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Semana foi negativa para os mercados brasileiros mesmo após a aprovação de vacinas e entusiasmo com Biden no exterior
Um dos causos do mundo do tênis que eu mais gosto de lembrar é uma história que começou a circular a uns cinco anos atrás. Um espanhol fã do tenista Roger Federer teria ficado chocado ao acordar de um coma após 11 anos e descobrir que seu atleta favorito não só se tornou um multicampeão como também entrou para o hall de melhores tenistas de todos os tempos e ainda está ativo (e competitivo) no auge de seus trinta e tantos anos.
Esse espanhol acordou para encontrar um mundo totalmente diferente daquele que se lembrava. Sorte a dele! Se alguém hibernou por alguns meses em 2020 e acordou só agora, deve ter ficado um tanto decepcionado.
Na primeira página temos os mesmos problemas: risco fiscal, atritos políticos, hospitais sobrecarregados, medidas restritivas de isolamento social e uma rotina com mais de mil mortos por dia. Tudo isso com raiz na mesma questão: a pandemia de coronavírus. A diferença é que agora temos vacinas e Donald Trump não ocupa mais a Casa Branca — duas pautas que um dia trouxeram algum alento ao mercado, mas que hoje são insuficientes para manter o otimismo.
Em uma conversa que tive com Victor Benndorf, analista da Apollo Investimentos, durante a semana, surgiu um termo que é perfeito para explicar a reação recente das bolsas brasileiras (e em menor escala, mundiais) após o rali de fim de ano que fez com que bolsas do mundo inteiro renovassem recorde atrás de recorde: choque de realidade.
Havia uma expectativa de que a chegada de uma vacina fosse quase que “um milagre” para a atividade econômica. Os investidores anteciparam os efeitos positivos e deixaram de lado os antigos problemas que ainda poderiam persistir, ou novos que poderiam surgir.
É fácil perceber isso ao olhar para a performance do Ibovespa depois da aprovação das duas vacinas para uso emergencial aqui no Brasil no último domingo.
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Em uma semana marcada por problemas com vacinas, uma decisão de política monetária e a posse de um democrata na principal economia do mundo, começamos a segunda-feira com o pé direito, mas acabamos esta sexta-feira andando para trás — para ser mais exata, um recuo de 2,47% na semana.
Hoje, o principal índice da bolsa brasileira fechou o dia em queda de 0,80%, a 117.380,49 pontos. É bem verdade que a cautela também predominou nos mercados europeu e americano, mas por aqui o recuo foi bem mais acentuado.
O dólar também teve um dia de estresse em escala global, mas a valorização perante o real foi muito mais intensa do que com uma cesta de outras moedas emergentes. Por aqui, a divisa fechou em alta de 2,14%, a R$ 5,4790. Na semana, a valorização foi de 3,30%.
Embora o mercado estivesse fugindo de risco em escala global, o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira, vê esse movimento no exterior mais como uma realização de lucros após as altas recentes — na esteira do entusiasmo com a posse de Joe Biden e a sinalização de novos estímulos fiscais nos Estados Unidos. Enquanto isso, no Brasil, o que “efetivamente mexe com o mercado é a pandemia”.
Com a aprovação das vacinas, vimos uma chance de finalmente voltar às nossas vidas “normais” em um curto espaço de tempo. Mas o que vimos é que esse sonho ainda está distante de virar uma realidade.
De fato a campanha de vacinação começou no Brasil, mas ela está longe de ser suficiente para conter o avanço rápido do coronavírus. A prova é que mais e mais cidades anunciam medidas intensas de distanciamento social. Hoje, o anúncio de que São Paulo voltará à fase mais severa do isolamento ajudou a azedar ainda mais os negócios.
O governo estadual anunciou uma regressão de todo o estado no plano de reabertura, o que limita o oferecimento de serviços e o funcionamento do comércio.
As novas regras funcionarão como uma espécie de toque de recolher. A fase vermelha deve entrar em vigor aos fins de semana, feriados e após às 20h em dias úteis. Nesses momentos, somente padarias, mercados e farmácias poderão operar.
Novas medidas de isolamento social devem seguir impactando a economia brasileira por mais um bom tempo. Até que pelo menos boa parte da população esteja imunizada. E isso pode levar um tempo considerável tendo em vista que o país está tendo problemas para importar os insumos necessários da China e começou a sua campanha de vacinação quase dois meses depois do resto do mundo.
No fim do dia, quase no fim do pregão, tivemos duas notícias que podem ajudar a amenizar o cenário nos próximos dias. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o segundo lote da CoronaVac, já envasado pelo Instituto Butantan, que totalizam 4,8 milhões de novas doses. Além disso, chegou ao Brasil um carregamento de 2 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e importada da Índia.
Ainda que seja um avanço do que vimos no começo da semana, o cenário ainda segue complicado.
Com os efeitos da pandemia se prolongando tanto e sem previsão para uma imunização em larga escala, o mercado começa a antecipar os próximos passos do governo. E isso tem um impacto nas já debilitadas contas públicas.
Para Regis Chinchila, analista da Terra Investimentos, o Ministério da Economia terá que buscar soluções para incentivar o consumo no Brasil. "No mercado já existe comentário sobre a possibilidade de um PIB do primeiro trimestre de 2021 negativo", complementa.
A possibilidade de extensão do auxílio emergencial não pesou só no Ibovespa durante essa semana. Por significar uma piora do cenário fiscal brasileiro, a conversa também influenciou no dólar e no mercado de juros futuros.
A pauta foi levantada diversas vezes ao longo da semana. Os dois principais candidatos à presidência da Câmara, o governista Arthur Lira e Baleia Rossi, sinalizaram a possibilidade de pautar a medida. O candidato do governo para o Senado também causou ruído ao afirmar que o teto de gastos pode ser flexível em momentos de necessidade.
No fim da tarde, uma carta assinada por 18 secretários estaduais de Fazenda pediam uma adoção de "medidas urgentes" contra a covid-19. A tendência é que a pressão sobre a União aumente nas próximas semanas sem o controle efetivo da pandemia.
O analista de investimentos da Warren Brasil, Igor Cavaca, avisa que o mercado está de olho no novo cenário político que deve se iniciar em fevereiro, com a eleição para a presidência da Câmara e do Senado. "Medidas que levem a uma expansão fiscal podem ampliar a incerteza econômica, levando a uma queda nos mercados e alta do dólar", explica.
O economista-chefe da Nova Futura vê uma incapacidade do governo no gerenciamento dessa crise. “O governo não está conseguindo definir uma sinalização que dê credibilidade à política fiscal, isso deixa o mercado nervoso”, afirma. Nessa conta ainda entra a queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, o que pode levar o governo a abrir mão do equilíbrio fiscal.
Entre os analistas é quase unanimidade que o risco fiscal e as eleições na Câmara e no Senado devem seguir pautando o mercado brasileiro nos próximos dias.
Além da posse de Joe Biden nos Estados Unidos, o outro grande evento da semana foi a primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano.
Pressionado pelo avanço da inflação, o Banco Central manteve a taxa básica de juros em 2% ao ano e retirou o forward guidance, que indicava que a taxa permaneceria baixa por um longo período de tempo.
O Comitê afirmou que a derrubada do instrumento não é uma sinalização imediata de elevação da taxa de juros. Para o Copom, a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo "extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade" e as próximas decisões dependerão da análise usual do balanço de riscos para a inflação prospectiva.
Entre os analistas que escutei ao longo da semana, a conclusão é de que essa decisão já estava precificada na bolsa e o impacto foi, no máximo, na quarta-feira, segundo Paulo Silveira, da Nova Futura Investimentos.
No entanto, o mercado de juros futuros passou por uma forte movimentação, ajustando as expectativas de que a Selic pode subir já no primeiro trimestre e a pressão da piora do cenário fiscal. Confira as taxas de fechamento do mercado de juros hoje:
As empresas que foram declaradas como "vitoriosas" durante o auge da crise devem continuar se beneficiando do cenário ainda complicado imposto pelo coronavírus. Assim, empresas consideradas resilientes ou com um e-commerce poderoso e eficaz acabaram sendo um dos destaques da semana.
Hoje, a BRF ficou na ponta da tabela, liderou as altas, seguido do Magazine Luiza. Confira as principais altas desta sexta-feira:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| BRFS3 | BRF ON | R$ 20,69 | 3,19% |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | R$ 25,99 | 1,96% |
| SBSP3 | Sabesp ON | R$ 40,98 | 1,79% |
| CSNA3 | CSN ON | R$ 33,98 | 1,68% |
| AZUL4 | Azul PN | R$ 38,91 | 1,59% |
Na ponta contrária, as ações da resseguradora IRB Brasil caem após a companhia registrar um prejuízo de R$ 124 milhões em novembro. A Eletrobras segue para mais um dia de desempenho negativo. Ontem, o candidato governista ao Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou que é contra a privatização da estatal.
A piora do cenário da pandemia segue vitimando os papéis ligados ao turismo, como a CVC. A Braskem também foi um dos destaques negativos após fechar um acordo de R$ 1 bilhão com Casa dos Ventos para compra de energia renovável. Confira as principais quedas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| IRBR3 | IRB ON | R$ 6,92 | -8,95% |
| CVCB3 | CVC ON | R$ 18,30 | -4,98% |
| ELET3 | Eletrobras ON | R$ 30,24 | -3,39% |
| CYRE3 | Cyrela ON | R$ 26,00 | -3,35% |
| BRKM5 | Braskem PNA | R$ 24,01 | -3,30% |
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