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2020-04-30T14:02:53-03:00
Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril.
Shopping centers

Presidente da Multiplan compara governadores a tiranos por medidas de isolamento

Para Jose Isaac Peres, fechamento de shopping centers por autoridades municipais e estaduais foi “arbitrário”, presidente não manda mais e governadores atuam como presidentes em ditaduras.

30 de abril de 2020
13:58 - atualizado às 14:02
Jose Isaac Peres
Jose Isaac Peres, presidente da Multiplan, empresa que administra o Barrashopping e outros 12 shoppings no País. - Imagem: Tasso Marcelo/ Estadão Conteúdo/AE

O presidente da operadora de shoppings Multiplan criticou, nesta quinta-feira (30), algumas das medidas de isolamento social impostas por prefeitos e governadores no combate à pandemia de coronavírus no país.

Ao comentar os resultados da companhia do primeiro trimestre, Jose Isaac Peres disse que “os shoppings foram fechados arbitrariamente na metade de março” e que “curiosamente o presidente [Jair Bolsonaro] não manda mais”.

“Temos 27 governadores que atuam como se fossem presidentes e cerca de 6 mil prefeitos que são como subpresidentes”, disse, durante teleconferência de resultados a investidores e analistas.

Mais adiante, disse ainda que é como se o país estivesse vivendo um regime ditatorial com “27 ditaduras”, referindo-se aos governadores, que estariam agindo como “tiranos”.

Isaac Peres se disse defensor do chamado isolamento vertical, em que apenas quem faz parte do grupo de risco para a doença faz quarentena. “Por razões políticas as coisas andaram dessa forma. E a consequência foi que o país parou de produzir”, disse.

Para ele, a “pandemia se tornou um pandemônio, uma loucura generalizada”, pois criou-se uma atmosfera de pânico e medo que deixa as pessoas “aprisionadas dentro de casa.”

As medidas de isolamento social impostas por governos municipais e estaduais a partir de março cobraram seu preço nos resultados da Multiplan, que teve queda nas vendas e nas receitas de aluguel pela primeira vez desde a sua abertura de capital.

A Multiplan foi a primeira operadora de shoppings a divulgar seus resultados do primeiro trimestre de 2020, já dando uma palinha do que vem por aí nos resultados das demais administradoras.

Até meados de março, a companhia se saiu bem, e no fim das contas viu crescimento de lucro líquido, receitas e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Mas a segunda quinzena de março pesou em alguns números, indicando o que estaria por vir.

As ações da companhia (MULT3) recuam quase 8% nesta quinta e arrastam consigo os demais papéis do segmento de shoppings. Acompanhe nossa cobertura completa de mercados.

Há demanda reprimida e pessoas “estão loucas para voltar”, diz Peres

Apesar do momento de crise, o presidente da Multiplan se mostrou confiante na retomada das atividades. Disse que há demanda reprimida e que a procura será “enorme” quando os shoppings puderem reabrir, porque os consumidores estariam ansiosos para que tudo volte ao normal. “As pessoas estão loucas de vontade de voltar aos shoppings”, disse.

A Multiplan está se preparando para retomar as atividades ainda em maio, com horário de funcionamento reduzido para um único turno, de meio-dia às 20 horas.

Para isso, contratou um infectologista para desenvolver um rígido protocolo de higiene e descontaminação. Serão instalados mais de mil pontos de álcool em gel e criados novos sistemas de circulação de ar, com ventiladores. Foram, ainda, adquiridas 100 mil máscaras e 25 mil testes de covid-19.

O uso de luvas pelos empregados será obrigatório, e o uso de máscaras, recomendado, podendo vir a ser obrigatório. Além disso, haverá controle do fluxo de pessoas e medição da temperatura dos empregados. Segundo a companhia, tudo com base em estudos técnicos.

“Imagino que, com todas essas medidas, vamos garantir a segurança de colaboradores e clientes e contribuir para que o país supere esse momento difícil”, diz o presidente.

Após o fechamento dos shoppings, a Multiplan viu um crescimento no uso da sua plataforma de e-commerce, o app Multi, mas Peres diz que as compras on-line são insignificantes frente ao que os shoppings vendem.

“Ajuda, mas shopping não é só local de compras. É também ponto de encontro, local de lazer, e agora as pessoas se veem privadas de um ambiente em que se acostumaram a conviver”, diz.

Os executivos da companhia acreditam que no início o movimento vai ser menor, mas que vai crescer gradualmente e retomar a normalidade no curto prazo. “Depois de dois, três meses, as pessoas vão ver que a coisa já voltou ao normal. O que é realmente dramático é a questão do desemprego”, diz Peres.

O presidente da Multiplan diz que de fato o desemprego vai impactar o poder de compra das pessoas e que a questão precisa ser endereçada pelo poder público.

“Lamento a miopia dos administradores públicos de não olhar essa questão do desemprego com a mesma preocupação da doença.”

Lojista tem dificuldade de obter crédito

O presidente da Multiplan se disse também preocupado com a questão do capital de giro para os lojistas. “Tenho falado com pequenos lojistas, e eles estão encontrando dificuldade de obter crédito”, disse Peres.

Para ele, essa é uma questão para a qual os governos precisam olhar, inclusive estados e prefeituras. “O crédito nessa hora é fundamental, é preciso que os bancos ajudem”, diz.

Perguntados se a companhia ainda teria fôlego para dar mais descontos de aluguéis aos lojistas se necessário, como já foi feito em março, os executivos foram tranquilizadores.

“Há uma quantidade de crédito enorme disponível no mercado, e a gente consegue ter acesso a financiamento se precisarmos”, disse Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente de Relações com Investidores.

No primeiro trimestre, a Multiplan já acessou uma linha de crédito de R$ 250 milhões para reforçar o caixa no enfrentamento à crise.

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