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Dados da Bolsa por TradingView
2021-01-22T19:37:58-03:00
Jasmine Olga
Jasmine Olga
É repórter do Seu Dinheiro. Cursa jornalismo na Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
FECHAMENTO DA SEMANA

Ano novo, vida velha: Ibovespa recua e dólar sobe mais de 2% com piora do cenário fiscal e avanço da covid-19

Semana foi negativa para os mercados brasileiros mesmo após a aprovação de vacinas e entusiasmo com Biden no exterior

22 de janeiro de 2021
19:28 - atualizado às 19:37
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Um dos causos do mundo do tênis que eu mais gosto de lembrar é uma história que começou a circular a uns cinco anos atrás. Um espanhol fã do tenista Roger Federer teria ficado chocado ao acordar de um coma após 11 anos e descobrir que seu atleta favorito não só se tornou um multicampeão como também entrou para o hall de melhores tenistas de todos os tempos e ainda está ativo (e competitivo) no auge de seus trinta e tantos anos. 

Esse espanhol acordou para encontrar um mundo totalmente diferente daquele que se lembrava. Sorte a dele! Se alguém hibernou por alguns meses em 2020 e acordou só agora, deve ter ficado um tanto decepcionado. 

Na primeira página temos os mesmos problemas: risco fiscal, atritos políticos, hospitais sobrecarregados, medidas restritivas de isolamento social e uma rotina com mais de mil mortos por dia. Tudo isso com raiz na mesma questão: a pandemia de coronavírus.  A diferença é que agora temos vacinas e Donald Trump não ocupa mais a Casa Branca — duas pautas que um dia trouxeram algum alento ao mercado, mas que hoje são insuficientes para manter o otimismo.

Em uma conversa que tive com Victor Benndorf, analista da Apollo Investimentos, durante a semana, surgiu um termo que é perfeito para explicar a reação recente das bolsas brasileiras (e em menor escala, mundiais) após o rali de fim de ano que fez com que bolsas do mundo inteiro renovassem recorde atrás de recorde: choque de realidade. 

Havia uma expectativa de que a chegada de uma vacina fosse quase que “um milagre” para a atividade econômica. Os investidores anteciparam os efeitos positivos e deixaram de lado os antigos problemas que ainda poderiam persistir, ou novos que poderiam surgir. 

É fácil perceber isso ao olhar para a performance do Ibovespa depois da aprovação das duas vacinas para uso emergencial aqui no Brasil no último domingo.

Em uma semana marcada por problemas com vacinas, uma decisão de política monetária e a posse de um democrata na principal economia do mundo, começamos a segunda-feira com o pé direito, mas acabamos esta sexta-feira andando para trás — para ser mais exata, um recuo de 2,47% na semana.  

Hoje, o principal índice da bolsa brasileira fechou o dia em queda de 0,80%, a 117.380,49 pontos.  É bem verdade que a cautela também predominou nos mercados europeu e americano, mas por aqui o recuo foi bem mais acentuado. 

O dólar também teve um dia de estresse em escala global, mas a valorização perante o real foi muito mais intensa do que com uma cesta de outras moedas emergentes. Por aqui, a divisa fechou em alta de 2,14%, a R$ 5,4790. Na semana, a valorização foi de 3,30%.

Embora o mercado estivesse fugindo de risco em escala global, o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira, vê esse movimento no exterior mais como uma realização de lucros após as altas recentes — na esteira do entusiasmo com a posse de Joe Biden e a sinalização de novos estímulos fiscais nos Estados Unidos. Enquanto isso, no Brasil, o que “efetivamente mexe com o mercado é a pandemia”.

Expectativa x Realidade

Com a aprovação das vacinas, vimos uma chance de finalmente voltar às nossas vidas “normais” em um curto espaço de tempo. Mas o que vimos é que esse sonho ainda está distante de virar uma realidade. 

De fato a campanha de vacinação começou no Brasil, mas ela está longe de ser suficiente para conter o avanço rápido do coronavírus. A prova é que mais e mais cidades anunciam medidas intensas de distanciamento social. Hoje, o anúncio de que São Paulo voltará à fase mais severa do isolamento ajudou a azedar ainda mais os negócios. 

O governo estadual anunciou uma regressão de todo o estado no plano de reabertura, o que limita o oferecimento de serviços e o funcionamento do comércio. 

As novas regras funcionarão como uma espécie de toque de recolher. A fase vermelha deve entrar em vigor aos fins de semana, feriados e após às 20h em dias úteis. Nesses momentos, somente padarias, mercados e farmácias poderão operar. 

Novas medidas de isolamento social devem seguir impactando a economia brasileira por mais um bom tempo. Até que pelo menos boa parte da população esteja imunizada. E isso pode levar um tempo considerável tendo em vista que o país está tendo problemas para importar os insumos necessários da China e começou a sua campanha de vacinação quase dois meses depois do resto do mundo.

No fim do dia, quase no fim do pregão, tivemos duas notícias que podem ajudar a amenizar o cenário nos próximos dias. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o segundo lote da CoronaVac, já envasado pelo Instituto Butantan, que totalizam 4,8 milhões de novas doses. Além disso, chegou ao Brasil um carregamento de 2 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e importada da Índia. 

Ainda que seja um avanço do que vimos no começo da semana, o cenário ainda segue complicado. 

O lado B das vacinas

Com os efeitos da pandemia se prolongando tanto e sem previsão para uma imunização em larga escala, o mercado começa a antecipar os próximos passos do governo. E isso tem um impacto nas já debilitadas contas públicas. 

Para Regis Chinchila, analista da Terra Investimentos, o Ministério da Economia terá que buscar soluções para incentivar o consumo no Brasil. "No mercado já existe comentário sobre a possibilidade de um PIB do primeiro trimestre de 2021 negativo", complementa. 

A possibilidade de extensão do auxílio emergencial não pesou só no Ibovespa durante essa semana. Por significar uma piora do cenário fiscal brasileiro, a conversa também influenciou no dólar e no mercado de juros futuros. 

A pauta foi levantada diversas vezes ao longo da semana. Os dois principais candidatos à presidência da Câmara, o governista Arthur Lira e Baleia Rossi, sinalizaram a possibilidade de pautar a medida. O candidato do governo para o Senado também causou ruído ao afirmar que o teto de gastos pode ser flexível em momentos de necessidade. 

No fim da tarde, uma carta assinada por 18 secretários estaduais de Fazenda pediam uma adoção de "medidas urgentes" contra a covid-19. A tendência é que a pressão sobre a União aumente nas próximas semanas sem o controle efetivo da pandemia.

O analista de investimentos da Warren Brasil, Igor Cavaca, avisa que o mercado está de olho no novo cenário político que deve se iniciar em fevereiro, com a eleição para a presidência da Câmara e do Senado. "Medidas que levem a uma expansão fiscal podem ampliar a incerteza econômica, levando a uma queda nos mercados e alta do dólar", explica. 

O economista-chefe da Nova Futura vê uma incapacidade do governo no gerenciamento dessa crise. “O governo não está conseguindo definir uma sinalização que dê credibilidade à política fiscal, isso deixa o mercado nervoso”, afirma. Nessa conta ainda entra a queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, o que pode levar o governo a abrir mão do equilíbrio fiscal.

Entre os analistas é quase unanimidade que o risco fiscal e as eleições na Câmara e no Senado devem seguir pautando o mercado brasileiro nos próximos dias. 

O último "manteu"?

Além da posse de Joe Biden nos Estados Unidos, o outro grande evento da semana foi a primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano.

Pressionado pelo avanço da inflação, o Banco Central manteve a taxa básica de juros em 2% ao ano e retirou o forward guidance, que indicava que a taxa permaneceria baixa por um longo período de tempo.

O Comitê afirmou que a derrubada do instrumento não é uma sinalização imediata de elevação da taxa de juros. Para o Copom, a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo "extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade" e as próximas decisões dependerão da análise usual do balanço de riscos para a inflação prospectiva.

Entre os analistas que escutei ao longo da semana, a conclusão é de que essa decisão já estava precificada na bolsa e o impacto foi, no máximo, na quarta-feira, segundo Paulo Silveira, da Nova Futura Investimentos.

No entanto, o mercado de juros futuros passou por uma forte movimentação, ajustando as expectativas de que a Selic pode subir já no primeiro trimestre e a pressão da piora do cenário fiscal. Confira as taxas de fechamento do mercado de juros hoje:

  • Janeiro/2022: de 3,39% para 3,38%
  • Janeiro/2023: de 5,16% para 5,17%
  • Janeiro/2025: de 6,66% para 6,78%
  • Janeiro/2027: de 7,14% para 7,47%

Sobe e desce

As empresas que foram declaradas como "vitoriosas" durante o auge da crise devem continuar se beneficiando do cenário ainda complicado imposto pelo coronavírus. Assim, empresas consideradas resilientes ou com um e-commerce poderoso e eficaz acabaram sendo um dos destaques da semana.

Hoje, a BRF ficou na ponta da tabela, liderou as altas, seguido do Magazine Luiza. Confira as principais altas desta sexta-feira:

CÓDIGONOMEVALORVARIAÇÃO
BRFS3BRF ONR$ 20,69 3,19%
MGLU3Magazine Luiza ONR$ 25,99 1,96%
SBSP3Sabesp ONR$ 40,98 1,79%
CSNA3CSN ONR$ 33,98 1,68%
AZUL4Azul PNR$ 38,91 1,59%

Na ponta contrária, as ações da resseguradora IRB Brasil caem após a companhia registrar um prejuízo de R$ 124 milhões em novembro. A Eletrobras segue para mais um dia de desempenho negativo. Ontem, o candidato governista ao Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou que é contra a privatização da estatal. 

A piora do cenário da pandemia segue vitimando os papéis ligados ao turismo, como a CVC. A Braskem também foi um dos destaques negativos após fechar um acordo de R$ 1 bilhão com Casa dos Ventos para compra de energia renovável. Confira as principais quedas do dia:

CÓDIGONOMEVALORVARIAÇÃO
IRBR3IRB ONR$ 6,92 -8,95%
CVCB3CVC ONR$ 18,30 -4,98%
ELET3Eletrobras ONR$ 30,24 -3,39%
CYRE3Cyrela ONR$ 26,00 -3,35%
BRKM5Braskem PNAR$ 24,01 -3,30%
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