Vai uma cautela aí? Dólar sobe a R$ 5,32 e bolsa cai 1,7% com tensão externa
Dólar salta mais de 3% com medo de segunda onda do coronavírus e tarifas dos EUA sobre Europa e Reino Unido; Ibovespa limita perdas e juros sobem

Não foi um dia fácil nos mercados — e as performances de bolsa e dólar por aqui deixam isso claro.
As notícias sobre um repique de casos de coronavírus nos Estados Unidos e na Europa já tinham colocado os investidores em modo alerta. Adicione a isso, ainda por cima, a possibilidade de uma tarifação por parte do país americano a mercadorias da União Europeia e do Reino Unido.
Como era de se esperar, essa mistura dá origem a uma receita azeda. Foram esses elementos que guiaram a sessão tensa de hoje. E o cenário doméstico, em que figura a discussão sobre o marco legal do saneamento, uma espécie de reinício da pauta econômica no Congresso, ficou de lado. O que dominou foi o humor externo, em que imperou a aversão ao risco.
O dólar reagiu ao "risk-off" e teve uma sessão de ganhos elevados. A moeda operou em alta durante todo o pregão e fechou perto das máximas, em alta de 3,33%, cotada a R$ 5,32.
No exterior, as moedas emergentes também tiveram um desempenho negativo frente ao dólar — que vira uma das alocações preferenciais dos investidores em ambientes de alto risco.
Divisas consideradas pares do real, como o peso mexicano, o rublo russo e o rand sul-africano, operaram no vermelho, embora as perdas fossem percentualmente bem menores que as da moeda brasileira.
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"A aversão ao risco com o coronavírus aumenta a percepção de risco e penaliza a moeda", diz Camila Abdelmalack, economista da Veedha Investimentos.
Em junho, o dólar ainda tem uma ligeira queda, de 0,30%. No ano, a moeda marca incríveis 32,69% de alta.
Bolsa limita perdas
O Ibovespa iniciou o pregão já no campo negativo, e, depois, sofreu perdas adicionais, refletindo o mercado internacional. Por volta das 12h45, chegou à mínima de 2,83% de queda, aos 93.259,07 pontos.
Às 15h20, o principal índice acionário da B3 já havia mitigado o tombo, caindo 1,77%, operando acima do patamar de 94 mil pontos. A toada foi mantida até o fim do pregão, e a bolsa fechou o dia em queda de 1,66%, aos 94.377,36 pontos.
"A volatilidade hoje subiu bastante. Sinal de que os investidores correram para realizar lucros e buscar proteção", diz Raphael Figueredo, sócio-analista da Eleven Financial Research.
Figueiredo também indicou que as duas notícias — do aumento de casos do coronavírus e de possíveis tarifas — que reacenderam a cautela fizeram o mercado "queimar a gordura" que adquiriu durante o último rali. "A 'cara' do mercado me parece querer convergir um pouco para realidade da economia real", afirmou.
Lá fora, os índices americanos tiveram fortes quedas. O S&P 500 caiu 2,59%, para 3.050,33 pontos; o Dow Jones, 2,72%, para 25.445,94 pontos; o Nasdaq, 2,19%, para 9.909,17 pontos.
Cielo sofre com decisão do BC
As ações da Cielo tiveram forte queda nesta quarta, após a suspensão do sistema de pagamentos e transferências por WhatsApp por parte do Banco Central. A iniciativa, em tese, beneficiaria a empresa de serviços financeiros.
Os papéis, inclusive, chegaram a entrar em leilão por volatilidade maior que a permitida pela B3. No fim, terminaram liderando as perdas percentuais do índice: despencaram 12,96%, para R$ 4,70.
Veja abaixo as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa nesta quarta-feira:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| MRFG3 | Marfrig ON | 12,91 | +3,28% |
| BTOW3 | B2W ON | 106,27 | +2,88% |
| KLBN11 | Klabin units | 20,48 | +2,55% |
| SBSP3 | Sabesp ON | 60,07 | +2,33% |
| BEEF3 | Minerva ON | 13,15 | +1,62% |
Veja também as cinco maiores quedas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| CIEL3 | Cielo ON | 4,70 | -12,96% |
| GOLL4 | Gol PN | 18,24 | -8,34% |
| AZUL4 | Azul PN | 21,10 | -6,22% |
| YDUQ3 | Yduqs ON | 35,13 | -5,18% |
| EMBR3 | Embraer ON | 8,09 | -5,05% |
Juros sobem
Os juros futuros dos contratos de depósitos interbancários também reagiram ao cenário de estresse no exterior, no caso, com um movimento de alta.
O movimento mais forte se viu tanto nos vértices mais curtos quanto nos mais longos, como fica evidenciado nas cotações dos contratos de vencimentos para janeiro de 2021 e para janeiro de 2025.
"O medo da segunda onda da covid-19 nos EUA e na Europa é grande, uma vez que não temos vacina no curto prazo e nenhum medicamento assim tão eficaz contra o vírus", diz Paulo Nepomuceno, analista de renda fixa da Terra Investimentos.
Nepomuceno pondera, no entanto, que, dado o "nervosismo do dólar", os juros até que se "comportaram bem".
Segundo ele, a ponta curta dos juros apresenta ainda uma tensão particular, além do cenário externo: o possível corte derradeiro na Selic.
- Janeiro/2021: de 2,035% para 2,050%;
- Janeiro/2022: de 3,02% para 3,07%;
- Janeiro/2023: de 4,13% para 4,22%;
- Janeiro/2025: de 5,83% para 5,96%.
Comércio, coronavírus e FMI
Pela manhã, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) informou que o governo estuda impor novas tarifas a US$ 3,1 bilhões em exportações da União Europeia e do Reino Unido.
A sobretaxa é uma resposta à longa disputa travada entre os EUA e a UE na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre os subsídios concedidos pela UE à fabricante de aviões Airbus. Para o governo americano, a medida prejudica a Boeing.
Do lado do coronavírus, há o temor de uma segunda onda. Isto porque algumas regiões dos Estados Unidos e da Alemanha têm apresentado um aumento no número de casos após o relaxamento de medidas de isolamento.
Além disso, o cenário da economia real não parece nada bom. O Fundo Monetário Internacional cortou mais uma vez a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2020 — a expectativa de contração passou de 3% para 4,9%. Segundo a entidade, o PIB dos Estados Unidos deve cair 8%.
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