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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

Mercados hoje

Nova estratégia do Fed anula pressão negativa sobre a bolsa, que fecha estável, e faz o dólar cair

Presidente do Fed anunciou hoje uma importante mudança na estratégia de política monetária do banco central norte-americano

Ricardo Gozzi
27 de agosto de 2020
17:56 - atualizado às 18:49

O buraco é um pouco mais pra cima – se estivermos tratando de ativos de risco – ou pra baixo – se o tema for a perspectiva de recuperação econômica em tempos de pandemia. Foi essa lógica do “novo normal” que prevaleceu nos mercados financeiros nesta quinta-feira depois do discurso proferido pelo presidente do Federal Reserve Bank (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell.

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Ele participou da versão virtual do tradicional simpósio de política econômica de banqueiros centrais em Jackson Hole – nome que só funciona em inglês para a bucólica localidade situada nas montanhas de Wyoming, Estados Unidos.

Em seu discurso, Jerome Powell anunciou uma importante mudança na condução da política monetária do Fed. A partir de agora, segundo ele, a estratégia da autoridade monetária norte-americana será pautada por uma taxa de inflação média. Isto significa que o Fed não vai subir os juros apenas com base na previsão de que a inflação vá acelerar, mas vai esperar para ver sinais de que a inflação, na média, encontra-se dentro da meta de 2% ao ano.

Com essa maior tolerância a possíveis pressões inflacionárias, a expectativa é de que os juros básicos nos EUA permaneçam próximos de zero por um período ainda mais prolongado.

Ao mesmo tempo em que a mudança de postura sugere uma recuperação mais lenta que a esperada da economia, ela garante a manutenção da atual abundância de liquidez nos mercados financeiros, levando os investidores a buscarem retorno em ativos mais arriscados.

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Não à toa, o comentário de Powell intensificou a queda generalizada do dólar ante outras moedas, sustentou a alta do índice Dow Jones, o novo recorde de fechamento do S&P-500. Na B3, a nova postura do Fed neutralizou o impacto negativo da tensão política no cenário local.

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Volatilidade deu o tom dos negócios na B3

O fechamento estável do Ibovespa e a queda do dólar, no entanto, não ocorreram sem sustos. A volatilidade foi intensa ao longo de toda a sessão. A bolsa passou boa parte do pregão em queda a partir do início da tarde. O recuo do dólar afetou principalmente as ações de empresas exportadoras. Quando voltou a subir, o Ibovespa não chegou a recuperar o fôlego do início da sessão e acabou fechando estável, a 100.623,64 pontos.

Confira a seguir quais foram as maiores altas e as maiores quedas do dia entre os papéis listados no Ibovespa.

MAIORES ALTAS

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  • Gol PN (GOLL4) +4,27%
  • Azul PN (AZUL4) +3,61%
  • BTG Pactual Unit (BPAC11) +2,64%
  • CSN ON (CSNA3) +2,33%
  • Bradesco ON (BBDC3) +2,09%

MAIORES BAIXAS

  • Yduqs ON (YDUQ3) -7,48%
  • BR Distribuidora ON (BRDT3) -3,27%
  • Minerva ON (BEEF3) -2,51%
  • Eco Rodovias ON (ECOR3) -2,46%
  • CCR ON (CCRO3) -2,41%

A nova postura do Fed acabou impedindo que prevalecessem os temores relacionados com o cenário fiscal brasileiro. O foco dos investidores locais dividiu-se entre a fala de Powell e o prazo dado pelo presidente Jair Bolsonaro ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para que entregue uma nova proposta referente ao programa Renda Brasil.

Ontem, em mais um episódio de fritura pública do ministro pelo presidente, a rejeição do formato proposto por Guedes para financiar o Renda Brasil fez a bolsa cair forte. Bolsonaro pediu a Guedes que apresente uma nova proposta até amanhã.

Ainda assim, a expectativa dos analistas de mercado é que, apesar de toda a turbulência em torno do programa Renda Brasil, o ministro de Economia, Paulo Guedes, chegará a uma proposta capaz de agradar o presidente Jair Bolsonaro sem comprometer o teto de gastos e a disciplina fiscal.

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"Seguimos em um ambiente desafiador para o Brasil", adverte Dan Kawa, sócio-gestor da TAG Investimentos. "Se o caminho das reformas e da estabilidade fiscal não for retomado, poderemos entrar em uma espiral negativa que será muito difícil de ser revertida", prossegue ele.

Dólar e juro

O dólar, por sua vez, voltou a cair com mais vigor em relação ao real nesta quinta-feira, mas também passou por volatilidade nesta quinta-feira.

A taxa de câmbio registrou uma alta pontual na parte da manhã, mas logo retomou a trajetória descendente até fechar em queda de 0,66%, cotada a R$ 5,5773.

O movimento de queda da moeda norte-americana foi sustentado pela fala de Powell, que desencadeou uma onda de apetite por risco que conduziu à desvalorização generalizada do dólar em relação a outras moedas.

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Os contratos de juros futuros também reagiram em queda ao discurso de Powell, mas pouco depois os temores com o cenário fiscal passaram a pesar e os juros voltaram a subir, especialmente nos vencimentos mais curtos, levando a um discreto achatamento da curva a termo.

Confira as taxas negociadas de alguns dos principais contratos negociados na B3:

  • Janeiro/2022: de 2,830% para 2,870%;
  • Janeiro/2023: de 4,070% para 4,110%;
  • Janeiro/2025: de 5,960% para 5,980%;
  • Janeiro/2027: de 6,970% para 6,960%.

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