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Ivan Sant’Anna
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Ivan Sant’Anna
É trader no mercado financeiro e autor da Inversa
2020-09-18T11:24:06-03:00
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Dona Cida, Bolsonaro e como proteger seus investimentos da inflação

Inflação é assim. Basta assobiar que ela vem. Se o Planalto começar a interferir na economia, pode ter certeza, prezado leitor, que a teoria liberal foi substituída pelo populismo a qualquer preço

17 de setembro de 2020
5:59 - atualizado às 11:24
arroz moeda
Imagem: Shutterstock

Dona Maria Aparecida de Souza Santos, a Cida, 31, mora com as quatro filhas pequenas numa casinhola de dois cômodos incômodos no distrito de Córrego das Cobras, periferia de Sussuapara, no Piauí.

A caçula tem 5 anos. Já a primogênita, 11. O pai não conhece a menorzinha pois se mandou para o Sul Maravilha (Ave, Henfil) antes dela nascer. Nunca mais deu notícia.

O terreiro da casa é amplo. Mas a qualidade do solo, ruim. Mesmo assim dá pra plantar uma roça de mandioca, feijão e milho.

Se chove antes do dia de São José (19 de março), é sinal de que vai dar pra colher. Caso venha a seca, perde tudo que semeou.

Ah, antes que eu me esqueça: as meninas têm também a merenda da escola, que às vezes tem até carne de gado.

Um dia o presidente Lula criou o programa Bolsa Família, substituindo e ampliando o Fome Zero, promessa de campanha.

Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro, nenhum deles teve coragem de acabar com aquela renda mínima, coisa pouca, mas que garantia a subsistência. Muito menos pensaram, tal como Franklin Delano Roosevelt, nos Estados Unidos, em 1933, quando implantou o New Deal, em incentivos para que as pessoas trocassem a Bolsa por um trabalho, ganhando no mínimo umas cinco vezes mais.

Bastou Dilma insinuar que seus adversários iriam acabar com o Bolsa Família, tirando a comida da panela do povo, para se reeleger em 2014, apesar da carestia que ensaiava voltar.

Quando o capitão-deputado Jair Bolsonaro se elegeu presidente, com os votos do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, prometendo uma limpa na corrupção, o sertão pobre nordestino se assustou:

“Será que a gente vai voltar a passar fome, que nem como era antes?”, sentados numa cadeira do lado de fora da casa, vizinhos compartilhavam seus temores.

Veio então a Covid-19, que começou na cidade de Wuhan, província de Hubei, interior da China, e se espalhou pelo mundo.

A maioria dos países, tanto ricos quanto pobres, passou a distribuir dinheiro para a população.

Aqui no Brasil, as famílias sem recursos tiveram direito a 600 reais por mês. Se fossem chefiadas por uma mulher, o dobro: 1.200.

Para dona Maria Aparecida de Souza Santos, aquilo era o mesmo que enricar. Nunca pensou que pudesse pôr a mão em tanto dinheiro. Mesmo que o auxílio só fosse durar três meses, após os quais cairia. Pela metade, era o que as pessoas diziam. Depois acabaria e viria um tal de Renda Brasil que ninguém tinha noção de quanto seria.

Pobre, gente que já penou só de imaginar o que comeria no dia seguinte, isso em época de estiagem braba, jamais pensa a longo prazo. Muito menos seis meses.

Dona Maria foi no mercado e comprou um saco de cinco quilos de arroz. Ah, pegou também um pacote de biscoitos recheados para as crianças e um baita pedaço de carne seca. E ainda sobrou muito dinheiro. Sendo ajuizada, daria para um ano sem passar privações.

São tantas as Cidas no Brasil que a popularidade do presidente da República disparou. Melhor: disparou logo no curral eleitoral dos “esquerdopatas”, que é como os seguidores de Bolsonaro classificam os adversários.

Aquele sorriso que Jair escancara para todo mundo, escancarou para ele mesmo na intimidade do espelho de um dos banheiros do Alvorada.

É lógico que gostou. Gostou tanto que passou a lançar pedras fundamentais de obras que Lula, Dilma e Temer lançaram antes e nenhum deles concluiu.

Uma delas, a transposição das águas do Velho Chico, vem desde a época do imperador Dom Pedro II.

Em plena lua de mel do presidente da República com a plebe ignara, os jornais noticiaram que o preço do arroz disparou. Pior, começou a faltar nas gôndolas dos supermercados, que tiveram de estipular uma cota máxima para cada comprador.

Pudera, diria um primeiro-anista de Economia, em plena entressafra do produto, surgem centenas de milhares de famílias comprando arroz com o dinheiro do auxílio emergencial.

Que fez o capitão-presidente Jair Bolsonaro?

Primeiro apelou para o patriotismo dos donos de supermercado. Pediu a eles que vendessem arroz sem margem de lucro ou com margem próxima de zero.

Não ocorreu a Bolsonaro que, nos dois primeiros meses da pandemia, os supermercados ficaram quase desertos. Muito menos que os produtos alimentícios tivessem derrubado a inflação naquela época, em função da baixa demanda, com quase todo mundo trancado em casa.

Como, aparentemente, o apelo não surgiu efeito, o presidente da República chamou a palácio o presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), João Sanzovo Neto, cobrando providências para baixar o preço do arroz.

Não ficou apenas nisso. O Ministério da Justiça, através da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), notificou supermercados e produtores de arroz, dando-lhes um prazo para explicar o motivo da alta.

Quando técnicos do ministério da Economia reclamaram dessa atitude, Bolsonaro cortou-lhes a palavra: disse que foi consultado pelo ministro da Justiça, André Mendonça, e autorizou a notificação aos supermercados.

Em algum momento, alguém deve ter dito ao presidente que parte da alta dos alimentos se devia à subida do dólar, já que esses produtos obedecem à cotação internacional e que alguns fertilizantes são importados.

Que fez Bolsonaro?

Chamou Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, perguntando o que o governo federal poderia fazer para que o dólar não subisse tanto.

A implicância mais recente do capitão é contra a alta dos preços de materiais de construção. Não lhe ocorre que é justamente o auxílio emergencial que faz com que as pessoas comprem alguns tijolos e sacos de cimento para, quem sabe, ampliar um pouco suas casas ou fazer um puxadinho no terraço.

Vejam o problemão causado por dona Maria Aparecida de Souza Santos, nossa querida Cida, de Córrego das Cobras. Ao mesmo tempo, ela está desestabilizando o livre mercado e a autonomia operacional do Banco Central do Brasil.

Pior: tudo isso faz subir o dólar, realimentando a chama, ainda pequena, de um embrião inflacionário.

Dos leões ao cruzado

Certa ocasião, na época do Império Romano, os césares passaram a usar estanho ao invés de prata para cunhar moedas. Resultado: com a expansão monetária, os preços dos alimentos e outros bens de consumo subiram.

Para sanar o problema, suprimiram o estanho (o que equivaleria a uma medida hawkish por parte do FOMC ou do COPOM)? Não. Suprimiram alguns comerciantes, lançando-os aos leões no Coliseu. E a inflação continuou, já que era provocada pelo excesso de compras das donas de casa, as Cidas romanas.

Por ocasião das Grandes Descobertas, em meados do Segundo Milênio, galeões espanhóis, portugueses, ingleses e holandeses começaram a chegar aos portos europeus abarrotados de ouro e prata do Novo Mundo.

Evidentemente a base monetária se expandiu, provocando alta nos preços. Só que a culpa recaiu sobre os judeus, boa parte deles comerciantes, que foram queimados na fogueira em praça pública.

Meio século mais tarde, em 1970, o presidente americano Richard Nixon decidiu extinguir uma inflação de 5,8% ao ano congelando salários e preços. Não funcionou. Houve câmbio negro.

No Brasil, após o choque do petróleo ocasionado pela guerra do Yom Kippur (outubro de 1973), aconteceu de tudo para debelar, ou mascarar, a inflação. O ministro Delfim Neto, por exemplo, era rei nessas artimanhas. A inflação subiu por causa do tomate? Simples: tira-se o tomate da lista dos componentes do IPC.

Em 1973, Delfim apelou para a heterodoxia total. Descrevo isso na página 25 de meu livro Caixa-preta, ao retratar a época.

“O feijão uberabinha não parava de subir. Faltava carne nos açougues e supermercados. O boi sumira. Culpa da entressafra, justificava o ministro da Fazenda, Delfim Neto, em entrevistas nas quais ameaçava os pecuaristas de mandar confiscar os animais no pasto.

Não se sabia exatamente se por causa do uberabinha, ou por culpa do boi, o certo é que a inflação no semestre fora de 6,8%, pondo em risco a meta de inflação daquele ano, fixada em 12%. Isso assustara o governo. Mas não por muito tempo. Delfim determinara, nos primeiros dias de julho, que a inflação total de 1973 ‘fora’ de 12%.”

Poucas vezes o país agrediu tanto a lei da oferta e procura como por ocasião do Plano Cruzado, em 1986, decretado pelo presidente José Sarney.

Naquela oportunidade, em função de um congelamento de salários e preços, que fez a demanda por tudo disparar, aconteceram fenômenos como:

  • Carros usados negociados por preços maiores do que os zero quilômetro.
  • Índices ocultos de inflação, que passou a ser medida extraoficialmente pela cotação do dólar no mercado paralelo.
  • Confisco de bois no pasto.
  • Gôndolas de supermercados totalmente vazias.
  • Um gigantesco mercado negro de praticamente tudo.

Resultado: quando, em 15 de março de 1990, Sarney passou a faixa presidencial para Fernando Collor de Mello, a inflação era de 82,39% ao mês, o que equivalia a 135.422,77% ao ano.

Duvido que voltaremos a testemunhar tal exagero. Mas vale lembrar que os períodos inflacionários se iniciam quando os governos passam a ignorar as leis de mercado e implicar com coisas tais como a alta do arroz.

Proteções para os investimentos

Para os investidores, há defesas. Uma delas é só adquirir títulos de renda fixa se a taxa for pós fixada. Outra é comprar ações de empresas exportadoras de matérias-primas que o Brasil tem de sobra.

Minério de ferro, por exemplo, jamais será tabelado, pelo menos aqui, pois somos os segundos maiores produtores mundiais.

Nos próximos dias é importante ficar de olho nas atitudes do governo. Se o Planalto começar a interferir na economia, pode ter certeza, prezado leitor, que a teoria liberal foi substituída pelo populismo a qualquer preço.

Inflação é assim. Basta assobiar que ela vem.

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