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Neste histórico mês de março, quase todos os ativos caíram. Só o dólar e a renda fixa mais conservadora se salvaram
Se fevereiro já foi um mês difícil para os investimentos, março foi um verdadeiro banho de sangue, dada a quantidade de ativos que tiveram desempenho "no vermelho".
No mês em que a bolsa brasileira teve suas negociações paralisadas seis vezes por conta da forte volatilidade provocada pelo avanço rápido do coronavírus pelo mundo - acionando o mecanismo conhecido como circuit breaker -, a forte aversão a risco dos investidores de todo o planeta levou praticamente todos os ativos de risco a caírem em bloco.
O dólar, porto seguro nesses momentos de crise e grandes incertezas, foi o único ativo que realmente se valorizou - e que valorização! Foi uma alta de nada menos que 16,03% no mercado à vista e 15,58% se considerada a taxa PTAX do Banco Central, levando a divisa para perto dos R$ 5,20. No ano, a valorização da moeda americana já ronda os 30%.
Por outro lado, o Ibovespa apareceu em último lugar, com uma forte queda de 29,84% - pior desempenho mensal desde 1998. O índice perdeu a marca histórica dos 100 mil pontos, terminando o mês aos 73.076 pontos e acumulando uma perda de 36,81% no ano. Nenhuma ação do Ibovespa - eu disse NENHUMA ação do Ibovespa - teve alta neste mês.
Mesmo os ativos menos voláteis, mas que também têm um componente de risco, levaram tombos em março: fundos imobiliários, debêntures e títulos públicos prefixados ou atrelados à inflação. Até o ouro, outra proteção clássica, amargou uma pequena perda em dólar. Quem ainda conseguiu algum ganho foi a renda fixa conservadora (incluindo a poupança).

Março de 2020 já entrou para a história do mercado financeiro brasileiro. Foi um mês repleto de grandes marcos, todos infelizmente negativos. Para começar, o Ibovespa viu tanta volatilidade, que acionou o circuit breaker - o botão de pânico da bolsa - seis vezes.
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O mecanismo de paralisação das negociações é acionado toda vez que o índice cai demais - o primeiro acionamento em um pregão ocorre após uma queda de 10%, e o segundo, após uma queda de 15%.
Foi a primeira vez desde 2008 que o circuit breaker foi acionado tantas vezes num mesmo ano. Mas foi a primeira vez na história que todas as seis vezes ocorreram no mesmo mês.
Também foi em março que o dólar ultrapassou os R$ 5 pela primeira vez - e acima dessa marca se firmou. Ainda vimos um corte da taxa Selic pelo Banco Central para 3,75% ao ano, uma nova mínima histórica, e abaixo dos 4% pela primeira vez.
Finalmente, vimos o Ibovespa perder a marca dos 100 mil pontos arduamente conquistada um ano atrás. Em 23 de janeiro deste ano, o índice atingiu sua máxima nominal histórica de 119.527 pontos.
Desde então, já despencou quase 40%, entrando oficialmente num bear market (mercado de baixa) e pondo fim ao bull market (mercado de alta) que vivíamos desde 2016.
Em março, o Ibovespa também marcou a mínima do ano (até agora): 63.569 pontos, uma queda de quase 47% em relação à máxima histórica.
A principal característica do mês de março certamente foi sua ampla volatilidade em todos os mercados. Oscilações percentuais diárias de dois dígitos nos mercados de bolsa, juros e commodities foram comuns.
O índice de volatilidade VIX, conhecido como "índice do medo", que vinha oscilando entre 10 e 20 pontos nos primeiros meses do ano, saltou para 40, 50, 60, 70, 80 em março - patamares similares aos atingidos na crise de 2008.
Tudo isso reflete uma forte aversão a risco que se formou nos mercados ao longo do mês, e uma perda completa das referências de preço pelo mercado. O motivo é simples: o avanço mais forte do coronavírus pelo mundo, que começou na semana do Carnaval, levou boa parte do planeta a simplesmente "desligar as máquinas".
Em todo o mundo, e inclusive no Brasil, governos nacionais e regionais decretaram políticas de distanciamento social, com a suspensão obrigatória de atividades não essenciais, e fazendo campanha para que as pessoas fiquem em casa sempre que possível. Eventos foram cancelados, o comércio fechou as portas e as economias foram desacelerando até quase parar.
Tudo isso para que o coronavírus, que se espalha muito rapidamente por meio do contato humano, não levasse a uma onda tão grande de contaminados que os sistemas de saúde ficassem sobrecarregados. Afinal, as taxas de hospitalização e letalidade da Covid-19, a doença causada pelo vírus, são altas.
O problema é que não sabemos direito o que vai acontecer daqui para frente. Sabemos que o combate ao vírus vai inevitavelmente levar a uma desaceleração ou até muito provavelmente a uma recessão econômica. E, de fato, diversas instituições financeiras vêm revisando para baixo suas projeções. Mas ainda não sabemos, ao certo, o tamanho do tombo.
A incerteza quanto à evolução da doença em diferentes países é muito grande. Logo, não sabemos por quanto tempo as economias vão andar devagar quase parando, nem qual o impacto exato da pandemia nos resultados das empresas e no Produto Interno Bruto (PIB) de cada país.
Assim, na falta de dados e referências para fazer projeções mais concretas, os preços acabaram ficando malucos. Os investidores começaram a vender tudo a qualquer preço e correr para liquidez - seja por segurança, seja para honrar suas obrigações com perdas em outros mercados.
Dessa forma, vimos uma corrida para o dólar e uma venda massiva de ações, títulos públicos ou privados, fundos imobiliários e até mesmo bitcoins. Uma troca do duvidoso pelo certo - ou o que os investidores julgam como certo.
Aqui no Brasil, ainda vimos uma fuga massiva de recursos estrangeiros, pois aos olhos do mundo, os ativos de países emergentes são os mais arriscados dentre os ativos de risco.
Só para complicar ainda mais um cenário já complicado, Arábia Saudita e Rússia resolveram começar uma guerra de preços em março, adicionando ainda mais risco ao cenário.
As duas potências na produção de petróleo não conseguiram chegar a um acordo sobre cortes na produção para adequá-la à menor demanda, agora que o mundo está mais parado por conta do coronavírus.
Assim, para "ensinar uma lição" à Rússia, os sauditas resolveram abrir a torneirinha e despejar petróleo no mercado mundial, o que derrubou o preço da commodity para o patamar dos US$ 25, US$ 30 o barril - lembrando que, no ano passado, o petróleo tinha chegado a bater US$ 70.
A ideia é que o preço baixo "desse um certo calor" à Rússia e a obrigasse a negociar um corte na produção, como era defendido pelos sauditas. Só que, até agora, o imbróglio não foi resolvido.
Governos do mundo todo estão lançando mão de pacotes de estímulo para segurar a economia, que incluem a derrubada das taxas básicas de juros e a liberação de recursos para que empresas não demitam e não fiquem sem recursos para pagar salários, e para que trabalhadores autônomos e informais não fiquem totalmente sem renda.
O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, realizou dois cortes extraordinários de juros neste mês. No segundo, zerou a taxa. Diversos bancos centrais ao redor do mundo também cortaram seus juros, inclusive o brasileiro, que derrubou a Selic para 3,75% ao ano.
Com isso, os juros futuros de curto prazo fecharam o mês em queda, justamente precificando um período de afrouxamento monetário para lidarmos com a crise.
Isso fez com que títulos prefixados com vencimentos em 2021 e 2022 tivessem um pequeno ganho. Afinal, esses papéis se valorizam quando os juros futuros caem.
Porém, os juros com vencimentos em prazos médios ou longos viram uma disparada em março, fortemente alinhada com o movimento generalizado de aversão a risco.
Com isso, todos os títulos prefixados e atrelados à inflação de prazos um pouco mais longos viram quedas, já que esses títulos se desvalorizam quando os juros futuros sobem. E quanto mais longo o prazo, maior o tombo.
Além de um forte movimento vendedor de títulos por parte de investidores em busca de liquidez, vimos também um aumento da incerteza em relação ao futuro, o que costuma fazer os juros de prazos mais longos subirem.
No caso específico do Brasil, nosso risco-país disparou em março, o que contribuiu para levar nossos juros mais longos lá para cima. Juros de longo prazo estão menos ligados à política monetária e mais ligados à percepção de risco que os investidores têm em relação àquela economia.
Porém, o sobe e desce dos títulos foi intenso ao longo do mês - até mesmo os juros curtos apontaram para cima em alguns momentos, o que não faz nenhum sentido em um ambiente de recessão.
Essa volatilidade levou o Tesouro Direto a ficar fora do ar diversas vezes ao longo do mês. A plataforma on-line de negociação de títulos públicos tem suas negociações paralisadas em momentos de forte oscilação dos juros, para que preços e taxas possam ser atualizados.
As empresas que mais estão sofrendo com a paralisação das economias até agora são aquelas ligadas às viagens, uma vez que fronteiras foram fechadas e rotas aéreas, bloqueadas. Assim, fabricantes de aeronaves, companhias aéreas, agências de turismo e hotéis estão passando por momentos verdadeiramente terríveis.
Economicamente, o maior risco desta crise é justamente uma quebradeira em massa das empresas. As mais ameaçadas são, é claro, as pequenas e médias. Mas a quebra de empresas de menor porte pode levar a um efeito em cascata nas cadeias de produção, podendo machucar até mesmo as grandes.
Esse cenário nos coloca de frente para a possibilidade de uma crise de crédito que, mesmo que não leve a uma quebradeira de bancos - hoje muito melhor capitalizados do que, por exemplo, na crise de 2008 -, pode causar efeitos prolongados na economia.
A própria manutenção do petróleo em patamares tão baixos de preço pode contribuir para tal crise. Além de pesar para a nossa Petrobras - e consequentemente, para o Ibovespa - pode inviabilizar negócios da área de energia que haviam sido concebidos para cenários de preços mais altos, tornando-se inviáveis com o preço da commodity nos níveis atuais.

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