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Jasmine Olga
Jasmine Olga
É repórter do Seu Dinheiro. Formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
Fechamento do dia

São tantas emoções! ‘Efeito Lula’ aprofunda incertezas locais e faz Ibovespa cair 4%; dólar fecha a R$ 5,77

Mercado doméstico já operava em queda firme antes da decisão do ministro Fachin; aumento das incertezas pesou sobre bolsa, dólar e juros

Jasmine Olga
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8 de março de 2021
19:32 - atualizado às 22:17
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Ex-presidente Lula - Imagem: Shutterstock

Número recorde de mortos pelo coronavírus, colapso do sistema de saúde, vacinação lenta, lockdown na maior parte do país e incertezas fiscais garantiram que o Ibovespa seguisse uma trajetória negativa desde o início da sessão desta segunda-feira (08).

Não é de hoje que o acúmulo de incertezas traz grande volatilidade ao mercado brasileiro, mas hoje ela ganhou um elemento extra, que ninguém estava esperando - nem mesmo o ex-presidente Lula. 

Na parte da tarde, o ministro do Superior Tribunal Eleitoral (STF) Edson Fachin anulou todas as decisões tomadas pela 13ª Vara Federal de Curitiba que envolviam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato. Com a decisão que devolve os direitos políticos de Lula, o Ibovespa entrou em queda livre com a possibilidade de uma antecipação do cenário eleitoral para 2022 e questões relacionadas à incerteza jurídica. 

Assim, o principal índice da B3 recuou 3,98%, aos 110.611 pontos. Na mínima do dia, a bolsa brasileira chegou a recuar 4,28%, aos 110.267 pontos. O dólar à vista também acelerou a sua alta e fechou próximo das máximas, com um avanço de 1,67%, a R$ 5,7783. Já o dólar futuro para abril fechou a sessão em alta de 3,26%, a R$ 5,8820

No fim da tarde, na reta final do pregão, algumas declarações do presidente Jair Bolsonaro contribuíram para que o índice não buscasse uma recuperação. Bolsonaro afirmou que é possível que a Câmara não aprove o texto da PEC emergencial na próxima quarta-feira (08) se não houver a retirada de alguns artigos, mas sem especificar quais seriam. 

A somatória desse cenário resultou em uma disparada do risco-país e o mercado de juros acompanhou. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, um dos principais indicadores do risco-país, teve um dia de alta expressiva. Confira as taxas de fechamento hoje dos principais contratos futuros de DIs:

  • Janeiro/2022: de 3,82% para 3,99%
  • Janeiro/2023: de 5,44% para 5,78%
  • Janeiro/2025: de 7,00% para 7,40%
  • Janeiro/2027: de 7,64% para 8,01%

A decisão 

Pegando todo mundo de surpresa, o ministro Fachin declarou que a Vara Federal de Curitiba, onde atuava o ex-ministro Sergio Moro, é incompetente no caso das condenações de Lula, anulando as decisões sobre o Sítio de Atibaia, triplex do Guarujá e a sede do Instituto Lula. Para Fachin, os processos não deveriam ter tramitado no Paraná. 

Com isso, Lula tem os seus direitos políticos restaurados e volta a ser elegível. A Procuradoria Geral da União (PGR) já anunciou que recorrerá da decisão.

Você pode conferir a íntegra da nota publicada pelo ministro clicando aqui.

Efeito Lula?

Assim que a decisão foi tornada pública foi possível ver o Ibovespa acelerando a queda. Segundo especialistas consultados pelo Seu Dinheiro, a decisão vem para agravar um cenário que já não estava favorável à tomada de risco. Todos são unânimes ao avaliar que, embora ainda seja cedo para fazer grandes previsões, a decisão traz uma dose gigantesca de incertezas e aumenta a percepção do risco no curto prazo. 

Movimentação do Ibovespa nesta segunda-feira (8). A queda se aprofundou após a decisão de Fachin Fonte: B3

Entre os maiores temores está uma antecipação dos debates sobre as eleições de 2022 e uma maior insegurança jurídica, o que afasta ainda mais o capital estrangeiro do país. 

A economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, também lembra que a novidade também pode mexer com a agenda em Brasília. "Isso aumenta a percepção de risco porque a depender de como for conduzida toda essa situação teremos mais um obstáculo para a tramitação de matérias importantes dentro do Congresso Nacional".

Essa é uma visão compartilhada com o analista da Apollo Investimentos Victor Benndorf que afirmou que “Brasília volta para um modus operandi de defesa política, um jogo de xadrez, e isso tira o foco das reformas”. Para um outro gestor ouvido pelo Seu Dinheiro, a reação brusca do mercado pode ter sido amplificada pela instabilidade e "desmandos" gerados pelo atual governo. 

Como a decisão foi monocrática, ou seja, feita por um único magistrado, ainda cabe recurso. A Procuradoria Geral da República (PGR) irá recorrer, para que o caso seja apreciado de forma colegiada pelo Superior Tribunal Federal (STF).

Para Luciano França, gestor da Avantgarde Asset Management, a reação do mercado é mais pautada em ruídos e emoções e não deve haver impactos significativos no cenário de investimentos até que a decisão seja tomada pelo colegiado.

O buraco é mais fundo

Mais cedo, as razões que levaram o Ibovespa a operar em queda eram outras. 

A pandemia do coronavírus segue em seu pior momento no país, com direito até mesmo de (mais) um puxão de orelha da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com caos no sistema de saúde e uma média de quase 1,5 mil mortos nos últimos sete dias, a OMS afirmou que o país pode virar um “celeiro de novas variantes” e que é preciso encarar a doença com seriedade.

Com uma nova variante ainda mais transmissível em circulação e com os municípios e estados inteiros entrando na fase mais severa de restrição à circulação, o mercado encara com grande cautela a situação. Soma-se isso ao fato de que a vacinação no país anda em uma velocidade menor do que a esperada, já que faltam doses suficientes para uma imunização mais ampla. 

Esse quadro de incerteza e preocupação joga luz novamente no texto da PEC emergencial, aprovada no Senado na semana passada e que deve ser votada na próxima quarta-feira (10) na Câmara. Com a deterioração rápida do cenário, deputados já discutem flexibilizar as contrapartidas fiscais presentes no texto aprovado para ampliar a assistência aos mais pobres.

Mais cedo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o país irá enfrentar a pandemia "à altura" com vacinação, auxílio e protocolo fiscal. Sobre o teto de gastos, o ministro disse que se for necessário um valor maior do que os atuais R$ 44 bilhões disponíveis, o governo já tem protocolos para viabilizar uma saída.

No front das vacinas, pela manhã, a notícia de que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deve acelerar a produção da vacina de Oxford trouxe um pouco de alívio para o cenário. Segundo a organização, até o fim do mês serão entregues 3,8 milhões de doses.

Diante deste cenário, as projeções econômicas continuam desenhando um cenário nada otimista. O Relatório Focus, divulgado pelo Banco Central na manhã desta segunda-feira, mostra que o mercado segue precificando uma aceleração da inflação e já trabalha com um câmbio em R$ 5,15 ao fim de 2021.

Sem fôlego extra

O Ibovespa não pode contar nem com um fôlego extra vindo do exterior para amenizar a queda. As bolsas americanas apresentaram mais um dia de instabilidade. O S&P 500 e o Dow Jones - que marcou um novo recorde intraday - chegaram a avançar de forma expressiva, mas, no final, também perderam força. 

Em reação à aprovação do pacote de estímulos fiscais, o Dow Jones fechou o dia com uma alta de 0,97%, enquanto o Nasdaq e o S&P 500 recuaram respectivamente 2,41% e 0,54%.

Durante o fim de semana, em uma sessão que durou mais de 27 horas e depois de muitas idas e vindas, o Senado americano aprovou o pacote de estímulos fiscais de US$ 1,9 trilhão para contornar as consequências econômicas da pandemia de covid-19. O texto acabou ficando bem diferente daquele que foi aprovado pela Câmara dos Representantes na semana passada.

Esse foi o primeiro teste de fogo de Joe Biden no Senado, com a apertada votação por 50 votos dos Democratas contra 49 dos Republicanos e mostra como pode ser difícil para o presidente passar os seus projetos pela Casa.

Os investidores americanos (e o resto do mundo) estão de olho no rendimento dos títulos públicos dos Estados Unidos, diante da percepção de que os estímulos levarão a uma escalada da inflação - o que pode obrigar o Federal Reserve a apertar a sua política monetária antes do tempo.

Com isso, as empresas do setor de tecnologia, que já perderam uma cifra trilionária nas últimas semanas, seguem sendo penalizadas. 

Durante a madrugada, as bolsas da Ásia fecharam em baixa, repercutindo dados piores do que o esperado da economia chinesa. Na Europa o cenário se manteve mais otimista, com as principais praças fechando o dia com ganhos. 

Mar vermelho

Em dia amplamente negativo, as maiores quedas ficaram com as ações da Unidas e Localiza. Em um movimento inesperado, a rival Movida pediu ao Conselho de Administração de Defesa Econômica (Cade) a reprovação da operação de fusão das companhias, citando problemas concorrenciais. Na sequência, temos Eztec e Cyrela, refletindo a preocupação com as novas medidas de distanciamento social e o setor de varejo. Confira:

CÓDIGONOME VALORVARIAÇÃO
RENT3Localiza ONR$ 55,12-9,39%
LCAM3Unidas ONR$ 22,52-9,23%
EZTC3EZTEC ONR$ 30,05-8,72%
MGLU3Magazine Luiza ONR$ 23,10-8,08%
RAIL3Rumo ONR$ 18,70-7,93%

Brilho tímido

A Marfrig foi uma das duas companhias que conseguiram ter um desempenho positivo nesta segunda-feira (08). A empresa se beneficiou do avanço do dólar e também de um relatório recente publicado pelo Credit Suisse, onde os analistas classificaram a companhia como a melhor opção dentro do segmento. No documento, os analistas elevaram o preço-alvo das ações da Marfrig para R$ 23.

Mais cedo, a Eletrobras chegou a apresentar ganhos da ordem de 3%, após o Ministério das Minas e Energia declarar que a privatização não terá efeito sobre a tarifa paga pelos consumidores. 

CÓDIGONOME VALORVARIAÇÃO
MRFG3Marfrig ONR$ 15,644,41%
ELET3Eletrobras ONR$ 31,830,19%

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