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Bruna Furlani

Bruna Furlani

Jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB). Fez curso de jornalismo econômico oferecido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Tem passagem pelas editorias de economia, política e negócios de veículos como O Estado de S.Paulo, SBT e Correio Braziliense.

Cash is king

Para gestoras de fortunas, proteções para o patrimônio estão caras, e o momento é de preservar caixa

Gestores de patrimônio estão focando em manter os recursos de clientes em aplicações conservadoras, e não recomendam entrar em ativos como ouro, dólar e opções agora

Bruna Furlani
Bruna Furlani
6 de abril de 2020
5:30 - atualizado às 21:39
Imagem: Shutterstock

É nos momentos de crise que se destacam os investidores que protegeram o seu patrimônio com ativos que tendem a se valorizar quando todos os outros estão caindo, como opções, ouro, moedas e posições vendidas, numa estratégia chamada de hedge. Essas proteções previnem que as carteiras se desvalorizem muito, podendo até mesmo impedi-las de ter desempenho negativo.

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Acontece que é sempre melhor proteger a sua carteira quando o mercado está indo bem do que correr para os ativos de proteção no meio da turbulência. Proteções tendem a ficar mais caras, menos efetivas e mais arriscadas em meio à crise, da mesma forma que os guarda-chuvas costumam ficar mais caros no meio do temporal.

Para quem está se perguntando, em meio à crise do coronavírus, qual é a melhor proteção para o seu portfólio, já adianto que, na opinião dos gestores de patrimônio de famílias abastadas, o momento não é nem do dólar, nem do ouro, nem das opções, mas sim, do dinheiro na mão.

Cash is king - o caixa (ou o dinheiro) é rei. Este é um velho ditado do mundo dos negócios e dos mercados financeiros. É que, na hora da crise, quem tem mais caixa tem mais chances de sobreviver e - melhor ainda - até de comprar bons ativos por uma barganha.

E como as proteções mais comuns já andam mais caras e arriscadas, deixar seus recursos aplicados em ativos conservadores e de liquidez diária é a melhor estratégia de proteção neste momento, dizem os gestores de fortunas.

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Para o diretor de risco da gestora de patrimônio Azimut Wealth Management Brasil, Marcelo Ribeiro, no momento a casa não "enxerga nada que não seja caixa" para os seus clientes, que possuem patrimônio mínimo de R$ 1 milhão.

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“É difícil acertar o fundo do poço. Preferimos perder o começo de uma recuperação e ter caixa agora com ativos mais líquidos, caso o repique ocorra daqui a alguns meses. Estamos entrando em um movimento de expansão da doença causada pelo coronavírus. Acreditamos que aplicando em caixa teremos dinâmica para lá na frente acessar ativos que estejam bastante descontados”, pontua o diretor.

Segundo ele, o movimento abrupto na bolsa fez com que a volatilidade implícita - a estimativa do mercado para a volatilidade futura de um ativo - aumentasse bastante na bolsa, de uma forma geral.

Como consequência, o custo da proteção por meio de opções de venda (puts) também ficou muito elevado. Para exemplificar, Ribeiro diz que a volatilidade implícita da opção de BOVA11 (ETF que replica o desempenho do Ibovespa) saltou de 18% perto do Carnaval para mais de 100% nos meses seguintes.

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Nem mesmo câmbio e ouro

E não é só isso. Outras opções como fundos cambiais também se mostram arriscadas neste momento. Segundo Ribeiro, o dólar sempre foi uma alternativa de hedge e continua sendo, mas sua volatilidade está bastante elevada. Por isso, a casa preferiu não aumentar a posição na moeda agora.

"Uma montagem de posição direcional em dólar era preocupante pelo nível que o câmbio chegou a atingir. Caso houvesse uma melhora no cenário, a gente acreditava que ele seria um dos primeiros ativos a voltar", destaca o diretor de risco.

E nem mesmo a opção de investimento em ouro se mostrou muito acertada nesse período de crise de liquidez aguda. Segundo Ribeiro, a extrema volatilidade e o forte movimento vendedor nos mercados prejudicou o ouro, que perdeu a sua eficiência como hedge.

"Isso ocorre porque os agentes podem, eventualmente, realizar uma posição para cobrir perdas em outras. Foi exatamente o que vimos semanas atrás quando o metal voltou a valores de maio de 2019. Recentemente, tivemos um novo movimento e a commodity voltou a subir", diz o diretor.

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Foco em aplicações de liquidez diária

A alta volatilidade e a incerteza sobre o horizonte global também fizeram com que a Hieron Patrimônio Familiar e Investimentos mudasse o enfoque da alocação dos clientes. Segundo o estrategista da casa, Marcos de Callis, o direcionamento agora é engordar o caixa.

"A gente suspendeu momentaneamente as movimentações na carteira, mas não é que estejamos liquidando ativos. Aplicações com vencimento por agora ou resgatadas não vão ser redirecionadas para outros investimentos. A ideia de manter caixa é apenas para termos um pouco mais de visibilidade", aponta Callis.

Para isso, a estratégia da gestora tem sido investir em aplicações de renda fixa conservadora e de liquidez diária. O estrategista explica que a preferência é por fundos DI, notas compromissadas com lastro de títulos públicos, além de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de grandes bancos e com baixo risco de crédito.

Ao ser questionado sobre o percentual da carteira dos clientes que tem sido deixada em caixa, ele diz que não há um padrão e que tudo depende da exposição e do perfil do investidor. Mas Callis destaca que, se um cliente antes tinha algo entre 5% e 10% da carteira em caixa, agora tem 15%.

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Além de engordar o caixa, a casa já vinha adicionando às carteiras investimentos em ativos reais até mesmo antes de a pandemia piorar, com foco em proteção.

Nesse sentido, a gestora recomenda para os clientes fundos imobiliários negociados no exterior e que não são listados em bolsa, bem como ativos em parques imobiliários, também lá fora.

Apesar de aumentar o investimento em ativos reais, o gestor diz que a aplicação em ouro diminuiu. Segundo o estrategista, antes os clientes tinham cerca de 1,5% de ouro na carteira, em média.

Mas, recentemente, a Hieron optou por diminuir a alocação para 1%, de olho nos movimentos feitos pelos mais influentes bancos centrais e governos do mundo, em termos de estímulo fiscal e afrouxamento monetário.

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Hedge com uma "carinha diferente"

A gestora de patrimônio Brainvest também fez duas mudanças recentes no portfólio dos clientes, ambas focadas na manutenção de caixa.

Dennis Kac, CIO e sócio da casa, conta que a primeira "pernada" de aumento de caixa ocorreu quando a Brainvest reduziu as posições em títulos prefixados no ano passado e optou por não reinvestir o valor. Os valores foram aplicados Tesouro Selic (LFT), título públicos atrelado à taxa básica de juros.

Já a segunda "pernada" foi feita há 20 dias. Segundo Kac, a gestora começou a vislumbrar que o mercado estava entrando no "modo pânico" e optou por aumentar o caixa para investir em ativos alternativos.

"Fizemos acordos com gestores e nos comprometemos a investir com eles. Geralmente, o prazo de investimento é longo, mas acreditamos que agora que é possível comprar ativos de qualidade e com retorno melhor por um preço mais baixo, eles podem abrir seus fundos para captação", explicou.

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A razão para não fazer mudanças bruscas na carteira e focar em caixa se refletiu no desempenho do portfólio no período. O sócio da gestora diz que conseguiu garantir um bom rendimento por conta de aplicações em investimentos que se comportaram como seguros em cenários adversos, mesmo sem ser hedges propriamente ditos. "É como se fosse um hedge natural", pontua Kac.

Ele conta que a casa tinha investido cerca de 70% das alocações em renda variável dos clientes em fundos conhecidos como long biased. Na prática, eles ganham com a alta da bolsa, mas podem se proteger em momentos de incerteza do mercado, lucrando também nas quedas.

Outra diversificação que funcionou como proteção foi o investimento em fundos quantitativos - que utilizam algoritmos para fazer operações rápidas em diversos mercados. Esse tipo de fundo costuma ser bastante correlacionado dos demais mercados.

Isso sem contar a exposição a ativos dolarizados, que fizeram com que as aplicações se saíssem bem por estarem descorrelacionadas com a economia brasileira e com o real. Entre os exemplos, Kac cita títulos de dívida de empresas AAA (menor risco de calote) no exterior, assim como fundos que investem em papéis desse tipo.

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Não é a hora mais apropriada para comprar seguros

Apesar de a volatilidade dos mercados persistir, Kac diz que não pretende recomendar o investimento em outros tipos de seguros aos seus clientes por ora. Esses ativos de hedge estão muito caros, na sua opinião. O momento de adquiri-los é antes do início das crises.

"Você compra proteção quando a volatilidade não está muito alta. Agora, o VIX [índice de volatilidade dos mercados] está em patamares muito elevados. O preço das proteções está inviável", explica.

Para exemplificar a importância de adquirir um seguro antes da crise, Kac cita como referência o lendário gestor Luis Stuhlberger, que fala que "você só deve comprar um guarda-chuva quando está fazendo sol".

Por essa razão, diante de um cenário que parece ainda bastante incerto, o melhor a fazer é ter cautela e evitar fazer movimentações bruscas na carteira. Assim como apontaram as gestoras de fortunas, o foco agora deve ser engordar o caixa para aproveitar possíveis pechinchas que podem surgir quando o cenário se mostrar mais nítido.

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