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Preços do mercado acionário atualmente implicam recessão muito forte, mas sinais da China podem diminuir a aversão ao risco, afirma diretor da Franklin Templeton
“Dá para escolher de olhos fechados.” Entre a piada e a tragédia, é assim que Frederico Sampaio, diretor de investimentos em renda variável da Franklin Templeton Investments, inicia nossa conversa sobre as oportunidades que a bolsa brasileira oferece em um momento tão conturbado.
Piada porque as ações, em sua absoluta maioria, oferecem indistintamente tanto potencial de ganho que talvez fosse possível tomar uma decisão de investimentos sem sequer abrir os olhos. A gestora norte-americana possui hoje mais de R$ 4,1 bilhões em ações no Brasil.
Tragédia, de fato, porque as quedas abruptas das bolsas globais em um período tão volátil são o prenúncio de algo muito pior para a economia. Como uma recessão global.
Na oscilação entre um e outro se encontra a verdade: os preços dos ativos negociados na bolsa estão hoje muito abaixo de níveis funcionais. E isto porque os mercados entraram em pânico ao ver que o surto do novo coronavírus tornou-se uma pandemia, alastrando-se da China para a Europa — e, há um mês, chegando ao Brasil.
“A bolsa inteira está barata, tudo muito barato”, diz Sampaio. “Depende do apetite de risco do investidor, mas está tudo como se fosse preço de fim de liquidação.”
O mercado já prevê uma catástrofe no horizonte. Mas, depois da terra arrasada por antecipação, de onde será possível recomeçar?
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A estabilização só depende da clareza em relação à atividade econômica. Só assim os mercados poderão abandonar a apreensão e voltar a funcionar normalmente.
“Qual é o tamanho da desaceleração? Os preços de hoje implicam uma recessão muito forte. O que pode diminuir esse risk-off é a China, que já está um passo à frente sobre o vírus: quando tivermos clareza maior do impacto ali, com dados de atividade saindo, saberemos do que se trata.”
Localmente, não há o que fazer. O Banco Central, se cortar juros, pode muito bem dar a mão às empresas que se encontram mais alavancadas.
Mas o mal-estar do mercado com os fortes movimentos expansionistas — e extraordinários — do Federal Reserve, banco central americano, são um bom exemplo de como a política monetária não alivia, necessariamente, os índices acionários.
"Hoje, a melhor imagem do mercado é a de uma mola bem comprimida: quando se tira a pressão dela, vai muito para cima" – Frederico Sampaio, Franklin Templeton Investments
Depois de alcançar o recorde de quase 120 mil pontos no começo do ano, o Ibovespa foi ladeira abaixo desde o fim de fevereiro até chegar aos 63.569 pontos do fechamento desta segunda-feira. Teria, afinal, como ficar pior?
“Não vejo muito downside [queda] do que está aí. O que vejo é um horizonte de médio prazo incrível para ganhar dinheiro. No fim do ano, a tendência é que esteja em plena recuperação”, afirma o diretor da Franklin Templeton.
Para Sampaio, o cenário para a bolsa é promissor, com projeção de volta aos fortes patamares vistos anteriormente, mesmo na incerteza dos mares da renda variável. A dificuldade atual, diz ele, é a visibilidade sobre a atividade de uma forma geral, bem como a projeção sobre os lucros corporativos.
Sampaio acredita que o Brasil foi sucessivamente carregado por eventos externos — a disseminação do coronavírus, o tombo do petróleo e a resposta do Fed —, mas que, mais recentemente, o mercado teve um desconforto adicional de ordem doméstica: a derrubada do veto do presidente Jair Bolsonaro à elevação do piso do BPC.
"Claramente ali teve um movimento particular de Brasil, que refletiu um desconforto sobre o teto de gastos, visto também na curva longa de juros", diz Sampaio. "Lá fora, enquanto isso, o Fed cortava juros e o BC ficava refém desses eventos."
Outros eventos que continuarão a mexer no mercado continuarão a se relacionar, entretanto, com o cenário externo. Entre eles, a próxima reunião da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e os dados de atividade da China do período pós-surto.
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