 1,5% na base anual e os novos números devem ser conhecidos no fim de abril.
Hoje tivemos novos dados, dessa vez do PPI, índice de preços ao produtor. O resultado veio bem acima das expectativas - alta de 0,6% em abril ante março. Mas, após a reação de ontem, o mercado deixou de lado essa informação e preferiu engatar em uma espécie de recuperação.
Argenta explica que essa inflação elevada no processo produtivo tem a sua migração mais intensa para o consumidor final. “Lá essa inflação não fica represada como vemos no Brasil. Aqui temos mais dificuldade para que ela seja repassada pra frente por conta da situação de renda comprimida da população. Nos EUA, a economia não está funcionando dessa forma.
3) Não são só os estímulos
Muito se fala sobre a injeção de dólares na economia, mas alguns outros fatores também ajudam a explicar o despertar do dragão americano. Ela foi o necessário e primordial fôlego extra para a atividade econômica, principalmente a medida pelos PMIs, se recuperarem.
Mas a esfera produtiva não vive o seu melhor momento, o que acaba impactando ainda mais nos indicadores de preços. Com a renda da população americana não perdendo a maior parte do seu poder aquisitivo, a demanda continua persistente.
O coronavírus, no entanto, obrigou mudanças. Diversos parques produtivos foram fechados, produções interrompidas e entregas atrasadas. As unidades que já retomaram suas operações ainda encontram outra dificuldade: a falta de insumo.
Isso leva ao que falamos no item anterior: o processo de produção fica mais caro e também reflete no preço final. Além disso, a produção reduzida encontra uma demanda inalterada - a velha lei da oferta e da demanda, mais uma vez puxando o preço para o alto.
4) Fogo cruzado
Enquanto a inflação acelera, o mercado de trabalho patina - e é essa dicotomia que acaba permitindo ao Federal Reserve repetir que os juros devem se manter baixos. Além da meta de inflação, o Fed também tem como objetivo atingir o pleno emprego da população americana.
Se você se lembrar, na semana passada o payroll, relatório com dados do mercado de trabalho, frustrou o mercado ao criar pouco mais de 200 mil novas vagas quando o esperado era um milhão. Mas, no geral, os pedidos semanais de auxílio-desemprego seguem caindo e a taxa de desocupação também.
Ao invés de azedar o humor, o número negativo salvou os mercados de sucumbirem ao peso do temor da inflação. Sabemos que o efeito não durou muito tempo, mas sabe a razão para que isso ocorra?
A economista da CM Capital explica que essa disparidade ocorre porque a economia não é redondinha, principalmente quando estamos saindo de uma crise. “As variáveis econômicas representam uma evolução errática. Algumas se recuperam antes, outras depois. Acaba sendo um processo natural”.
5) Virando a chave
O roteiro que vem se repetindo ao longo dos últimos meses é o seguinte: mercado precifica inflação acima da meta, retorno dos juros dos Treasuries disparam, Fed diz que esse aumento será tolerado e pontual, retorno dos juros dos Treasuries recuam, e seguimos.
Os dados divulgados ontem tem poder para quebrar esse ciclo. O Fed segue falando que os efeitos dessa alta dos preços devem se dissipar ao longo dos meses, mas a economista-chefe da CM Capital destaca que o CPI veio para mostrar que essa é uma inflação persistente - e o mercado também viu isso.
“Quando a gente abre esse CPI, percebemos que o núcleo da inflação veio mais alto do que o índice propriamente dito. Isso significa que aqueles setores que têm correlação com o nível de atividade propriamente dita têm apresentado uma evolução muito mais aquecida”.
A economista explica que embora o Fed venha tentando segurar a postura acomodatícia para conseguir atingir a meta do pleno emprego, pode ser que não consiga mais por um longo tempo. Existe a concretização de uma pressão nos preços, diminuindo assim a margem de atuação do BC americano.
O que o Brasil tem a ver com isso?
A inflação americana elevada interfere na nossa própria cadeia produtiva e acaba interferindo nos preços. Não é um cenário animador quando lembramos que o IPCA acumulado dos últimos 12 meses preocupa e que o boletim Focus mostra que as expectativas dos economistas para a inflação só aumentam. Mas esse não é o ponto mais delicado para o mercado, como pudemos notar ontem na bolsa, dólar e juros.
A disparada leva o mercado a mudar sua percepção para a curva de juros e um aumento nessas taxas nos países desenvolvidos, em um momento de imensa liquidez no sistema financeiro, significa que os recursos disponíveis devem buscar o risco mais baixo (que agora oferece um melhor retorno). Ou seja, uma fuga de capital que não só fere a bolsa, como também fortalece o dólar no cenário internacional.
Uma decisão de política monetária não se baseia só na inflação local, por isso, caso ocorra um aumento por parte do Federal Reserve, o esperado é que Bancos Centrais como o do Brasil tenham que rearrumar a casa. Ou seja, deixar o país mais atrativo para o capital estrangeiro - o que significa juros ainda mais altos. Esse processo é chamado de calibragem e explica a razão para as curvas de juros brasileiras acompanharem o movimento visto no exterior.
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