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Victor Aguiar

Victor Aguiar

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.

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Os segredos da bolsa: Brasília volta a mexer com o mercado de ações

Declarações recentes do ministro da Economia, Paulo Guedes, podem inspirar cautela entre os investidores e afetar uma categoria específica de ações na bolsa. O noticiário corporativo intenso também tende a fazer preço por aqui

Victor Aguiar
Victor Aguiar
6 de julho de 2020
5:30 - atualizado às 15:58
segredos da bolsa
Imagem: Shutterstock

O amargo primeiro semestre chegou ao fim, mas a bolsa brasileira fechou o mês de junho com um gosto não tão ruim na boca: o Ibovespa ainda acumula perdas expressivas no ano, mas, ao menos, conseguiu se distanciar das mínimas — e a recuperação continuou em andamento, ao menos neste início de julho.

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Na última sexta-feira (3), o principal índice da bolsa marcava 96.764,87 pontos, o maior nível em quase um mês. O Ibovespa, assim, acumulou ganhos de mais de 3% somente na semana passada, aproximando-se cada vez mais do patamar dos 100 mil pontos — e tudo isso apesar da pandemia de coronavírus, que continua a todo vapor no mundo.

Nesta segunda-feira, os mercados exibem força, após sinais positivos da economia chinesa indicarem que a potência asiática está se recuperando mais rápido do que o esperado. Na Ásia, o rali nas bolsas chinesas puxou os demais índices. Na Europa, os negócios também exibem força. Os índices futuros em Nova York também operam em alta firme, após a pausa para o feriado na sexta-feira.

E se nem mesmo a Covid-19 é capaz de frear o ímpeto dos mercados, o que poderia desencadear um surto de cautela entre os investidores? É uma pergunta difícil, já que BCs e governos parecem jogar a favor dos agentes financeiros: sempre que um princípio de turbulência começa a se formar, logo surge um pacote de estímulo ou uma injeção de liquidez para acalmar a tempestade.

Pois bem: repare que eu disse que BCs e governos 'parecem' jogar a favor do mercado. Aqui no Brasil, o noticiário político — sempre ele — traz um elemento que pode frear a recuperação das bolsas, impactando uma classe específica de ações: as pagadoras de dividendos.

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Tudo isso porque, na noite da última sexta-feira (3), o ministro da Economia, Paulo Guedes, deu uma declaração que deixa pouca margem para interpretação. Num evento promovido pela Associação Brasileira de Indústria de Base (Abdib), ele disse que o governo incluirá um imposto sobre dividendos na reforma tributária.

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"Não quero tributar empresa, mas se o dinheiro sair para o acionista, aí você tributa o dividendo. Não é possível que alguém pague zero sobre dividendo enquanto o trabalhador paga 27,5%", disse Guedes.

A possibilidade de taxação de dividendos já tinha sido abordada pelo governo em outras ocasiões — e, em todas elas, a questão gerou polêmica no mercado financeiro. Há quem defenda o mérito da não-imposição de novos impostos às empresas, mas também há quem fique aborrecido com essa perspectiva, especialmente investidores e companhias cuja estratégia depende do pagamento de proventos.

Dito tudo isso, é de se esperar uma reação negativa nas ações das chamadas 'boas pagadoras de dividendos' — caso de empresas do setor elétrico, de energia, de saneamento e, em alguns casos, do segmento financeiro, apenas para citar algumas.

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Em geral, tais companhias possuem uma certa previsibilidade em sua geração de receita e em seu balanço como um todo — o setor elétrico é um caso clássico, já que, muitas vezes, possuem contratos fechados para a prestação de seus serviços no longo prazo. Assim, um jeito de atrair investidores é destinar grande parte de seu lucro na forma de dividendos.

Obviamente, essa estratégia não deixaria de ser válida num cenário em que esse tipo de provento é tributado. No entanto, o artifício certamente ficaria menos atrativo — e, considerando a tendência do mercado de se antecipar ao noticiário, poderemos ter alguns movimentos intensos nesses papéis.

Também é preciso ficar atento a eventuais novas declarações de Guedes ou de outros membros do governo: quaisquer tentativas de relativização do discurso — o que também não seria inédito — podem aliviar a pressão sobre as ações dessas companhias.

Bradesco e Lojas Americanas

No lado corporativo, sai a temporada de balanços, entra a temporada de rumores: as ações do Bradesco e das Lojas Americanas devem ter um início de semana bastante intenso, na esteira do noticiário envolvendo potenciais aquisições e ofertas.

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O Bradesco estaria na reta final para comprar uma fatia do banco digital C6 Bank, numa transação de cerca de R$ 2 bilhões, de acordo com o jornal O Globo. Já a Lojas Americanas estaria preparando uma oferta de ações que poderá movimentar até R$ 7 bilhões, de acordo com o Brazil Journal.

As ações das duas empresas têm tido desempenhos opostos na bolsa neste ano. Os papéis PN do Bradesco (BBDC4) amargam perdas de 34% desde o começo de 2020, enquanto os ONs (BBDC3) recuam 26% — o setor bancário como um todo têm tido quedas expressivas, afetados pela crise do coronavírus e pela percepção de aumento na concorrência com fintechs e bancos digitais.

Já Lojas Americanas PN (LAME4) sobe 20% desde o começo do ano, surfando a onda positiva das empresas de e-commerce, que passaram por um boom na demanda a partir da crise da Covid-19 e do fechamento do comércio físico.

Agenda pouco movimentada

Questões políticas, no entanto, não são as únicas a movimentar a bolsa nesta semana. Em termos de agenda econômica no Brasil, os dados a serem divulgados nos próximos dias são poucos, mas importantes:

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  • Quarta-feira (8): Vendas no varejo em maio
  • Sexta-feira (10): IPCA em junho e volume de serviços em maio

Os dados de vendas no varejo e volume de serviços são importantes para mostrar se a tendência indicada pela produção industrial — alta de 7% em relação a abril — realmente configura um início de recuperação da economia brasileira, após dois meses bastante delicados em termos de atividade doméstica.

Caso o varejo e os serviços mostrem uma trajetória semelhante à indústria, os investidores podem reagir com otimismo: afinal, no mundo todo, os dados começam a mostrar um viés de recuperação do nível da atividade — tendência que pode ganhar ainda mais força com a reabertura das economias.

Outro destaque da agenda local é a inflação medida pelo IPCA em junho: em linhas gerais, o cenário ainda é de baixíssima pressão inflacionária, embora já apareçam alguns sinais de ligeira alta nos preços no país. Assim, é preciso ficar atento ao resultado do indicador e às eventuais implicações dele para a Selic.

Na última reunião, o Copom deixou a porta aberta para mais um eventual corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros, a 2% ao ano, a depender do comportamento da economia e da evolução do coronavírus no Brasil e no mundo. Caso a inflação comece a acelerar, é possível que o BC encerre o ciclo de alívio monetário sem essa última redução.

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Se for esse o caso, um ajuste nas curvas de juros de curto prazo precisará ser feito, já que, atualmente, a maior parte do mercado aposta no corte adicional de 0,25 ponto — o DI com vencimento em janeiro de 2021 está em 2,07%. Mas, se a inflação vier sob controle, a tendência é que essa curva se aproxime ainda mais dos 2%.

E o exterior?

Lá fora, novidades a respeito dos atritos comerciais entre EUA e China podem mexer com o humor dos investidores, assim como possíveis novas evidências em relação ao desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus — ou, no outro extremo, eventuais constatações de que uma segunda onda da Covid-19 está ganhando força.

Em termos de agenda, não há grandes destaques no exterior nos próximos dias:

  • Segunda-feira (6)
    • EUA:
      • PMI composto e do setor de serviços em junho
      • Índice de tendência de emprego em junho
      • Índice ISM de atividade no setor de serviços em junho
    • Zona do euro:
      • Vendas no varejo em maio
    • Alemanha:
      • Encomendas à indústria em maio
  • Terça-feira (7)
    • EUA:
      • Relatório Jolts do Departamento do Trabalho em maio
    • China:
      • Reservas internacionais em junho
    • Alemanha:
      • Produção industrial em maio
  • Quarta-feira (8)
    • EUA:
      • Dados do Fed sobre crédito ao consumidor em maio
    • China:
      • Inflação em junho
  • Quinta-feira (9)
    • EUA:
      • Novos pedidos de auxílio-desemprego na semana até 4/7
    • Zona do euro:
      • Coletiva de imprensa após reunião do Eurogrupo
    • Alemanha:
      • Balança comercial em maio
  • Sexta-feira (10)
    • EUA:
      • Inflação ao produtor em junho

Nos EUA, dados de atividade em junho podem dar um panorama mais atualizado a respeito da situação econômica do país e se, de fato, há uma recuperação robusta em andamento por lá. Indicadores do mercado de trabalho também podem mexer com as negociações, considerando a queda na taxa de desemprego vista nos últimos meses.

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