Taxa Selic vai cair, mas destino dos juros será decidido no Planalto, diz economista
Para Arnaldo Lima, economista-chefe da Polo Capital, o principal debate sobre os juros passa pela capacidade do próximo governo de convencer o mercado sobre as contas públicas

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desta quarta-feira (5) não deve causar grandes emoções para o mercado. O corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na taxa Selic já é dado como certo, diminuindo os juros básicos do país para 14% ao ano.
Depois de um repique de inflação no começo do ano por causa da guerra, atividade resistente e um mercado de trabalho que se recusava a perder força, os últimos dados da economia começaram a mudar de direção.
A inflação medida pelo índice de preços IPCA veio abaixo das projeções em junho e na prévia de julho. Os indicadores de emprego e renda deram sinais de arrefecimento. A atividade econômica também começou a mostrar perda de fôlego.
Não por acaso, as opções de Copom negociadas na B3 — derivativos que permitem especular sobre a decisão da taxa Selic — apontam uma probabilidade de 95% de corte de 0,25 p.p. nos juros nesta quarta.
Mas, para o economista-chefe da Polo Capital, Arnaldo Lima, a discussão mais relevante para os investidores não é sobre a próxima decisão do Copom.
Em entrevista ao Seu Dinheiro, ele afirma que o mercado hoje está confortável com a atuação do Banco Central. A grande questão é o que está fora da alçada da autoridade monetária: os rumos da política fiscal.
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"Começamos a última transição comprados no arcabouço fiscal do novo governo e vendidos na política monetária. Hoje é o contrário. O mercado está vendido no arcabouço e no compromisso desse governo com as contas públicas e comprado no Banco Central", diz.
Se antes havia dúvidas sobre a presidência de Gabriel Galípolo no BC, agora parte relevante do mercado considera que a autoridade monetária conseguiu preservar sua credibilidade.
A preocupação passou a ser outra: a capacidade de o país estabilizar a dívida pública e reduzir os juros de forma duradoura.
De 0,25 p.p. em 0,25 p.p.
Se o cenário majoritário do mercado se confirmar, a taxa Selic terminará o dia em 14% ao ano.
Para Lima, o Copom ainda deve fazer mais um corte residual, de 0,25 p.p., em setembro, levando os juros básicos para a taxa terminal de 13,75% em 2026.
Essa projeção se baseia nos dados recentes da economia. Os dados de inflação de junho e julho mostraram uma tendência de desinflação mais disseminada em diferentes setores da economia.
O economista chama a atenção para a melhora dos indicadores de inflação de serviços, que se sustentaram em patamar elevado por meses e eram um dos pontos de maior preocupação para o Banco Central porque estão atrelados ao mercado de trabalho.
Entretanto, até mesmo esse componente da inflação começou a dar sinais de desaceleração, diante da queda na renda de salários. Para Lima, mais do que o resultado cheio abaixo das projeções, a composição dos números dá fôlego para essa leitura benigna.
Não é apenas uma questão de a inflação ter ficado menor. Menos setores da economia estão pressionando os preços simultaneamente, o que costuma ser um sinal mais saudável para o processo de desinflação e, consequentemente, alívio nos juros.
"Uma queda de 0,25 ponto não quer dizer que a política monetária se tornará flexível. Pelo contrário, continua bastante restritiva, e o Brasil continuará tendo um dos maiores juros reais do mundo", afirma Lima.
Para ele, não são os pequenos números de inflação aqui e ali, ou do mercado de trabalho, que reverterão a tendência da Selic. Os sinais devem vir de Brasília…
A virada da Selic
Os relatórios de mercado mostram o que os economistas veem de riscos para inflação e juros à frente:
- preocupações com o preço do petróleo,
- efeitos de um possível El Niño mais intenso,
- comportamento do dólar, e
- piora das expectativas inflacionárias de longo prazo.
Mas nenhuma dessas questões parece suficiente, neste momento, para impedir a continuidade do ciclo de "calibração" da Selic.
Isso porque, essa calibração — termo que o próprio BC usou para esses pequenos ajustes — não tem como finalidade mudar a tendência da taxa Selic para uma política monetária flexível. São, de fato, pequenos ajustes para alinhar a restrição à queda da inflação.
Para o economista, o debate sobre juros no Brasil é outro. Lima vê um descompasso entre a forma como o governo apresenta seus resultados fiscais e aquilo que o mercado considera importante nas contas públicas.
"O arcabouço fiscal foca em controle de despesas discricionárias, e o mercado está olhando para toda a composição da dívida. Uma coisa não conversa com a outra", diz.
Segundo ele, mesmo quando o governo entrega resultados de receita melhores, a principal pergunta continua sem resposta.
"Os resultados fiscais começam a entrar no campo positivo, mas estão muito aquém do necessário para estabilizar a dívida. Precisa de um endereçamento muito mais complexo do que uma âncora fiscal."
A meta de inflação e os próximos passos
Há quem atribua os juros altos à meta de inflação, considerada baixa para os níveis históricos do índice de preços do país. Atualmente a meta de inflação é de 3%, enquanto o IPCA médio desde os anos 2000 é de 5,5%.
Lima não vê o debate sobre a meta como um problema em si. Na avaliação dele, o contexto fiscal é mais importante do que o número escolhido.
"Quando o governo atual fez a PEC da Transição, ele colocou uma meta de inflação muito audaciosa para aquele impulso fiscal. Mas rever isso agora geraria ainda mais prejuízo", afirma.
Na avaliação do economista, uma eventual revisão da meta teria sido bem recebida caso o governo tivesse apresentado mecanismos mais robustos para controlar a evolução da dívida quando assumiu o Planalto, em 2022.
"Se naquele momento o arcabouço fosse um pouquinho mais focado em reduzir a despesa obrigatória e tivesse mais perenidade como âncora, a redução da meta de inflação não teria sido prejudicial."
Para o economista, mudanças na meta sem uma solução convincente para o problema fiscal poderiam ampliar a desconfiança dos investidores justamente em um momento em que o mercado busca sinais de compromisso com a sustentabilidade das contas públicas.
E, aqui, convincente é a palavra-chave.
Lima afirma que o próximo governo terá de lidar com o "elefante na sala" que são as contas públicas. E, independentemente de quem se elegerá, as medidas terão que ser aceitas pelos agentes financeiros como suficientes.
"É uma variável quase que exógena, porque depende de como o mercado vai interpretar essas medidas. A partir do momento que o mercado comprar ou não comprar, isso vai se refletir no prêmio de risco do país e a partir daí se torna um problema para o Banco Central", diz o economista.
Muito além do próximo Copom
Ao longo da entrevista com o Seu Dinheiro, Lima enfatizou que discutir apenas a próxima reunião do Copom não leva a lugar nenhum.
Para ele, o Brasil precisa enfrentar um debate mais profundo sobre produtividade, crescimento e qualidade do gasto público.
"Para o Brasil se desenvolver e ter um juro real do nível de um país desenvolvido, a gente tem que estar comprado tanto na política fiscal como na política monetária."
Na sua avaliação, o país possui vantagens financeiras competitivas, como reservas internacionais robustas, capacidade de emitir dívida em moeda local e receitas relativamente confortáveis em comparação com outros emergentes.
Mas isso não elimina a necessidade de melhorar os gastos e conduzir o fiscal de longo prazo. Afinal, o mercado já parece convencido de que o Banco Central está fazendo sua parte. O que ainda falta descobrir é se o próximo governo conseguirá convencer os investidores de que ele também fará a sua.
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