Copom corta Selic para 14% ao ano e deixa em aberto os próximos passos — mas mercado já espera juros menores
A decisão era amplamente esperada diante de uma sequência de dados que mostrou melhora no cenário inflacionário dos últimos meses

Os agentes financeiros podem dormir em paz e menos preocupados nesta quarta-feira (5). O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a taxa básica de juros (Selic) em linha com o que se esperava: em 0,25 ponto percentual (p.p.).
Este foi o quarto corte consecutivo e marcou o ajuste de um ponto percentual em relação à taxa Selic do começo do ano, de 15%. Com isso, os juros de referência do país caem para 14% ao ano nesta quarta-feira (5).
Para além da decisão em si, amplamente esperada, a clareza do comunicado era o ponto de dúvida.
Na última reunião, de junho, a tentativa dos diretores de trazer mais informações sobre suas percepções em relação ao cenário de risco inflacionário não deu certo. O comunicado aumentou bastante, mas não deu clareza se a leitura do BC era de mais risco ou menos risco para os preços no futuro.
Hoje foi claro e direto.
"Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta", disse o texto.
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Em outras palavras: não há nada definido sobre um próximo corte. Porém, mais à frente, os diretores reforçam a estratégia de manter os juros restritivos.
"O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta."
O cenário melhorou
O principal argumento de economistas e do Banco Central para essa decisão foi a melhora nos dados de inflação.
O índice de preços oficial (IPCA) de junho e a prévia (IPCA-15) de julho surpreenderam positivamente ao registrar uma desaceleração maior do que a esperada. Mas, mais do que isso, o aspecto que mais chamou a atenção foi a melhora disseminada, em vários itens avaliados no índice.
Em seu comunicado nesta quarta-feira, os diretores do Copom destacaram que, nas divulgações mais recentes, a inflação cheia diminuiu, porém ainda está acima do limite superior da meta, de 4,5%. Por outro lado, "as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta".
Além disso, outros dados da economia também ganharam destaque como fatores positivos para a trajetória desinflacionária do país. São eles o arrefecimento do mercado de trabalho, que diminuiu a quantidade de vagas e a renda salarial, e os sinais de moderação da atividade como um todo, desde produção até consumo.
A pesquisa pré-Copom do BTG Pactual, com 70 participantes do mercado, mostra que a maioria (87%) dos respondentes esperam mais cortes neste ano.
A grande questão agora é: o Copom vai continuar cortando ou não?
Até onde vai a taxa Selic?
O comunicado da decisão desta quarta-feira deixa as portas abertas.
Os diretores mantiveram o discurso sobre os últimos ajustes não serem o início de um ciclo de flexibilização da política monetária. Para eles, trata-se de uma "calibração", para ajustar o nível de restrição da Selic à inflação corrente do país.
O texto fala que o cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda "serenidade e cautela" na condução da política monetária.
David Beker, economista-chefe para a América Latina do Bank of America (BofA), acredita que o debate central sobre juros no Brasil neste momento é se os dados melhores de curto prazo se sustentam diante dos riscos à frente.
Ele destaca as pressões de energia que vem do petróleo e da guerra, o impacto do El Niño e a resposta dos preços a esses eventos.
"Em nossa visão, enquanto os preços de mercado continuarem a validar a calibração, com dinâmicas cambiais estáveis e sem deterioração significativa nas expectativas de inflação, o Copom provavelmente continuará aproveitando o espaço disponível para reduzir a Selic", diz o economista.
O último relatório Focus, do Banco Central, revisou a projeção para os juros ao final do ano nesta semana. De 14% sustentados por cinco semanas consecutivas para 13,75% — o que sugere pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual.
Na pesquisa do BTG, quase metade (48,5%) dos respondentes esperam que a Selic feche o ano abaixo de 13,75%.
Como ficam os investimentos
Assim como aconteceu com a decisão sobre a Selic, os agentes financeiros também esperavam que o comunicado do Copom fosse mais aberto.
Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirma que, nesta reunião, o corte era o de menos. "O que importa é a sinalização sobre o ritmo daqui para frente e sobre onde termina esse ciclo."
Em sua avaliação, o texto sugere que o BC vai decidir reunião a reunião, que "não começou a festa da renda variável".
E ele concorda com esse movimento. "O BC adotando um tom de serenidade e cautela, mantendo as portas abertas sem se comprometer. É exatamente esse o desenho que faz sentido, um afrouxamento de velocidade controlada, e não uma corrida."
Essa leitura de mensagem prudente também foi a interpretação de Gabriel Santos, head de research da Bloxs.
Para ele, o trecho mais relevante foi o que afirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações. Em sua opinião, isso reduz a visibilidade sobre próximos passos.
"Ou seja, o corte atual não deve ser lido como o início de uma sequência automática. O Copom está dizendo que o ciclo existe, mas que o tamanho dele depende de todas as variáveis relevantes", diz Santos.
Para investimentos, o diretor acredita que as taxas do Tesouro Direto devem andar na quinta-feira (6). Títulos prefixados e indexados à inflação (IPCA+) podem se beneficiar de uma leitura de continuidade do ciclo, em sua opinião, "mas sem espaço para euforia".
Santos afirma que o mercado já tinha precificado parte do movimento e o ganho de marcação a mercado está condicionado a uma melhora adicional das expectativas de inflação e do risco fiscal.
"Se o mercado entender que o Banco Central tem pouco espaço para acelerar os cortes, as taxas intermediárias e longas podem ficar pressionadas", diz o diretor.
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