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CORTOU... E PAROU?

Copom corta Selic para 14% ao ano e deixa em aberto os próximos passos — mas mercado já espera juros menores

A decisão era amplamente esperada diante de uma sequência de dados que mostrou melhora no cenário inflacionário dos últimos meses

Gabriel Galípolo está sendo em uma mesa, falando em um microfone. Ele está com as mãos levantadas. Usa terno azul marinho e camisa branca.
Copom corta a taxa Selic pela quarta vez consecutiva, para 14% ao ano. Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Os agentes financeiros podem dormir em paz e menos preocupados nesta quarta-feira (5). O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a taxa básica de juros (Selic) em linha com o que se esperava: em 0,25 ponto percentual (p.p.).

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Este foi o quarto corte consecutivo e marcou o ajuste de um ponto percentual em relação à taxa Selic do começo do ano, de 15%. Com isso, os juros de referência do país caem para 14% ao ano nesta quarta-feira (5).

Para além da decisão em si, amplamente esperada, a clareza do comunicado era o ponto de dúvida.

Na última reunião, de junho, a tentativa dos diretores de trazer mais informações sobre suas percepções em relação ao cenário de risco inflacionário não deu certo. O comunicado aumentou bastante, mas não deu clareza se a leitura do BC era de mais risco ou menos risco para os preços no futuro.

Hoje foi claro e direto.

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"Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta", disse o texto.

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Em outras palavras: não há nada definido sobre um próximo corte. Porém, mais à frente, os diretores reforçam a estratégia de manter os juros restritivos.

"O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta."

O cenário melhorou

O principal argumento de economistas e do Banco Central para essa decisão foi a melhora nos dados de inflação.

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O índice de preços oficial (IPCA) de junho e a prévia (IPCA-15) de julho surpreenderam positivamente ao registrar uma desaceleração maior do que a esperada. Mas, mais do que isso, o aspecto que mais chamou a atenção foi a melhora disseminada, em vários itens avaliados no índice.

Em seu comunicado nesta quarta-feira, os diretores do Copom destacaram que, nas divulgações mais recentes, a inflação cheia diminuiu, porém ainda está acima do limite superior da meta, de 4,5%. Por outro lado, "as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta".

Além disso, outros dados da economia também ganharam destaque como fatores positivos para a trajetória desinflacionária do país. São eles o arrefecimento do mercado de trabalho, que diminuiu a quantidade de vagas e a renda salarial, e os sinais de moderação da atividade como um todo, desde produção até consumo.

A pesquisa pré-Copom do BTG Pactual, com 70 participantes do mercado, mostra que a maioria (87%) dos respondentes esperam mais cortes neste ano.

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A grande questão agora é: o Copom vai continuar cortando ou não?

Até onde vai a taxa Selic?

O comunicado da decisão desta quarta-feira deixa as portas abertas.

Os diretores mantiveram o discurso sobre os últimos ajustes não serem o início de um ciclo de flexibilização da política monetária. Para eles, trata-se de uma "calibração", para ajustar o nível de restrição da Selic à inflação corrente do país.

O texto fala que o cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda "serenidade e cautela" na condução da política monetária.

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David Beker, economista-chefe para a América Latina do Bank of America (BofA), acredita que o debate central sobre juros no Brasil neste momento é se os dados melhores de curto prazo se sustentam diante dos riscos à frente.

Ele destaca as pressões de energia que vem do petróleo e da guerra, o impacto do El Niño e a resposta dos preços a esses eventos.

"Em nossa visão, enquanto os preços de mercado continuarem a validar a calibração, com dinâmicas cambiais estáveis e sem deterioração significativa nas expectativas de inflação, o Copom provavelmente continuará aproveitando o espaço disponível para reduzir a Selic", diz o economista.

O último relatório Focus, do Banco Central, revisou a projeção para os juros ao final do ano nesta semana. De 14% sustentados por cinco semanas consecutivas para 13,75% — o que sugere pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual.

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Na pesquisa do BTG, quase metade (48,5%) dos respondentes esperam que a Selic feche o ano abaixo de 13,75%.

Como ficam os investimentos

Assim como aconteceu com a decisão sobre a Selic, os agentes financeiros também esperavam que o comunicado do Copom fosse mais aberto.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirma que, nesta reunião, o corte era o de menos. "O que importa é a sinalização sobre o ritmo daqui para frente e sobre onde termina esse ciclo."

Em sua avaliação, o texto sugere que o BC vai decidir reunião a reunião, que "não começou a festa da renda variável".

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E ele concorda com esse movimento. "O BC adotando um tom de serenidade e cautela, mantendo as portas abertas sem se comprometer. É exatamente esse o desenho que faz sentido, um afrouxamento de velocidade controlada, e não uma corrida."

Essa leitura de mensagem prudente também foi a interpretação de Gabriel Santos, head de research da Bloxs.

Para ele, o trecho mais relevante foi o que afirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações. Em sua opinião, isso reduz a visibilidade sobre próximos passos.

"Ou seja, o corte atual não deve ser lido como o início de uma sequência automática. O Copom está dizendo que o ciclo existe, mas que o tamanho dele depende de todas as variáveis relevantes", diz Santos.

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Para investimentos, o diretor acredita que as taxas do Tesouro Direto devem andar na quinta-feira (6). Títulos prefixados e indexados à inflação (IPCA+) podem se beneficiar de uma leitura de continuidade do ciclo, em sua opinião, "mas sem espaço para euforia".

Santos afirma que o mercado já tinha precificado parte do movimento e o ganho de marcação a mercado está condicionado a uma melhora adicional das expectativas de inflação e do risco fiscal.

"Se o mercado entender que o Banco Central tem pouco espaço para acelerar os cortes, as taxas intermediárias e longas podem ficar pressionadas", diz o diretor.

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