Onde as fake techs não têm vez: mercado não perdoa mais quem não gera valor de verdade
Com alta dos juros, quem não gerar caixa suficiente para remunerar o investidor em 16% ao ano está, em bom português, no sal

O mercado está um Deus nos acuda. Se a subida dos juros para controlar a inflação já estava tornando o jogo difícil para as fake techs, imagine depois da quase-renúncia do ministro Paulo Guedes.
Comecemos do início: o presidente da república decidiu, em conjunto com um grupo de ministros, que o Auxílio Brasil seria de R$ 400 mensais, a serem pagos, já a partir de novembro, para 17 milhões de beneficiários. O desenho anterior previa um valor de R$ 300, o que caberia dentro do teto de gastos. Então, com os R$ 100 adicionais, será necessária uma manobra para colocar o gasto extra fora do teto.
Daí, o caos.
Quatro secretários do Ministério da Economia pediram demissão, dentre eles o Bruno Funchal (Secretário do Tesouro e Orçamento), e o Jeferson Bittencourt (Secretário do Tesouro Nacional).
Não tardou para que surgissem boatos sobre uma potencial renúncia de Paulo Guedes, que logo se apressou em anunciar que “é mais ministro do que nunca”.
Todo um adendo político para falar de um cenário que se tornará ainda mais inóspito para as (fake) techs: se fura o teto, a capacidade pagadora do governo diminui, o que leva o juro futuro à lua e, com ele, o custo de capital. Isso sem falar na inflação gerada por uma injeção direta de R$ 84 bilhões na renda disponível do brasileiro, o que gera mais tempo de juro alto para controlar os preços.
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Para os investidores, isso significa uma só coisa: só vou investir em empresas que me paguem hoje, no mínimo, 12% ao ano (DI futuro de 2031) + 4% de prêmio de risco para investir em bolsa.
É isso, amigos.
Quem não gerar caixa suficiente para remunerar o investidor em 16% ao ano está, em bom português, no sal.
Não à toa, as empresas de tecnologia brasileiras foram dizimadas no segundo semestre. Até o fechamento da última sexta-feira, Magazine Luiza, Banco Inter e Méliuz caíam 41%, 48% e 52% no semestre, respectivamente.
Se é assim para as techs, imagina para as fake techs
Sim, porque há aquelas que prometem crescimentos inimagináveis com base em “total addressable markets” trilionários, “lifetime value do cliente” infinito ou “custo de aquisição do cliente” irrisório. Há empresas que sequer possuem as licenças regulatórias necessárias para executar as avenidas de crescimento prometidas.
A crítica, aqui, não é aos conceitos em si, mas ao seu uso vulgarizado. Porque a Amazon tinha um “addressable market” (mercado enderaçável) enorme lá atrás: era o varejo físico inteiro. Mesma coisa para o Google: as bibliotecas do mundo todo.
Mas dizer que a receita vai se multiplicar por 20 em cinco anos, em um mercado que na verdade já atingiu seu potencial de crescimento e em que há muitos entrantes é demais. Enquanto a Selic estava 2% ao ano, tudo bem: o custo do capital era irrisório. No cenário anterior, valia pagar para ver, porque a opção era deixar o dinheiro rendendo menos de 5% ao ano em um título de renda fixa com vencimento longo.
Agora, o jogo é outro: não há perdão para quem não gera valor de verdade.
Na seara das techs, escolha muito bem seus cavalos. E fuja das fake techs.
Um abraço,
Larissa
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