Sistema no Japão é corrupto e definiu minha culpa desde o primeiro dia, diz Carlos Ghosn, após fugir do país
É a primeira vez que o brasileiro se pronuncia à imprensa desde que fugiu do país asiático para o Líbano, no último dia 30

O ex-executivo da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, disse que o sistema judiciário do Japão é corrupto e que a culpa dele estava definida "desde o primeiro dia". É a primeira vez que o brasileiro se pronuncia à imprensa desde que fugiu do país asiático para o Líbano, no último dia 30.
“[Fugir do Japão] Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida, mas estava enfrentando um sistema onde a condenação é de 99,99%”, disse o executivo. "As alegações são falsas e eu não devia ter sido preso".
Carlos Ghosn foi preso no Japão, mas pagou fiança e aguardava julgamento em uma espécie de prisão domiciliar. Ele estava submetido a uma boa dose de vigilância e devia seguir uma série de regras. Entre elas, a proibição de viajar para fora do país.
O executivo enfrenta quatro acusações, incluindo ocultação de renda e enriquecimento irregular. Carlos Ghosn nega as acusações. Segundo seus advogados, os promotores conspiraram com funcionários do governo e executivos da Nissan para tentar prejudicá-lo.
Nesta quarta-feira, o brasileiro reafirmou a linha de defesa que acusa complô envolvendo os executivos. "Único jeito de a Nissan se livrar da influência da Renault era se livrar de mim", disse.
Segundo o executivo, a estratégia deu resultado, no sentido de que hoje a Renault tem muito pouca informação sobre o que acontece no dia a dia da Nissan. "Mas o resultado não foi o que eles esperavam", disse Ghosn, referindo-se aos resultados em queda da montadora japonesa, que atualmente caminham para o pior resultado em 11 anos.
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Ghosn também afirmou que ele não tinha ideia de que a Nissan fazia uma investigação contra ele ou que existisse a possibilidade de ser preso. "Uma vez um jornalista americano me perguntou como eu não consegui prever isso. E eu respondi: vocês também não conseguiram prever (o ataque) a Pearl Harbor."
Segundo Ghosn, a aliança entre Nissan e Renault hoje é uma "farsa". O executivo disse que queria formar uma holding que unisse as duas companhias, com apenas um conselho de administração, mas com marcas e corpos executivos separados. De acordo com ele, tratava-se de um "meio de campo" entre a fusão total que queria a Renault e a resistência de união da Nissan.
Embora desde sua prisão as empresas tenham se reorganizado, buscando decisões em consenso, o executivo lembrou que somente a busca de um acordo não leva a decisões corporativas rápidas. Ele frisou que, em algum nível, o trabalho em conjunto precisa ser uma obrigação para os envolvidos.
"Eu acredito que a aliança entre a Renault e a Nissan pode ter êxito, mas não só com consenso, é necessário que se criem regras", afirmou Ghosn. "E para saber que quem tem ou não razão nesses casos, basta olhar os resultados da companhia."
O executivo afirmou que estava em negociações avançadas para promover uma fusão entre a Renault-Nissan e a FiatChrysler na época em que foi preso. "Foi uma grande oportunidade perdida para eles, eu não entendo como eles conseguiram perder essa chance."
Para ele, foi um grande desperdício para a Renault-Nissan, uma vez que as companhias tinham perfil complementar. "Vai ser muito bom para a PSA (grupo francês dono da Peugeot e da Citroën)."
Histórico
Ghosn foi preso há 13 meses, em novembro de 2018, ao voltar ao Japão depois de um compromisso internacional. Após ser interrogado pela promotoria japonesa durante seis horas, o executivo foi levado ao centro de detenção de Kouchisho, nos arredores de Tóquio. Na época, a Justiça japonesa afirmou que Ghosn teria deixado de declarar US$ 44 milhões de sua renda.
Foi uma grande reviravolta na relação do executivo com o Japão. Antes de se tornar acusado de crimes de corrupção, ele era celebrado como um herói nacional, virando até personagem de mangá. Isso porque, antes de Ghosn ter arquitetado a fusão com a Renault, a Nissan era um negócio à beira da falência. Para completar, o executivo trouxe a Mitsubishi para a aliança, em 2016.
O executivo ficou preso por meses em uma cela de dez metros quadrados, cujas luzes eram acesas às 7h e invariavelmente se apagavam às 21h. Era nesse local que ele passava o dia todo, à exceção de 30 minutos que tinha para se exercitar.
O tratamento de choque da Justiça japonesa - que não precisa apresentar documentos para prender suspeitos uma vez que a promotoria decide denunciar uma pessoa - tem o objetivo de pressionar os acusados a confessar o crime.
Ghosn, porém, não foi persuadido. Pelo contrário: sempre negou as acusações. Ele saiu da prisão no dia 6 de março, após três meses e meio, mas voltou a ser detido por mais três semanas. Desde 25 de abril de 2019, encontrava-se em prisão domiciliar.
Desde então, a família tentava buscar apoio internacional para sua defesa. Em entrevista ao Estado, Carole Ghosn chegou a pedir a intervenção do presidente Jair Bolsonaro, que nunca veio. A França também optou por uma posição mais neutra em relação ao assunto. Os maiores sinais de apoio vieram sempre do Líbano.
Fuga
Após oito meses em prisão domiciliar, morando em uma residência de alto padrão no centro de Tóquio, Ghosn empreendeu a fuga para Beirute. O que se sabe, até agora, é que Ghosn deixou a residência a pé, sendo captado pela última vez pelas câmeras de segurança no dia 29 de dezembro.
A partir desse momento, diferentes versões começam a aparecer. A mais aceita é a que Ghosn teria seguido então de trem até o aeroporto de Osaka - a mais de 400 km de Tóquio -, onde embarcou em um jato particular rumo a Istambul, na Turquia, e depois para Beirute, no Líbano.
Caso tenha feito a viagem de trem tenha sido mesmo realizada, ela evidenciaria outro "furo" das autoridades japonesas, que ainda não conseguiu explicar como o executivo passou, identificando-se ou não, pela checagem de segurança do aeroporto de Osaka.
Ghosn viajou em dois jatos fretados da empresa turca MNG. A companhia diz que não tinha conhecimento do uso das aeronaves pelo ex-chefe da Renault-Nissan e acusou um funcionário de ter falsificado documentos para ocultar o nome de Ghosn como passageiro. O governo turco, no entanto, determinou a prisão de cinco pessoas supostamente envolvidas no caso.
A MNG é conhecida no mercado de aviação executiva como uma empresa que fecha os olhos para os negócios de seus clientes. Transportou, por exemplo, grande quantidade de ouro para a Venezuela para compensar a falta de liquidez financeira no país.
Empresa
A prisão de Ghosn, em novembro de 2018, ocorreu dias antes de uma reunião em que os termos da fusão entre a Renault e a Nissan seriam rediscutidos. O executivo era favorável a uma fusão irreversível das duas empresas.
A Nissan era contra esse acordo, uma vez que queria ganhar mais poder dentro da aliança (a Renault tem 40% das ações da Nissan, mas a japonesa possui apenas 15% dos papéis da francesa). Nos anos que antecederam a prisão de Ghosn, a Nissan vinha dando resultados melhores do que a Renault.
Toda a polêmica envolvendo Ghosn e outros executivos não tem feito bem à Nissan, que deve fechar o ano de 2019 com o menor lucro em 11 anos. No terceiro trimestre, a empresa reportou uma queda de 70% nos resultados, frustrando expectativas. As vendas da companhia estão no menor patamar em seis anos e suas ações caíram mais de 20% no último ano.
Críticas injustificadas
Autoridades japonesas disseram que Ghosn é o único culpado por seus problemas e classificaram as críticas dele à Justiça do Japão como injustificadas.
O vice-promotor-chefe de Tóquio, Takahiro Saito, disse que as alegações de Ghosn em uma conferência de imprensa no Líbano "falharam em justificar seus atos". Ghosn "ignorou flagrantemente a lei japonesa para evitar as consequências dos crimes que cometeu", disse Saito em comunicado.
*Com Estadão Conteúdo e Dow Jones Newswires.
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