Ibovespa até tenta, mas discurso de Powell deixa a bolsa no vermelho; dólar vai a R$ 5,40
Cautela com recuperação econômica em escala global levou o Ibovespa a fechar em baixa e dólar acumular uma alta de 1,5%

Desde que a pandemia do coronavírus começou, o mercado financeiro busca muitas vezes enxergar um copo meio cheio para justificar momentos de otimismo mesmo em meio a um cenário de crise sanitária, economias fragilizadas e balanços corporativos fortemente afetados pela maior crise financeira do século.
Uma hora são os estímulos fiscais e monetários, outras, o otimismo com vacinas e tratamentos que podem levar o mundo de volta a alguma normalidade. É só lembrar que poucas semanas atrás as bolsas globais renovaram os seus topos históricos seguidas vezes, na expectativa de que a luz no fim do túnel se aproximasse.
[captacao]
Hoje foi um daqueles dias em que nem mesmo o mais otimista dos homens conseguiu enxergar um copo meio cheio. Os números contam a história: são 100 milhões de casos confirmados de covid-19 pelo mundo, 2,16 milhões de mortos, inúmeros países fechando fronteiras e estabelecendo medidas mais duras de isolamento e um longo caminho até a recuperação econômica plena das maiores economias do mundo.
O Ibovespa bem que tentou e chegou a subir mais de 1% enquanto os índices em Nova York apontavam quedas expressivas no meio da tarde, mas não foi possível manter o ritmo positivo. A agenda lotada de divulgações e eventos trouxe grande volatilidade aos negócios e, ao fim do dia, o principal índice da bolsa brasileira marcava um recuo de 0,50%, aos 115.882,30 pontos.
Depois de recuar mais de 3% ontem, o dólar seguiu uma tendência global de valorização, com uma percepção maior do sentimento de risco, e subiu 1,51%, a R$ 5,4071.
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No exterior, as bolsas europeias fecharam em baixa, assim como os índices em Wall Street - que tiveram um dia movimentado com especulações e um discurso pouco otimista (ainda que reforçando a continuidade de estímulos) por parte do presidente do Banco Central americano, Jerome Powell. O Dow Jones fechou em queda de 2,05%, o S&P 500 caiu 2,57% e o Nasdaq liderou as perdas com um recuo de 2,61%.
Agenda americana pesa
Desde o início do pregão de hoje, a expectativa era de um dia marcado por diversas divulgações importantes e de impacto nos Estados Unidos. E de fato foi.
A começar pela divulgação do balanço da Boeing logo pela manhã, que aprofundou as perdas de um dia que já prometia ser de cautela, enquanto os investidores esperavam pela decisão de política monetária do Federal Reserve, o banco central americano.
No meio da tarde, a instituição manteve a taxa básica de juros na faixa de 0% a 0,25% ao ano em sua primeira reunião de 2021 e reafirmou o compromisso de manter o ritmo de estímulos até que o país atinja um patamar confortável para a inflação e o "pleno emprego". Como esse já era o cenário antecipado pelos mercados, a reação inicial ao anúncio foi tímida. Bom, isso até o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, entrar na jogada.
Em pronunciamento após a divulgação do comunicado, Powell foi duro em sua leitura sobre o caminho que falta para a economia americana se recuperar de fato dos efeitos da pandemia e deixou claro que tudo irá depender da forma e da velocidade da campanha de vacinação no país. Enquanto isso, os estímulos devem continuar chegando, mas uma demora para a recuperação plena não é o que o mercado gostaria de ouvir. A fala de Powell foi o principal limitador do Ibovespa e foi o que fez as bolsas americanas aprofundarem as quedas.
Igor Cavaca, analista de investimentos da Warren Brasil, aponta que a sinalização de que o Fed continuará a política expansionista “ajusta as expectativas quanto ao futuro, e permite a continuidade do direcionamento do fluxo para os emergentes”, o que deve favorecer o Brasil. “O discurso dele está mais conservador do que vimos em meados do ano passado, mas ainda segue sinalizando para uma política bem expansiva. Mas para o Brasil, segue preocupante a questão interna”.
Ainda falando de Nova York, outro fato que mexeu bastante com as negociações foi uma movimentação especulativa por parte de investidores de varejo. As ações das empresas de entretenimento GameStop e AMC Entertainment Holdings dispararam 133,13% e 376,88%, respectivamente. Você pode conferir a razão para este movimento atípico e que envolve também hedge funds profissionais nesta matéria do Rafael Lara.
Ao longo do dia, os investidores também atuaram com um pé atrás, no aguardo da divulgação dos balanços das big techs - Apple, Facebook e Tesla - feitas agora após o fechamento dos mercados.
O economista-chefe do banco modalmais, Álvaro Bandeira, indica que na Europa o gatilho negativo do dia foi o indicador de confiança do consumidor GFK, que teve uma queda forte e indica que o primeiro trimestre ainda deve ser fortemente afetado pela pandemia.
Nadando contra a maré
Durante boa parte do dia, o Ibovespa acompanhou a queda internacional. Mas, no meio da tarde, um sopro de esperança se abateu sobre os investidores domésticos.
Ainda que o movimento não tenha se sustentado, é importante indicar os gatilhos que podem voltar a aparecer nos próximos dias.
Para Alan Gandelman, CEO da Planner Corretora, uma série de fatores do cenário doméstico ajudaram a explicar esse fôlego extra. Um deles foi a divulgação do Tesouro Nacional de que, embora tenha registrado um rombo recorde nas contas públicas, de R$ 5,009 trilhões, anunciou ter os recursos necessários para o pagamento da dívida externa em 2021.
Além disso, Gandelman também citou a negociação de Bolsonaro com a classe de caminhoneiros, na tentativa de evitar uma greve. Até mesmo uma possível mudança de comando no ministério de Relações Exteriores, ventilada pelo vice-presidente Hamilton Mourão, chegou a trazer uma dose de otimismo, já que essa mudança poderia destravar futuras negociações por insumos chineses para a produção das vacinas contra o coronavírus.
Luciano França, gestor de fundos da Avantgarde Asset Management, também destacou que as perspectivas positivas expostas por Luis Stuhlberger, da Verde Asset, e Rogério Xavier, da SPX Capital, em evento promovido pelo Credit Suisse, também trazem bons ventos ao mercado.
O petróleo também impulsionou uma recuperação local, após os Estados Unidos divulgarem uma queda de 9,91 milhões de barris em seus estoques. A alta da commodity impulsionou as ações da Petrobras, com grande peso no índice, que subiram mais de 1,3% no pregão de hoje.
Fantasmas próprios
O Ibovespa não só seguiu a cautela externa, como também pesaram as suas incertezas próprias. Dentre elas está a possibilidade de um retorno do auxílio emergencial, com sinais até mesmo do presidente Bolsonaro e do ministro da Economia Paulo Guedes. Além disso, um ritmo de vacinação lento no país só aumenta a probabilidade de que isso ocorra.
Ontem, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes sinalizaram uma possibilidade de volta do auxílio emergencial, ainda que dentro do orçamento. No mesmo evento, eles também reafirmaram seu compromisso com o andamento das reformas e privatizações, mas as frases tiveram efeito limitado no mercado.
A leitura de que os candidatos governistas às cadeiras da Câmara e do Senado devem sair vitoriosos das eleições no Congresso na semana que vem ajuda a balancear a cautela, já que a situação pode favorecer o andamento das pautas consideradas prioritárias para o governo.
Enquanto o dólar e a bolsa seguiram a trajetória de cautela, o mercado de juros futuros seguiu operando em compasso de ajuste após a ata do Copom, divulgada ontem, indicar uma alta da Selic antes do esperado pelas instituições financeiras. Enquanto na ponta mais curta vemos um viés de alta, os juros mais longos seguem em baixa. Confira as taxas de fechamento de hoje dos principais contratos:
- Janeiro/2022: de 3,40% para 3,45%
- Janeiro/2023: de 5,08% para 5,06%
- Janeiro/2025: de 6,63% para 6,55%
- Janeiro/2027: de 7,32% para 7,21%
Sobe e desce
Desde o início do dia, as ações da Cielo figuraram como o grande destaque positivo, subindo mais de 7%. A companhia deu a largada na temporada de balanços corporativos brasileira e agradou os investidores.
Outro destaque foram as empresas ligadas ao setor aéreo e o de turismo, normalmente os segmentos mais afetados pela crise do coronavírus. Segundo Victor Benndorf, da Apollo Investimentos, esse movimento pode ter ligação com a sinalização positiva do governo para que empresas privadas possam adquirir vacinas contra a covid-19. Ainda que os laboratórios principais neguem negociar com o setor privado, há indicação de negociações. Confira as maiores altas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| CIEL3 | Cielo ON | R$ 4,16 | 13,35% |
| AZUL4 | Azul PN | R$ 39,95 | 5,49% |
| EZTC3 | EZTEC ON | R$ 36,83 | 4,04% |
| ENGI11 | Engie units | R$ 49,54 | 3,92% |
| GOLL4 | Gol PN | R$ 23,04 | 3,74% |
Com uma leitura ruim da situação da pandemia em escala global e um alívio do dólar com uma alta da Selic, as exportadoras, como Suzano e as siderúrgicas, enfrentaram um dia negativo. Confira também as maiores quedas da sessão de hoje:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| SUZB3 | Suzano ON | R$ 62,30 | -5,89% |
| TOTS3 | Totvs ON | R$ 28,74 | -4,55% |
| GNDI3 | Intermédica ON | R$ 94,83 | -3,78% |
| KLBN11 | Klabin units | R$ 28,20 | -3,75% |
| HAPV3 | Hapvida ON | R$ 17,24 | -3,69% |
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