Embraer tem prejuízo de R$ 1,276 bilhão no 1º trimestre e vê sua receita encolher quase 8%
A Embraer reportou um prejuízo bilionário no primeiro trimestre deste ano, impactada por um aumento nas despesas. A receita e o desempenho operacional pioraram, pintando um quadro desfavorável para a companhia brasileira

O ano de 2020 tem sido duro para a Embraer: na bolsa, suas ações amargam baixa de mais de 60% do começo de janeiro para cá, impactadas pelo surto de coronavírus; no lado corporativo, o tão celebrado acordo com a Boeing ruiu aos 45 do segundo tempo; e, no lado financeiro, a empresa reportou há pouco uma perda bilionária no primeiro trimestre.
A fabricante de aeronaves teve um prejuízo líquido de R$ 1,276 bilhão nos primeiros três meses deste ano — uma cifra muito maior que a registrada há um ano, quando as perdas foram de R$ 155,9 milhões.
Mesmo em termos ajustados, a Embraer teve um prejuízo bastante significativo: excluindo-se o Imposto de Renda e contribuição social diferidos e outros itens especiais — como os relacionados à Covid-19 —, as perdas da companhia aumentaram 88,6% na base anual, para R$ 433,6 milhões.
Em termos de receita líquida, a situação não foi muito mais animadora: a Embraer fechou o primeiro trimestre com R$ 2,874 bilhões, cifra 7,91% menor que a registrada nos três primeiros meses de 2019. O resultado operacional (Ebit) ficou negativo em R$ 209,1 milhões — há um ano, estava negativo em R$ 53,7 milhões.
O Ebitda — isto é, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — chegou a R$ 47,6 milhões, recuando 60,4 milhões na mesma base de comparação. Com isso, as margens da Embraer pioraram bastante em um ano: a margem Ebit, agora, está negativa em 7,3%, enquanto a margem Ebitda caiu de 3,9% para 1,7%.
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Entendendo os números
Por que a Embraer teve um desempenho tão fraco no trimestre? Bem, em primeiro lugar, é preciso entender exatamente o que influenciou a empresa nos primeiros três meses do ano.
A começar pela receita: a aviação comercial — exatamente o segmento que era alvo da parceira com a Boeing — teve uma queda expressiva de participação: agora os setores de defesa e de serviços são mais importantes, em termos de vendas líquidas.
Indo aos números: as receitas no setor de aviação comercial somaram R$ 637,1 milhões no primeiro trimestre, uma queda de 40,2% na base anual — a aviação executiva teve receita de R$ 587,6 milhões (+30,7% em um ano) e o segmento de defesa e segurança respondeu por R$ 676,4 milhões (-0,5%). A linha de serviços e suporte totalizou R$ 966,6 milhões (+5%).
Boa parte desse efeito negativo sentido pela aviação comercial se deve ao menor número de entregas: apenas cinco aviões — no quarto trimestre de 2019, foram 35 aeronaves; no primeiro trimestre do ano passado, foram 11.
Além disso, chama a atenção o mix particularmente fraco visto entre janeiro e março de 2020: dos cinco aviões entregues, três são do tipo Embraer 175 — um modelo mais antigo e de menor valor. Os outros dois foram da geração E2, mais moderna e valiosa.
Malabarismo
A Embraer também fez alguma ginástica na maneira como lança seus despesas: a linha dos custos dos produtos vendidos e serviços prestados, por exemplo, caiu 18,4% em um ano, para R$ 2,039 bilhões — uma redução mais expressiva que a da receita líquida.
Assim, o lucro bruto da companhia chegou a R$ 835,4 milhões, alta de 34,3% na base anual — o que, consequentemente, provocou um avanço na margem bruta, que passou de 19,9% para 29,1%. Ótimo, não?
Bem, é preciso ter um pouco de calma antes de comemorar esse dado. A Embraer colocou boa parte de seus funcionários em licença remunerada em janeiro, num processo relacionado à segregação do negócio de aviação comercial. Em março, houve uma nova parada, desta vez por causadas paralisações das atividades em função da Covid-19.
Só que essas licenças remuneradas, obviamente, implicam em custos para a companhia. E tais custos foram lançados apenas mais para frente no balanço, na parte de despesas operacionais — e, assim, não impactaram a margem bruta.
Um segundo impacto bastante expressivo para os resultados da Embraer diz respeito aos custos com Imposto de Renda e contribuição social, que totalizou R$ 784,4 milhões no primeiro trimestre deste ano — nos primeiros três meses de 2019, o IR representou um ganho de R$ 18,9 milhões. A companhia, no entanto, não dá grandes detalhes a respeito da dinâmica por trás desse crescimento tão intenso nessa linha.
Ex-amigos
A respeito do término com a Boeing, a companhia brasileira voltou a afirmar que os americanos "rescindiram indevidamente" o acordo firmado entre as partes, alegando um suposto não atendimento de condições prévias para a conclusão da parceria por parte da Embraer.
Em uma curta mensagem aos acionistas, a fabricante nacional diz apenas ter cumprido integralmente com todas as suas obrigações contratuais, citando ainda o acionamento de procedimentos de arbitragem internacional caso julgue necessário:
"[A companhia] está buscando todas as medidas cabíveis contra a Boeing como reparação dos danos sofridos pela Embraer em razão da rescisão indevida e das violações do MTA e do Contrato de Contribuição"
Queima de caixa
Em termos de endividamento, a Embraer fechou o mês de março com R$ 6,923 bilhões de dívida líquida, cifra 180% maior que os R$ 2,468 bilhões registrados ao fim de 2019. Boa parte desse salto se deve à gestão de caixa: nos primeiros três meses desse ano, a empresa usou R$ 2,898 bilhões; no quarto trimestre de 2019, houve geração de R$ 3,042 bilhões.
De certa forma, é um efeito esperado: os primeiros três meses do ano costumam ser sazonalmente mais fracos para a Embraer, enquanto os três últimos sempre são mais fortes. Apesar disso, a companhia ainda possui uma posição elevada de caixa e equivalentes: ao todo, são R$ 12,447 bilhões.
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