Os segredos da bolsa: Brasília volta a mexer com o mercado de ações
Declarações recentes do ministro da Economia, Paulo Guedes, podem inspirar cautela entre os investidores e afetar uma categoria específica de ações na bolsa. O noticiário corporativo intenso também tende a fazer preço por aqui

O amargo primeiro semestre chegou ao fim, mas a bolsa brasileira fechou o mês de junho com um gosto não tão ruim na boca: o Ibovespa ainda acumula perdas expressivas no ano, mas, ao menos, conseguiu se distanciar das mínimas — e a recuperação continuou em andamento, ao menos neste início de julho.
Na última sexta-feira (3), o principal índice da bolsa marcava 96.764,87 pontos, o maior nível em quase um mês. O Ibovespa, assim, acumulou ganhos de mais de 3% somente na semana passada, aproximando-se cada vez mais do patamar dos 100 mil pontos — e tudo isso apesar da pandemia de coronavírus, que continua a todo vapor no mundo.
Nesta segunda-feira, os mercados exibem força, após sinais positivos da economia chinesa indicarem que a potência asiática está se recuperando mais rápido do que o esperado. Na Ásia, o rali nas bolsas chinesas puxou os demais índices. Na Europa, os negócios também exibem força. Os índices futuros em Nova York também operam em alta firme, após a pausa para o feriado na sexta-feira.
E se nem mesmo a Covid-19 é capaz de frear o ímpeto dos mercados, o que poderia desencadear um surto de cautela entre os investidores? É uma pergunta difícil, já que BCs e governos parecem jogar a favor dos agentes financeiros: sempre que um princípio de turbulência começa a se formar, logo surge um pacote de estímulo ou uma injeção de liquidez para acalmar a tempestade.
Pois bem: repare que eu disse que BCs e governos 'parecem' jogar a favor do mercado. Aqui no Brasil, o noticiário político — sempre ele — traz um elemento que pode frear a recuperação das bolsas, impactando uma classe específica de ações: as pagadoras de dividendos.
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Tudo isso porque, na noite da última sexta-feira (3), o ministro da Economia, Paulo Guedes, deu uma declaração que deixa pouca margem para interpretação. Num evento promovido pela Associação Brasileira de Indústria de Base (Abdib), ele disse que o governo incluirá um imposto sobre dividendos na reforma tributária.
"Não quero tributar empresa, mas se o dinheiro sair para o acionista, aí você tributa o dividendo. Não é possível que alguém pague zero sobre dividendo enquanto o trabalhador paga 27,5%", disse Guedes.
A possibilidade de taxação de dividendos já tinha sido abordada pelo governo em outras ocasiões — e, em todas elas, a questão gerou polêmica no mercado financeiro. Há quem defenda o mérito da não-imposição de novos impostos às empresas, mas também há quem fique aborrecido com essa perspectiva, especialmente investidores e companhias cuja estratégia depende do pagamento de proventos.
Dito tudo isso, é de se esperar uma reação negativa nas ações das chamadas 'boas pagadoras de dividendos' — caso de empresas do setor elétrico, de energia, de saneamento e, em alguns casos, do segmento financeiro, apenas para citar algumas.
Em geral, tais companhias possuem uma certa previsibilidade em sua geração de receita e em seu balanço como um todo — o setor elétrico é um caso clássico, já que, muitas vezes, possuem contratos fechados para a prestação de seus serviços no longo prazo. Assim, um jeito de atrair investidores é destinar grande parte de seu lucro na forma de dividendos.
Obviamente, essa estratégia não deixaria de ser válida num cenário em que esse tipo de provento é tributado. No entanto, o artifício certamente ficaria menos atrativo — e, considerando a tendência do mercado de se antecipar ao noticiário, poderemos ter alguns movimentos intensos nesses papéis.
Também é preciso ficar atento a eventuais novas declarações de Guedes ou de outros membros do governo: quaisquer tentativas de relativização do discurso — o que também não seria inédito — podem aliviar a pressão sobre as ações dessas companhias.
Bradesco e Lojas Americanas
No lado corporativo, sai a temporada de balanços, entra a temporada de rumores: as ações do Bradesco e das Lojas Americanas devem ter um início de semana bastante intenso, na esteira do noticiário envolvendo potenciais aquisições e ofertas.
O Bradesco estaria na reta final para comprar uma fatia do banco digital C6 Bank, numa transação de cerca de R$ 2 bilhões, de acordo com o jornal O Globo. Já a Lojas Americanas estaria preparando uma oferta de ações que poderá movimentar até R$ 7 bilhões, de acordo com o Brazil Journal.
As ações das duas empresas têm tido desempenhos opostos na bolsa neste ano. Os papéis PN do Bradesco (BBDC4) amargam perdas de 34% desde o começo de 2020, enquanto os ONs (BBDC3) recuam 26% — o setor bancário como um todo têm tido quedas expressivas, afetados pela crise do coronavírus e pela percepção de aumento na concorrência com fintechs e bancos digitais.
Já Lojas Americanas PN (LAME4) sobe 20% desde o começo do ano, surfando a onda positiva das empresas de e-commerce, que passaram por um boom na demanda a partir da crise da Covid-19 e do fechamento do comércio físico.
Agenda pouco movimentada
Questões políticas, no entanto, não são as únicas a movimentar a bolsa nesta semana. Em termos de agenda econômica no Brasil, os dados a serem divulgados nos próximos dias são poucos, mas importantes:
- Quarta-feira (8): Vendas no varejo em maio
- Sexta-feira (10): IPCA em junho e volume de serviços em maio
Os dados de vendas no varejo e volume de serviços são importantes para mostrar se a tendência indicada pela produção industrial — alta de 7% em relação a abril — realmente configura um início de recuperação da economia brasileira, após dois meses bastante delicados em termos de atividade doméstica.
Caso o varejo e os serviços mostrem uma trajetória semelhante à indústria, os investidores podem reagir com otimismo: afinal, no mundo todo, os dados começam a mostrar um viés de recuperação do nível da atividade — tendência que pode ganhar ainda mais força com a reabertura das economias.
Outro destaque da agenda local é a inflação medida pelo IPCA em junho: em linhas gerais, o cenário ainda é de baixíssima pressão inflacionária, embora já apareçam alguns sinais de ligeira alta nos preços no país. Assim, é preciso ficar atento ao resultado do indicador e às eventuais implicações dele para a Selic.
Na última reunião, o Copom deixou a porta aberta para mais um eventual corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros, a 2% ao ano, a depender do comportamento da economia e da evolução do coronavírus no Brasil e no mundo. Caso a inflação comece a acelerar, é possível que o BC encerre o ciclo de alívio monetário sem essa última redução.
Se for esse o caso, um ajuste nas curvas de juros de curto prazo precisará ser feito, já que, atualmente, a maior parte do mercado aposta no corte adicional de 0,25 ponto — o DI com vencimento em janeiro de 2021 está em 2,07%. Mas, se a inflação vier sob controle, a tendência é que essa curva se aproxime ainda mais dos 2%.
E o exterior?
Lá fora, novidades a respeito dos atritos comerciais entre EUA e China podem mexer com o humor dos investidores, assim como possíveis novas evidências em relação ao desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus — ou, no outro extremo, eventuais constatações de que uma segunda onda da Covid-19 está ganhando força.
Em termos de agenda, não há grandes destaques no exterior nos próximos dias:
- Segunda-feira (6)
- EUA:
- PMI composto e do setor de serviços em junho
- Índice de tendência de emprego em junho
- Índice ISM de atividade no setor de serviços em junho
- Zona do euro:
- Vendas no varejo em maio
- Alemanha:
- Encomendas à indústria em maio
- EUA:
- Terça-feira (7)
- EUA:
- Relatório Jolts do Departamento do Trabalho em maio
- China:
- Reservas internacionais em junho
- Alemanha:
- Produção industrial em maio
- EUA:
- Quarta-feira (8)
- EUA:
- Dados do Fed sobre crédito ao consumidor em maio
- China:
- Inflação em junho
- EUA:
- Quinta-feira (9)
- EUA:
- Novos pedidos de auxílio-desemprego na semana até 4/7
- Zona do euro:
- Coletiva de imprensa após reunião do Eurogrupo
- Alemanha:
- Balança comercial em maio
- EUA:
- Sexta-feira (10)
- EUA:
- Inflação ao produtor em junho
- EUA:
Nos EUA, dados de atividade em junho podem dar um panorama mais atualizado a respeito da situação econômica do país e se, de fato, há uma recuperação robusta em andamento por lá. Indicadores do mercado de trabalho também podem mexer com as negociações, considerando a queda na taxa de desemprego vista nos últimos meses.
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