Felipe Miranda: ‘Estamos deitados, mas o berço é esplêndido’
Estrategista-chefe da Empiricus traz uma reflexão sobre polarização política, investimentos e o mito do brasileiro cordial a menos de um ano das eleições

— Oi, tudo bem?
Assim normalmente começam as conversas entre nós, brasileiros.
Não bastasse o caráter pitoresco da pergunta, a ela costuma se seguir uma resposta afirmativa.
Como descreve Lilia Schwarcz no prefácio da nova edição de “Hello, Brasil”, de Contardo Calligaris, “um diálogo previamente disposto por uma confirmação recíproca e prévia”.
Como assim “tudo bem"?
Claro que não está tudo bem. Não pode estar. Algumas coisas estão bem, outras nem tanto. É assim que deve ser, né?
Ou será que existe alguma viva alma por aí cuja existência esteja absolutamente tudo bem? Não haveria alguma coisinha mínima que não esteja bem?
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No Brasil, até a linguagem mais corriqueira presume a necessidade de tudo estar bem e devidamente pacificado. Não há beligerância. Prevalece um ar de certa tranquilidade, talvez hospitalidade, transmitido na mais simples conversa.
Só mesmo aqui
A saudação é bem diferente, por exemplo, dos neutros “how are you?” ou “comment allez-vous?”. Mundo afora, não parece razoável sequer supor a possibilidade de tudo estar bem.
Talvez seja um resultado de todo processo da colonização portuguesa, seus arranjos e tergiversações distantes de outras dinâmicas revolucionárias de independência, as adaptações típicas do nosso “jeitinho”, tal como descrito mesmo no clássico “Raízes do Brasil”.
Também na outra obra essencial à caracterização da formação econômica e social do Brasil, “Casa-Grande & Senzala”, está destacada nossa constituição a partir da miscigenação entre os brancos (portugueses sobretudo), os escravos pretos e os povos indígenas.
[captacao]
Moro num país 'cordial'
Como escreve Contardo Calligaris no mesmo “Hello, Brasil”, o país, para nós, seria uma terra cordial, “onde se teria inventado uma feliz democracia racial, onde as crianças são adoradas — ainda que não se saiba educá-las — e onde seus habitantes gostariam de ter a reputação de serem muito interessados em sexo. E também (mais uma peculiaridade) ele se veria e entenderia como um indivíduo — claro, um gigante, pelo próprio tamanho, mas, mesmo assim, um indivíduo”.
A convivência harmoniosa com o diferente é — ou, corrigindo, era — traço histórico-cultural brasileiro. O sincretismo penetra(va) raças e religiões. Aí, de repente, inventaram o “nós contra eles”, “os mortadelas contra os coxinhas”, “a polarização entre esquerda e direita”.
A julgar pelo que apontam as pesquisas eleitorais para 2022, ou mesmo as conversas de Zap nos grupos de família, estaríamos condenados à polarização e ao populismo por mais quatro anos.
A vitalidade iorubá
Será? Teríamos mesmo perdido, para usar um termo de Eduardo Giannetti, nossa “vitalidade iorubá” para sempre?
Em conversa recente com o próprio Giannetti, ele ofereceu uma reflexão interessante.
Aqui me faltam as palavras precisas — e peço desculpas por isso —, mas era algo mais ou menos assim: não podemos confundir algo circunstancial e conjuntural com elementos estruturantes e mais definitivos da constituição brasileira.
Uma caracterização formada por séculos poderia mesmo ser destruída por poucos anos de desvios?
A tal “vitalidade iorubá” não é uma suposição teórica, tampouco uma ilação anedótica do Carnaval ou do futebol. É, conforme já apontaram alguns estudos empíricos, a manifestação medida de índices de felicidade superiores mesmo entre as crianças de classe baixa no Brasil relativamente aos observados na Inglaterra ou na Suécia.
Os estrangeiros já se foram
Não é apenas uma discussão social. O rompimento do Brasil consigo mesmo, com seus elementos estruturantes, nos afasta do capital estrangeiro. E nos afasta de nossa própria esperança. Se até ela, que ficou sozinha na caixa de Pandora como a última dos moicanos, se perdeu, o que haveria agora? Conforme Ilan Goldfajn falou hoje ao NeoFeed, “os investidores estrangeiros não estão fugindo do Brasil. Eles já fugiram”.
A parte boa é que eles voltam. Isso depende deles mesmos, claro. Mas também um pouco de nós.
Momento de inflexão
Enquanto nos perdemos em críticas duras a Roberto Campos Neto e sua recente adoção de discurso muito duro, perdemos de vista que, talvez, estejamos vivendo justamente neste momento uma inflexão na inflação e suas expectativas.
O IPCA de sexta-feira veio bem abaixo das projeções, derrubando a curva de juros. Hoje, depois de várias e várias semanas, o Focus trouxe uma revisão para baixo nas estimativas de inflação.
É sintomático e com implicações expressivas sobre os valuations de ativos de risco — a WHG, por exemplo, fez um tuíte interessante neste final de semana: “Atualizamos nossa simulação de qual seria o target do Ibovespa usando a curva longa de juros corrente, que melhorou 1.8pp desde a máxima (e passamos o modelo para 2022). Nesse nível da curva (11%), o valor do Ibovespa iria para 135 mil pontos no final de 2022”.
Seria um primeiro movimento em prol de maior alocação em ações dos privates e wealths mais relevantes do país, a maioria sublocada em Bolsa? Os multimercados viriam junto?
Ao final da semana passada, Luiz Parreiras, da Verde, falou ao InfoMoney: a Bolsa brasileira está bem barata agora; o mercado atribuiu um risco muito grande em termos fiscais de longo prazo ao preço das ações. Enquanto isso, seja por inflação ou por preço de commodities, objetivamente caminhamos para superávit primário em 2021.
O risco eleitoral
“Ah, mas as eleições não seriam um risco?” Claro que seriam. Sempre são. De novo, é impossível estar “tudo bem”.
A vida não é propriamente um ato de não correr risco ou evitar problemas a qualquer custo.
A questão é: qual risco topamos correr e o que já está no preço? Do que estamos com medo exatamente? De usarmos espaço fiscal para programas populistas/eleitoreiros e emendas do relator? De usar os bancos públicos, conforme sinaliza a revista Veja para 2022, para aumentar o crédito? De darmos auxílios para classes específicas, tipo caminhoneiros, e fomentar ainda mais o “país da meia entrada”? De não caminharmos como deveríamos com as reformas? Ora, não seria exatamente isso que estamos vendo hoje e, portanto, boa parte já estaria no preço? A surpresa não seria exatamente a possibilidade de algo bom?
Em termos pragmáticos para os ativos financeiros (lembre-se de que o mercado é aético), se for mesmo Geraldo Alckmin (ou “um Geraldo Alckmin”), cujo guru econômico é (ou ao menos era) Persio Arida, aquele mesmo da proposta Larida do Plano Real, vice de Lula, não teríamos tido uma diminuição brutal dos riscos?
Se vale a teoria política do eleitor médio, na falta de um candidato de centro, talvez tenhamos três.
É impossível fugir de si mesmo
No final do dia, é impossível fugir de si mesmo.
Vale para indivíduos e para países — principalmente para países que, como nos lembra Calligaris, se veem como indivíduos.
Estamos muito abaixo da mediocridade complacente e macunaímica, típica das raízes brasileiras.
O próximo de despertar
O próximo de despertar não é lento e gradual. Ele ocorre em saltos súbitos, não lineares e expressivos.
Veja o que está acontecendo em dezembro.
Quem sabe não é o início de um processo mais contundente de nos voltarmos a nós mesmos?
Estamos deitados, mas o berço é esplêndido.
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