No mês do coronavírus e das tensões geopolíticas, o dólar chegou a uma nova máxima
Pressionado pelos diversos fatores de risco surgidos no exterior, o dólar à vista disparou quase 7% em janeiro e chegou a um novo recorde em termos nominais. O Ibovespa também encerrou o mês sob pressão: caiu 1,63% e voltou aos 113 mil pontos

Durante boa parte do mês de janeiro, parecia que nada seria capaz de deter o bull market. Tivemos uma quase guerra entre Estados Unidos e Irã e um surto de uma nova doença — e lá estava o Ibovespa, firme e forte, perto das máximas. Só que, ao olharmos para o dólar à vista, podemos perceber que esse otimismo todo não era unânime.
Enquanto a bolsa conseguia se segurar perto do topo — vale lembrar que, na semana passada, o índice cravou um novo recorde, superando os 119 mil pontos — a moeda americana ia, pouco a pouco, se valorizando em relação ao real. E essa escalada culminou numa marca histórica.
Nesta sexta-feira (31), o dólar à vista fechou em alta de 0,65%, a R$ 4,2850, cravando um novo recorde de encerramento em termos nominais — a divisa nunca havia superado a barreira de R$ 4,28. Somente nesta semana, a moeda americana acumulou ganhos de 2,40%; em janeiro, o salto foi de 6,81%.
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Essa escalada ocorreu de maneira mais ou menos constante, em linha com as tensões do noticiário externo. Pode parecer que faz tempo, mas os atritos entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio ocorreram no começo de janeiro — e provocaram uma primeira onda de aversão ao risco no mercado de câmbio.
E, nas últimas semanas, um segundo movimento de cautela afetou o dólar: o surto de coronavírus, que já matou mais de 200 pessoas e contaminou quase dez mil. A doença misteriosa lança uma sombra de dúvida quanto aos possíveis impactos na economia da China e no nível de atividade global — e a incerteza é inimiga do mercado financeiro.
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Em ambos os casos, os investidores recorreram a uma estratégia clássica no mercado de câmbio: saíram dos ativos de risco — como as moedas de países emergentes — e correram para opções mais seguras, como o dólar ou o iene.
Afinal, num cenário em que não há clareza quanto ao que poderá acontecer no curto prazo, é melhor não ficar desprotegido — o vulgo "é melhor um pássaro na mão que dois voando".
Veja abaixo o comportamento do dólar à vista ao longo do mês — uma tendência nítida de valorização da moeda americana frente ao real, em respostas aos fatores de risco que surgiram no horizonte:

Vale ressaltar dois fatores sobre essa escalada do dólar:
- Esse movimento foi impulsionado por fatores externos;
- Os gatilhos para a aversão ao risco — um possível conflito armado no Oriente Médio e o surto do coronavírus — não estavam no radar do mercado até dezembro.
Esses dois pontos deixam clara a natureza volátil do mercado de câmbio. As negociações de moedas são particularmente sensíveis às variáveis externas, estando sujeitas à imprevisibilidade do noticiário.
Além disso, também é importante ressaltar a ausência de fatores domésticos mais relevantes para a valorização do dólar. Estamos falando de uma conjuntura internacional, e não de um problema localizado no Brasil — o que diminui parcialmente a preocupação do Banco Central (BC).
Sim, é verdade: o BC promoveu um leilão de linha de US$ 2 bilhões nesta sexta-feira, tentando frear a alta da moeda americana. No entanto, em termos estruturais, o mercado brasileiro não apresenta disfuncionalidades e, assim, há pouca demanda por parte dos investidores por uma atuação da autoridade monetária.
É claro que uma puxada ainda mais forte do dólar fará com que o BC se mexa e tente alimentar a demanda do mercado. A situação, contudo, ainda parece sob controle.
O Ibovespa tentou, mas...
O gráfico do dólar à vista chama ainda mais a atenção quando comparado ao do Ibovespa ao longo de janeiro. A bolsa descolou do mercado de câmbio, não cedendo a um movimento de correção logo de cara.
O índice só passou por um ajuste mais forte nos últimos dias, quando o surto de coronavírus ganhou dimensões mais preocupantes. Nesta sexta-feira, o Ibovespa fechou em queda de 1,53%, aos 113.760,57 pontos, acumulando perdas de 3,90% na semana e de 1,63% no mês.
O saldo final foi negativo, mas veja que o Ibovespa conseguiu ficar perto das máximas durante mais de dois terços de janeiro:

Há diversas explicações para esse comportamento do Ibovespa. Por um lado, a expectativa de retomada da economia brasileira em 2020 motiva um certo otimismo com a bolsa, uma vez que as empresas tendem a reportar lucros crescentes num cenário de atividade mais aquecida.
Também há a leitura de alocação estratégica: muitos investidores preferiram manter as apostas em bolsa, mas comprando dólares para proteger suas carteiras.
A ideia é continuar no mercado acionário para o caso de o cenário global não se deteriorar, mas ter uma posição em dólar para não ter perdas volumosas caso as coisas não corressem bem.
E foi exatamente isso que aconteceu nessa última semana: o coronavírus mostrou-se mais sério que o previsto e as bolsas caíram. Mas, quem tinha dólares na carteira, neutralizou as baixas das ações, já que a moeda americana subiu.
Top 5 no mês
Veja abaixo as cinco ações do Ibovespa que mais se valorizaram em janeiro:
- Via Varejo ON (VVAR3): +25,34%
- Natura ON (NTCO3): +23,04%
- Magazine Luiza ON (MGLU3): +17,51%
- Totvs ON (TOTS3): +15,65%
- IRB ON (IRBR3): +15,10%
Confira também as maiores quedas do índice no mês:
- Cia Hering ON (HGTX3): -27,09%
- CVC ON (CVCB3): -16,67%
- Cielo ON (CIEL3): -15,26%
- BRF ON (BRFS3): -13,21%
- Itaú Unibanco PN (ITUB4): -11,50%
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