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Em busca da Terra do Nunca

Se você pretende empreender em escala e provocar alguma mudança na sociedade, precisa irromper, em alguma medida, com o que já existe por aí

24 de agosto de 2020
10:35 - atualizado às 13:24
peter pan
Imagem: Shutterstock

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“Os sonhos são como estrelas:
você não pode tocá-las,
mas se você seguir,
elas vão guiar o seu destino.

O crocodilo,
como todos que viram escravos de uma ideia fixa,
não passava de um burro.”
Peter Pan

Entramos na segunda-feira com a mais tradicional forma de evitarmos a ressaca: mantendo-nos bêbados. Começo com a sugestão de uma nova dose de Puro Malte, nosso podcast disponível no Spotify e na Apple Music.

Entre outras coisas, falamos de empreendedorismo e investimentos. É curioso como uma mesma abordagem ontológica pode valer para ambas as coisas.

Tenho comigo que, se você pretende empreender em escala e provocar alguma mudança na sociedade, precisa irromper, em alguma medida, com o que já existe por aí. O verdadeiro empreendedor é um visionário. O processo requer uma visão diferente dos demais ou, ao menos, a capacidade de desenvolver o mesmo produto de forma distinta — até um produtor de commodity pode se destacar, desde que não seja muito alavancado e represente o “low cost producer” (o menor custo marginal da indústria).

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Uma empresa de destaque testa fronteiras, explora mares nunca dantes navegados, descobrindo coisas além da mediocridade típica — ainda que a custo de erros no processo (só perde pênalti quem bate) e de descobertas por puro serendipity (serendipidade é muito feio, desculpa). Para dominar um mercado, o empreendedor não pode oferecer o mesmo de seus concorrentes.

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Em investimentos, para ser acima da média ou, no jargão típico, para bater o mercado, você também precisará fazer coisas extraordinárias, ir além do que o ordinário, o típico, o costumeiro pratica. Ninguém supera a média tomando atitudes medíocres.  

Você vai precisar explorar caminhos não desenvolvidos pelo consenso, identificando cenários e situações ainda não devidamente incorporados aos preços dos ativos. Você também aqui vai testar certas fronteiras. Não à toa, a classe que mais cresce nos portfólios de grandes famílias lá fora é o de “ilíquidos” e de “alternativos” — estamos cerca de 20 anos defasados por aqui, torcendo pela nova ação da moda, defendida nos fóruns por fanáticos fiéis, que têm certeza de que, se repetirem verbal e publicamente um determinado valor futuro para sua ação queridinha, poderão ver um processo automático de convergência entre as cotações correntes e aquelas verbalizadas com fé e convicção. No seu mundo imaginário, as ações têm ouvidos e atendem às novenas de seus crentes evangelizados.

Bom, mas essa é uma outra história. Enquanto estão todos preocupados em concentrar suas carteiras na próxima ação de altíssimo retorno, eu me preocupo com o gerenciamento de risco. Como diz Howard Marks, “o risco é a coisa mais importante”. 

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Fico preocupado como todos falam de retorno, poucos tratam do risco, esquecendo-se de que tudo deveria começar pela sobrevivência. Perder um milhão não é a mesma coisa que ganhar um milhão — a curva patrimonial é côncava. O dinheiro, como a maior parte das coisas, oferece retornos marginais decrescentes. Ou seja, o benefício marginal de um dólar adicional cai quanto mais dólares você já tem na carteira. Isso tem uma implicação prática e matemática: se você perde um dólar, o efeito é maior do que o impacto de se ganhar um dólar. 

Se o raciocínio é válido, o devido gerenciamento de risco deveria ser inclusive mais importante do que a perseguição de elevados retornos potenciais. Talvez por isso investidores sofisticados se preocupem tanto com preservação patrimonial e pensem probabilisticamente. 

Esse, inclusive, é um dos temas de ótima carta da Squadra, publicada neste fim de semana. Tenho profundo respeito e admiração à gestora. Vendo a qualidade das manifestações nas redes sociais contra a gestora, percebo o quanto ainda temos que evoluir em educação financeira e como precisamos tratar, com muito remédio tarja-preta, o viés de confirmação. Para alguns casos de maior fanatismo, suspeito que só internação resolva. 

Em determinado momento, a Squadra escreve assim: “temos enxergado a curva de cenários com riscos de cauda gordos para os dois lados. Em uma linguagem direta, isso significaria dizer que existe a possibilidade de se investir em ações com risco elevado de dar muito errado, mas, ao mesmo tempo, existe um risco considerável de dar muito certo”.

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Como você se prepara para uma distribuição de probabilidade desse tipo? 

Da minha parte, tenho atribuído uma probabilidade decrescente para o cenário mais negativo e apocalíptico. Temos conseguido reabrir as economias sem um colapso dos sistemas de saúde, temores de uma segunda onda mais vigorosa da Covid-19 — ao menos até aqui — não se materializaram, seguimos com uma postura muito estimulativa de política fiscal e monetária, as economias, no geral, têm se recuperado com mais intensidade do que se antevia. Por aqui, o ministro Paulo Guedes pegou para si o Plano Pró-Brasil, o que representa certa garantia de que não haverá explosão fiscal iminente. Isso permite um viés mais construtivo para as carteiras, pesadas em ações, com exposição crescente a cíclicos domésticos, e com posição em juros reais longos. 

Ao mesmo tempo, o viés mais favorável não pode significar, em nenhum momento, descuido com o gerenciamento de riscos. O mercado é um boxeador hábil e parece perceber, sutil e impiedosamente, o momento em que você baixa a guarda. 

Os três leitores talvez se lembrem de minha obstinação por perseguir um bom hedge para o momento. Se há uma cauda gorda também do lado esquerdo da distribuição de probabilidade, ou seja, se existe a chance de algo dar muito errado, havemos de estar em alerta.  

A verdade, porém, é que está bastante difícil de encontrar uma boa proteção agora. Rapadura é doce, mas não é mole, não.  

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As opções estão caras e muitas vezes ilíquidas; não há prazo, nem profundidade na pedra para a maior parte dos casos fora das blue chips.  

O dólar, outro destino típico para situações como essa, passa longe de estar barato. Mais do que isso, o real está muito depreciado, o que dificulta buscar hedge em qualquer outra moeda estrangeira — não quer dizer que, necessariamente, o real vai se valorizar; talvez seja mesmo o caso de algo barato que fica cada vez mais barato, dado que não temos “carry” (diferencial de juros), nem crescimento. Contudo, com essa volatilidade do câmbio e com esse nível de preços, não é tão confortável a posição cambial contra o real numa perspectiva de proteção. 

Os Treasuries podem também ser bons candidatos. O problema aqui é o atual patamar dos juros, já muito lá embaixo, o que parece conferir uma assimetria pouco convidativa. Como diz Ray Dalio, num ambiente de “cash is trash” (em que o dinheiro não vale muito), títulos de dívida podem ser particularmente complicados.

“E os metais preciosos?" Ok, pode ser, gosto deles também. Mas também é ilusão achar que seja propriamente um hedge barato agora. Mais do que isso, gostemos ou não, o fato objetivo é que a correlação do ouro e da prata com as Bolsas norte-americanas tem sido bastante positiva. Isso dificulta muito tomá-los como um hedge perfeito. Sem nem entrar no mérito da volatilidade associada aos metais preciosos, em algumas situações superior inclusive à da Bolsa. 

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O que sobra dessa história toda?

Tenho me sentido particularmente atraído pelos criptoativos. Não porque representem um “safe haven” clássico. Mas porque podem ser alternativa à enorme injeção de dinheiro e porque são, objetivamente, descorrelacionados aos demais ativos de risco, obedecendo a uma lógica própria. A partir dos benefícios da diversificação, você pode reduzir o risco do seu portfólio e preservar retornos potenciais, ao introduzir o bitcoin e outras criptomoedas em sua carteira. Oferta fixa e irreplicável, vindo de um processo de halving em maio, que costuma preceder valorizações importantes do bitcoin, com uso crescente na sociedade e sem correlação com o resto.

Claro que não é para ter posições gigantescas no ativo — monte pequeno, mas com um espaço crescente no seu portfólio, podendo ir até 2% do todo. Não vai resolver a vida, mas a verdade é que não tem mesmo bala de prata. Você vai compondo, subindo degraus na diversificação. Juntas a outros ativos, as criptomoedas podem ser uma arma interessante e secular. 

Uma outra tendência histórica bacana é a de créditos de carbono, também descorrelacionados com o restante dos ativos e inserido no cerne da questão ESG, que provavelmente deve dominar a pauta dos próximos anos na alocação de recursos. Mas esse é assunto para outro dia…

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